Operação
Casas Bahia entra com pedido de recuperação judicial
O Grupo Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial no domingo (16), no Foro Central Cível de São Paulo, especializado em falências e recuperações judiciais. A decisão foi aprovada pelo Conselho de Administração e pelo acionista controlador da companhia.
O pedido abrange a Casas Bahia e outras nove empresas do grupo, entre elas a Bartira, fabricante de móveis, além de negócios ligados a logística, tecnologia e comércio eletrônico. A companhia afirmou que pretende manter lojas físicas, e-commerce e marketplace em funcionamento normal durante o processo.
Segundo a Casas Bahia, o pedido decorre de um cenário de juros elevados, crédito mais restrito e aumento das despesas financeiras. A empresa também citou a queda no consumo das famílias.
A companhia informou ainda que não conseguiu concluir negociações para novas fontes de recursos que vinham sendo estruturadas.
O que diz o Grupo Casas Bahia
Em comunicado enviado ao mercado, a companhia confirmou que a medida judicial impacta pagamentos de aproximadamente R$ 17,3 bilhões. O valor está distribuído entre bancos, fundos de investimento, seguradoras, fornecedores, além de aluguéis e dívidas trabalhistas.
O CEO do Grupo Casas Bahia, Renato Franklin, afirmou que a evolução obtida nos últimos anos, embora fundamental, “não foi suficiente diante de um cenário de crédito mais restritivo, juros elevados e consumo pressionado”.
Segundo o executivo, a companhia também avaliava um aporte de capital, via equity ou novas linhas de crédito. A deterioração do cenário global e a maior aversão ao risco inviabilizaram essas negociações.
Franklin disse ainda que “a recuperação judicial faz parte de uma reorganização do passivo da empresa de forma mais ampla”, com o objetivo de ajustar as obrigações da companhia sem interromper as medidas operacionais da Fase 2 do Plano de Transformação.
A companhia afirmou que o pedido não interrompe sua operação. Lojas físicas e canais digitais seguem funcionando, assim como o atendimento a clientes e o trabalho com fornecedores.
O que ainda não foi divulgado
A Justiça de São Paulo ainda não havia confirmado, até a publicação desta reportagem, o deferimento do processamento. É essa decisão que formalmente abre o processo e suspende temporariamente as cobranças de credores.
Outros dados também seguem sem divulgação: o número de credores e os escritórios de advocacia e assessoria financeira contratados para a reestruturação.
Uma Assembleia Geral Extraordinária deve ser convocada para ratificar o pedido, ainda sem data definida.
Recuperação judicial da Casas Bahia: o que mostrou o balanço
O pedido de recuperação judicial vem poucos dias depois de a companhia divulgar o balanço do segundo trimestre de 2026, adiado de 12 para 14 de agosto. O documento trouxe prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no período.
O valor equivale a cerca de 18 vezes o prejuízo de R$ 555 milhões registrado no mesmo trimestre de 2025.
Foi o oitavo trimestre consecutivo de prejuízo da companhia. O último resultado positivo havia sido no segundo trimestre de 2024, mesmo período em que o grupo recorreu à recuperação extrajudicial pela primeira vez.
O patrimônio líquido da Casas Bahia ficou negativo em R$ 8,27 bilhões em 30 de junho.
A dívida líquida, por outro lado, caiu de R$ 4,95 bilhões no segundo trimestre de 2025 para R$ 1,2 bilhão no mesmo período deste ano.
A auditoria independente do balanço foi feita pela Ernst & Young (EY). A EY registrou incerteza relevante quanto à capacidade de continuidade operacional da companhia.
A auditoria afirmou ainda não ter conseguido concluir sobre o uso da base contábil de continuidade operacional na data-base do balanço.
Fechamento de lojas e demissões
Entre 13 e 14 de agosto, a Casas Bahia encerrou as atividades de 298 lojas em todo o país, cerca de 28,6% da rede que tinha no fim de 2025. A companhia passou a operar com 1.033 unidades.
O fechamento das lojas levou a demissões estimadas entre 1,9 mil e 2 mil funcionários, segundo reportagens do setor. Um sindicato já se manifestou publicamente cobrando reintegração e indenização para os trabalhadores desligados.
A companhia atribuiu as lojas fechadas a critérios de desempenho operacional, necessidade de capital empregado e retorno econômico diante do atual custo de capital. A reestruturação de pessoal e o fechamento de lojas, em conjunto, geraram provisão de R$ 502 milhões no balanço do trimestre.
Segundo a companhia, a Fase 2 do Plano de Transformação segue com revisão dos canais digitais, adequação de estoques e capital de giro, além de menores investimentos e busca por alternativas de redução do custo financeiro.
A recuperação extrajudicial de 2024 da Casas Bahia
A crise financeira da Casas Bahia não é nova. Em 28 de abril de 2024, a companhia já havia entrado com um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 4,1 bilhões em dívidas financeiras, sobretudo debêntures e Cédulas de Crédito Bancário com bancos e debenturistas.
Bradesco e Banco do Brasil, juntos, detinham 54,5% dos créditos incluídos no plano.
Em 19 de junho de 2024, a 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo homologou o plano. O juiz Jomar Juarez Amorim julgou improcedentes as impugnações apresentadas pela Opea Securitizadora e pela Pentágono Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, que questionavam o quórum de credores.
O plano estendeu o prazo médio de pagamento da dívida de 22 para 78 meses, com carência de 24 meses para juros e de 30 meses para o principal. O custo da dívida caiu de CDI mais 2,7% para uma faixa entre CDI mais 1% e CDI mais 1,5%.
Como contrapartida, os bancos credores ganharam o direito de converter 63% dos valores devidos em ações da companhia.
Pelos cálculos da própria Casas Bahia à época, o novo perfil da dívida preservaria R$ 4,3 bilhões em caixa até 2027.
Por que a extrajudicial não resolveu
A recuperação extrajudicial de 2024 cobriu apenas a dívida financeira negociada previamente com bancos e debenturistas. Ela não alcançou fornecedores, empregados nem tributos, e permitiu à companhia seguir operando sem as restrições e o desgaste de imagem associados a uma recuperação judicial.
Analistas de mercado já vinham apontando, antes da divulgação do balanço, que o fechamento de centenas de lojas e o desligamento de milhares de funcionários criam passivos trabalhistas, locatícios e de fornecedores. Um plano extrajudicial, voltado apenas a credores financeiros, não é capaz de equacionar esse tipo de passivo.
A carência obtida em 2024 também se aproximava do fim em 2026, reduzindo o fôlego de caixa que havia sido conquistado.
Passados pouco mais de dois anos entre a homologação da recuperação extrajudicial e o novo pedido, a companhia recorre agora a um instrumento mais amplo, que suspende temporariamente as cobranças de credores em geral e depende da aprovação de um plano de reestruturação em assembleia.
A Central do Varejo mantém espaço aberto para novos posicionamentos do Grupo Casas Bahia sobre os temas tratados nesta reportagem.
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Imagem: Divulgação