NRF2026
Cenário econômico global e consumo: os alertas e tendências apontados por Ira Kalish
Durante a NRF 2026, o economista-chefe global e dos Estados Unidos da Deloitte, Ira Kalish, apresentou um panorama sobre economia, consumo e riscos estruturais que devem influenciar decisões empresariais nos próximos anos. A análise abordou Estados Unidos, Europa, China e os impactos da inteligência artificial sobre crescimento, inflação e mercado de trabalho.
Segundo Kalish, o cenário atual é marcado por assimetrias crescentes, incerteza macroeconômica e uma transição ainda incompleta dos motores de crescimento global.
Consumo nos Estados Unidos: crescimento concentrado na alta renda
Kalish afirmou que o consumo nos Estados Unidos segue resiliente, mas de forma cada vez mais desigual. “O crescimento do consumo está sendo sustentado de maneira desproporcional pelas famílias de alta renda”, disse. Esse grupo é beneficiado diretamente pela valorização do mercado de ações, enquanto famílias de renda média e baixa enfrentam maior pressão financeira.
“O consumo americano está altamente polarizado”, afirmou. Segundo o economista, o aumento do endividamento e o custo elevado do crédito têm restringido a capacidade de gasto das camadas intermediárias da população, criando um desequilíbrio estrutural no padrão de consumo.
Desaceleração salarial e perda de poder de compra
Outro ponto de atenção é a desaceleração do crescimento salarial. Kalish destacou que, após um período de forte alta, os salários nos Estados Unidos entraram em trajetória de desaceleração, com tendência de enfraquecimento ao longo de 2025.
“Há uma preocupação real com o declínio do poder de compra do consumidor”, afirmou. Para ele, esse movimento ocorre em um contexto no qual os custos de financiamento permanecem elevados, mesmo com sinais de flexibilização da política monetária.
Política monetária e incerteza do Federal Reserve
Kalish avaliou que o Federal Reserve iniciou o ciclo de cortes nas taxas de curto prazo, mas demonstrou hesitação em avançar de forma mais agressiva. “A incerteza sobre inflação, crescimento e mercado de trabalho gera incerteza nos mercados”, disse.
Segundo o economista, o ambiente combina dólar mais fraco com custos de empréstimos ainda altos, o que dificulta decisões de investimento e planejamento de longo prazo para empresas e consumidores.
Tarifas, comércio exterior e inflação
Kalish fez críticas à eficácia das tarifas como instrumento de política econômica. “Déficits comerciais não são necessariamente ruins e não são causados apenas por barreiras comerciais”, afirmou. Para ele, tarifas tendem a elevar custos para fabricantes domésticos, reduzindo a competitividade global.
O impacto inflacionário, segundo Kalish, foi inicialmente “mudo”, amortecido por estoques formados antes da imposição das tarifas e pela compressão de margens por parte dos produtores. “Se as tarifas forem percebidas como permanentes, a inflação tende a acelerar em 2026”, alertou.
Entre as consequências estão queda no sentimento do consumidor e maior incerteza nos investimentos em cadeias globais de manufatura.
Imigração e escassez de mão de obra
Kalish destacou que a redução nos fluxos migratórios tem provocado crescimento mais lento da força de trabalho nos Estados Unidos. “Isso gera escassez de mão de obra e pressiona a inflação”, afirmou.
No longo prazo, a menor imigração representa riscos adicionais. “Há impactos negativos sobre inovação, empreendedorismo e estabilidade fiscal, especialmente em um contexto de envelhecimento demográfico”, disse.
Europa: estímulo fiscal e desafios estruturais
Na Europa, o economista apontou que o aumento dos gastos com defesa atua como um estímulo fiscal relevante no curto prazo, impulsionando a atividade econômica. O euro mais forte também contribui para conter pressões inflacionárias.
No entanto, Kalish ressaltou problemas estruturais persistentes. “Baixa produtividade, fragmentação política e crise demográfica seguem limitando o potencial de crescimento da região”, afirmou.
China: crescimento moderado e tensões estruturais
Sobre a China, Kalish avaliou que o crescimento segue modesto, apesar dos estímulos adotados pelo governo. “A crise no setor imobiliário continua sendo o principal obstáculo”, disse.
Ele destacou ainda a estratégia externa do país, baseada na diversificação de exportações, reduzindo a dependência dos Estados Unidos, e no uso de terras raras como instrumento de influência geopolítica.
Inteligência artificial: crescimento agora, disrupção depois
A inteligência artificial apareceu como um dos principais vetores de crescimento no curto prazo. Segundo Kalish, a IA tem impulsionado o PIB e o mercado de ações nos Estados Unidos, mas também gera efeitos colaterais.
“Estamos vendo aumento nos custos de energia devido ao alto consumo elétrico dos data centers”, afirmou. No mercado de trabalho, já há evidências de redução na contratação de recém-formados.
No longo prazo, o economista vê potencial para ganhos reais de produtividade e até efeitos deflacionários. “A IA pode reduzir preços, criar novas indústrias e transformar a economia, mas isso virá acompanhado de uma disrupção significativa no mercado de trabalho tradicional”, concluiu.
Imagem: Patricia Cotti
(*) Patricia Cotti – Ganhadora do Digital Transformation Awards, Sócia Diretora da Goakira, Diretora de Pesquisa do IBEVAR, Colunista Central do Varejo, Professora dos MBAs da FIA, ESPM, ESECOM, USP. Saiba mais sobre as soluções da Goakira em https://goakira.com.br/
*A missão NRF 2026 é uma realização da Central do Varejo, com patrocínio da TOTVS e Getnet.
