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O próximo agora chegou: como a IA está redefinindo o varejo em tempo real
Durante muito tempo, o varejo falou sobre o futuro como algo distante, quase abstrato. Tecnologias eram apresentadas como tendências em estágio experimental, conceitos interessantes, mas pouco conectados à rotina da operação. Essa separação entre “presente” e “futuro” moldou uma mentalidade que já não se sustenta.
A NRF 2026 evidencia isso ao adotar o tema “The Next Now is Here”. A mensagem é clara: o futuro saiu da categoria de tendência e entrou na de prática. Ele já está acontecendo nas lojas, nos centros de distribuição, nos canais digitais e, sobretudo, na forma como dados e inteligência artificial orientam decisões em tempo real.
Essa virada fica clara quando observamos o estágio de maturidade da Inteligência Artificial e da automação.O varejo deixou de perguntar se deve adotar IA e passou a discutir como escalar, integrar e governar essas tecnologias de forma estratégica.
Hoje, cerca de 90% das empresas do setor já utilizam IA ou mantêm projetos em fase de implementação, segundo estudo realizado pela Kodif, o que mostra que a tecnologia deixou de ser periférica e passou a ocupar o centro das decisões de negócio.
Na prática, a IA já se consolidou como um verdadeiro motor operacional. Varejistas que adotam soluções baseadas em inteligência artificial registram aumento de receita entre 5% e 15% ao ano e reduções de custos operacionais que podem chegar a 30% de acordo com a análise da AllAboutAI,resultado direto da automação da tomada de decisão orientada por dados.
Algoritmos de previsão de demanda alcançam níveis de precisão próximos a 95%, reduzindo rupturas e excessos de estoque, enquanto sistemas de precificação dinâmica ajustam valores em tempo real conforme comportamento do consumidor, nível de concorrência e condições de mercado.
Na logística, o uso de análises preditivas permite reduzir custos entre 5% e 20% e diminuir estoques em até 30%, de acordo com pesquisa realizada pela McKinsey, um diferencial relevante em um cenário de margens cada vez mais pressionadas.
Esse é o momento em que o “próximo agora” se materializa: decisões antes guiadas por histórico e intuição passam a ser orientadas por modelos preditivos e aprendizado contínuo, o que permite antecipar movimentos e ajustar operações quase em tempo real.
A transformação mais visível, no entanto, acontece na experiência do consumidor. A personalização, que por muitos anos foi tratada como um ideal complexo e difícil de executar, tornou-se operacionalmente viável com o avanço da IA generativa e dos agentes inteligentes. Hoje, mais de 70% dos consumidores afirmam preferir marcas que oferecem experiências personalizadas, e estratégias baseadas em IA podem elevar as taxas de conversão em até 30%, mostra pesquisa feita pela Zipdo.
Sistemas de recomendação já respondem por cerca de um terço das vendas no e-commerce, enquanto recursos como busca visual, provadores virtuais e jornadas omnicanal inteligentes ampliam engajamento, tempo de permanência e ticket médio, não se trata mais de segmentar públicos, mas de dialogar com indivíduos, considerando comportamento, contexto, intenção e momento de compra.
Os agentes inteligentes representam um novo capítulo dessa evolução: deixam de atuar de forma reativa e passam a antecipar necessidades, resolver problemas e aprender com cada interação. No atendimento ao cliente, isso se traduz em experiências mais fluidas, rápidas e resolutivas, com redução drástica no tempo de resposta. Na operação, significa decisões mais integradas entre canais físicos e digitais, criando um varejo mais conectado, adaptável e responsivo.
A IA generativa amplia ainda mais o alcance dessa transformação. Além de impactar marketing e comunicação, com conteúdos personalizados em escala, ela começa a influenciar o desenvolvimento de produtos, o treinamento de equipes e a análise estratégica de negócios. Executivos passam a interagir com dados de forma conversacional, reduzindo barreiras técnicas e acelerando o tempo entre insight e ação.
Ao mesmo tempo, a NRF 2026 deixa claro que tecnologia sozinha não é estratégia. À medida que a IA se torna parte estrutural do varejo e ganha força em debates essenciais sobre governança, ética, segurança da informação e confiança do consumidor. O uso intensivo de dados exige transparência, responsabilidade e alinhamento com os valores da marca, inovar rápido é importante, mas sustentar essa inovação no longo prazo é o verdadeiro desafio do “próximo agora”.
Outro ponto central é o impacto cultural dentro das organizações. A automação não substitui o fator humano, ela redefine papéis, pois os profissionais passam a atuar de forma mais analítica, apoiados por sistemas inteligentes. O varejo que prospera investe em capacitação, mudança de mindset e colaboração entre áreas, criando ambientes preparados para aprender, experimentar e evoluir continuamente.
Ao afirmar que “o próximo agora chegou”, a NRF 2026 convida o setor a abandonar a postura de observador e assumir o papel de protagonista. Varejistas que compreendem essa mudança não estão apenas acompanhando tendências, mas redesenhando seus modelos de negócio em tempo real.
No fim, a grande provocação da NRF é simples: o futuro do varejo não está sendo testado em laboratórios isolados, mas construído nas decisões que líderes tomam hoje. A IA deixou de ser promessa para se tornar base estrutural do agora.

*Alessandro Gil é vice-presidente da Wake.
