Economia

Não há como escapar das tarifas automotivas de Trump, diz ex-CEO da Ford

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produção industrial automobilística; tarifas

Não há onde se esconder das tarifas impostas pelo presidente Donald Trump à indústria automotiva, afirmou o ex-CEO da Ford, Mark Fields. “O custo dos veículos vai subir. É pura matemática. A verdade é que não há um só veículo que não será afetado pelas tarifas,” disse Fields à CNN em entrevista por telefone.

A tarifa de 25% imposta por Trump sobre carros importados entrou em vigor na quinta-feira, como parte da estratégia do presidente para impulsionar os empregos na indústria norte-americana. O governo planeja aplicar tarifas semelhantes sobre peças automotivas até o dia 3 de maio. Segundo o Bank of America, a tarifa de 25% sobre peças importadas aumentará os custos dos veículos montados nos EUA em cerca de US$ 26 bilhões — em média, US$ 3.285 por veículo.

Mesmo carros produzidos nos EUA provavelmente ficarão mais caros, pois utilizam muitas peças importadas. O Goldman Sachs estima que o custo dos carros estrangeiros vendidos nos EUA aumentará entre US$ 5.000 e US$ 15.000 por veículo devido às tarifas.

Consumidores não aceitarão facilmente aumentos

Fields acredita que as montadoras absorverão parte desses custos, repassando o restante para os consumidores na forma de preços mais altos e menores descontos.

Mas não se sabe se os consumidores terão disposição para absorver os aumentos, especialmente num momento em que os preços já estão próximos a patamares recordes.

“Em nossa visão, esses aumentos destruirão a demanda, já que a acessibilidade já é um desafio para muitos compradores,” alertaram analistas do Bank of America.

Caso as montadoras repassem integralmente a tarifa de 25%, as vendas de automóveis nos EUA podem cair cerca de 3,2 milhões de veículos, aproximadamente 20% das vendas anuais atuais, segundo estimativas do Bank of America.

Os analistas apontaram que mesmo repassando apenas 15% dos custos tarifários, as vendas ainda cairiam cerca de 2,5 milhões de veículos.

Na semana passada, o Wall Street Journal noticiou que Trump ameaçou os CEOs das montadoras com tarifas ainda maiores caso elevassem os preços em resposta às tarifas.

Trump negou essa afirmação em entrevista à NBC:

“Nunca disse isso,” afirmou Trump à jornalista Kristen Welker. “Não me importo se aumentarem os preços, porque as pessoas começarão a comprar carros americanos.”

Fields, ex-CEO da Ford, considera a ideia de pedir aos CEOs que não aumentem preços “simplesmente irrealista”.

“É apenas mais uma maneira de impor controle de preços. É muito intimidador quando o presidente diz ‘absorvam os custos e aceitem prejuízos’. Como quantificar o risco de irritar o presidente?”, questionou Fields.

Trump prevê aumento significativo de empregos

A Casa Branca argumenta que as tarifas aumentarão drasticamente a produção e os empregos no setor automotivo.

“Isso levará à construção de muitas fábricas, neste caso fábricas de automóveis,” disse Trump ao anunciar as tarifas. “Vocês verão números inéditos em termos de emprego. Teremos muita gente produzindo muitos carros.”

No entanto, é possível que empregos sejam perdidos caso as tarifas reduzam a demanda a ponto de fábricas precisarem desacelerar ou parar a produção. Por exemplo, centenas de trabalhadores da empresa siderúrgica Cleveland-Cliffs foram dispensados em Minnesota devido à redução de encomendas após as tarifas automotivas.

Os fornecedores americanos precisariam repensar suas cadeias logísticas caso fábricas de montagem no México e Canadá sejam fechadas devido às tarifas. Segundo analistas, isso poderia resultar em paradas na produção.

Para incentivar consumidores diante das tarifas, a Ford anunciou que reduzirá temporariamente preços oferecendo aos consumidores preços iguais aos praticados para funcionários, entre 3 de abril e 2 de junho.

“Sabemos que estes são tempos incertos para muitos americanos. Seja navegando numa economia complexa ou simplesmente precisando de um carro confiável, queremos ajudar,” afirmou a Ford em comunicado.

Realocar fábricas não é tarefa fácil

Apesar disso, Fields reconheceu que as tarifas provavelmente levarão algumas montadoras a realocarem empregos de volta aos EUA. O Bank of America estima que cerca de 1 milhão de veículos poderiam ser realocados para fábricas americanas existentes.

Mas mover uma fábrica não é algo fácil, simples ou rápido. Readequar instalações atuais ou construir novas leva anos e exige investimentos bilionários.

“As montadoras precisam calcular custos e retornos por décadas. Hoje é difícil prever sequer os próximos 10 minutos,” disse Sean Tucker, editor-chefe da consultoria automotiva Kelley Blue Book.

Além disso, surge outra questão: existem trabalhadores suficientes para atender ao aumento das fábricas americanas, dado o envelhecimento da população e as restrições atuais à imigração?

“Ninguém está discutindo de onde virá essa mão de obra,” disse Fields, relembrando as dificuldades da Ford em contratar e reter funcionários mesmo durante a lenta recuperação pós-recessão. “Era difícil encontrar pessoas qualificadas para trabalho duro e repetitivo na linha de montagem. Muitos desistiam por achar o trabalho pesado demais.”

Mesmo que as montadoras encontrem trabalhadores, terão que pagar salários e benefícios maiores que no México, elevando ainda mais os custos, que novamente seriam parcialmente repassados aos consumidores.

Segundo o Bank of America, seria “essencialmente impossível” trazer de volta grande parte das fábricas de autopeças devido aos altos custos trabalhistas e à falta de mão de obra nos EUA.

Vencedores inesperados

Uma consequência imprevista das tarifas é que as montadoras podem priorizar veículos mais caros e com maior margem, eliminando modelos mais baratos. Isso dificultará o acesso dos americanos a qualquer veículo.

“Isso agravará a necessidade por transporte acessível,” alertaram os analistas. Essa lacuna poderia ser preenchida por alternativas mais baratas produzidas por montadoras chinesas como BYD e Geely caso se instalem nos EUA.

Fields acredita que as tarifas e a guerra comercial acabarão prejudicando as montadoras ocidentais a longo prazo. Ironicamente, o maior beneficiado pode ser justamente o país mais atacado por Trump:

“Os grandes vencedores serão os fabricantes chineses,” afirmou Fields. “Enquanto as montadoras ocidentais se distraem gerenciando tarifas, as chinesas continuarão inovando discretamente.”

Imagem: Reprodução
Informações: Matt Egan para CNN
Tradução livre: Central do Varejo

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