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A era dos multiagentes: como levar a IA para a última linha do seu P&L
Principalmente nos últimos dois anos, vivemos a “fase do encantamento” com a Inteligência Artificial. Vimos o ChatGPT redigir e-mails, criar imagens e responder perguntas básicas de algo que queríamos saber com mais urgência e até assertividade. Para muitas diretorias, a IA virou um tipo de “brinquedo de luxo” — algo fascinante para se discutir em reuniões, mas que raramente movia o ponteiro do lucro líquido.
No entanto, ao retornar da NRF 2026, e até do que vem acontecendo nos últimos anos, já está claro que a proposta é outra: o tempo dos experimentos isolados acabou. Entramos na era dos multiagentes.
Se você ainda enxerga a IA apenas como um “chat” para tirar dúvidas, você está deixando dinheiro na mesa e não aproveitando todo potencial que uma IA pode oferecer para você e para o seu negócio. A verdadeira revolução não está em falar com a IA, mas em deixá-la trabalhar de forma integrada nos seus processos operacionais.
O que são os multiagentes e por que eles mudam o jogo?
Diferente de uma IA isolada, um sistema de multiagentes consiste em “especialistas digitais” que colaboram entre si. Imagine um agente focado em previsão de demanda conversando em tempo real com um agente de Logística e outro de Precificação Dinâmica.
Eles não apenas dão sugestões; eles executam. Eles monitoram o estoque, identificam que um produto vai faltar em SP e sobrar no RS, por exemplo, e já disparam a ordem de transferência e o ajuste de preço no site para equilibrar a margem.
Isso não é o hype do varejo, muito pelo contrário. É a eficiência operacional aplicada diretamente na última linha do seu P&L.
Saindo da Faria Lima e indo para o chão de loja
A IA só gera valor real quando deixa de ser uma ferramenta da diretoria e vira o “copiloto” de eficiência para todo o time. Onde isso acontece na prática?
- Logística e estoque: onde moram os maiores custos ocultos do varejo. Agentes de IA que otimizam rotas e níveis de estoque em tempo real reduzem o burn de capital e o custo de frete.
- Customer Experience de alta performance: não é mais sobre um chatbot que responde FAQ. É sobre agentes que têm autonomia para resolver reembolsos, rastrear pedidos e oferecer descontos personalizados para salvar uma venda em risco, sem intervenção humana constante.
- Compras e suprimentos: agentes que negociam com fornecedores baseados em dados de mercado, garantindo que a compra seja feita no momento exato da melhor margem.
O desafio da liderança: da curiosidade à governança
O maior erro que vejo hoje é o “Shadow AI” — quando os colaboradores usam ferramentas por conta própria, de forma desestruturada. Para que a IA impacte o seu lucro, é preciso Governança.
Como líderes, nossa missão é instruir a média gerência. A IA precisa ser democratizada dentro da companhia. Se o seu gerente de logística não sabe como a IA pode otimizar a carga, o seu investimento em tecnologia foi apenas custo.
Em 2026, a pergunta não é mais “se” você vai usar IA, mas “em quantos processos” ela já está integrada. O varejo que escala é aquele que entende que a tecnologia é um meio para um fim muito objetivo: margem.
Se a IA não está reduzindo o seu CAC ou aumentando o seu LTV, você está apenas seguindo uma tendência. Se ela está otimizando o seu P&L, você está liderando o mercado.
A era dos brinquedos acabou. Bem-vindos à era dos resultados.
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(*) Adriano Tavollassi é Fundador da LEAP e possui formação em Marketing pela FAAP, e em Pós-Graduação em Administração pelo Mackenzie. Foi pioneiro na integração de canais online e físicos, consolidando o conceito de Omnichannel no País em grandes empresas.
