Comportamento
Carnaval 2026: como deve impulsionar o varejo
O Carnaval 2026 reforça seu papel muito além do calendário cultural brasileiro. A festa, que tradicionalmente mobiliza milhões de consumidores, turistas e empresas, deve provocar um crescimento estimado de 4,9% no volume de negócios do varejo em relação a 2025, segundo um estudo inédito do IBEVAR – Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo, em parceria com a FIA Business School.
Os dados mostram que o Carnaval não reduz o consumo agregado da economia, mas reorganiza profundamente a alocação dos gastos, favorecendo serviços, turismo e consumo imediato, ao mesmo tempo em que freia categorias ligadas a compras planejadas e bens duráveis. Para o varejo, trata-se de um período estratégico, com impactos assimétricos entre segmentos, canais e regiões.
Carnaval como motor econômico previsível
A análise do IBEVAR, que abrange o período de 2020 a 2025, aponta que o Carnaval funciona como um catalisador econômico previsível, com efeitos recorrentes ano após ano. A redução dos dias úteis, a mudança no comportamento do consumidor e a priorização de experiências coletivas fazem com que parte relevante da renda seja deslocada do varejo de bens para o setor de serviços.
Ainda assim, o saldo é positivo. O crescimento projetado de quase 5% em 2026 reflete o fortalecimento do consumo emocional e imediato, característico do período, além do avanço do turismo interno e da intensificação da circulação de pessoas nos grandes centros urbanos e destinos carnavalescos.
Bens duráveis perdem espaço durante o Carnaval
Um dos principais achados do estudo é a retração média de 8,6% nas vendas do varejo de bens em relação à tendência histórica durante o período carnavalesco. O impacto negativo está associado à postergação de decisões de compra de maior valor, menor fluxo em lojas físicas voltadas ao consumo planejado e à redução do tempo disponível para atividades de compra mais racionais. Entre os segmentos mais afetados estão:
- Moda social e formal: queda de 18%
- Calçados sociais: retração de 15%
- Eletrodomésticos: recuo de 9%
- Móveis e decoração: queda de 8%
- Serviços educacionais presenciais: redução de 12%
Esses dados reforçam a importância de estratégias sazonais específicas para o período, como campanhas pré-Carnaval, antecipação de promoções e ações de retomada no pós-evento.
Serviços e consumo corrente lideram o crescimento
Na direção oposta, o varejo de serviços e as categorias de consumo imediato apresentam desempenho expressivamente positivo. O estudo aponta que supermercados, itens ligados à festa, higiene pessoal e beleza, além de bares, restaurantes, transporte e hotelaria, concentram grande parte do crescimento no período. As categorias com maior expansão incluem:
- Supermercados e hipermercados: crescimento de 25,9%
- Fantasias e roupas temáticas: alta de 29%
- Bebidas mistas: aumento de 26%
- Protetor solar: crescimento de 20%
- Maquiagem e glitter: alta de 18%
O comportamento reforça a lógica do consumo por impulso, fortemente influenciado pela socialização, pela estética carnavalesca e pelo aumento do tempo fora de casa.
Turismo em alta e busca por experiências autênticas
O turismo é um dos grandes beneficiados pelo Carnaval 2026. Segundo o levantamento, há uma clara preferência por destinos com identidade carnavalesca consolidada, como Salvador, Olinda e Rio de Janeiro, que lideram o crescimento da demanda entre 2024 e 2026.
O consumidor busca experiências culturais autênticas, vivências coletivas e conexão com tradições locais. Blocos de rua, trios elétricos, desfiles e festas populares continuam sendo fortes atrativos, impulsionando não apenas a hotelaria, mas também transporte, alimentação, comércio local e serviços informais.
No entanto, o estudo também aponta desafios estruturais recorrentes nesses destinos, como superlotação, elevação de preços, limitações de infraestrutura urbana, problemas de mobilidade e questões de segurança — fatores frequentemente mencionados em análises de opinião e redes sociais.
Impacto financeiro e aumento da inadimplência
Apesar do impacto positivo no volume de negócios, o Carnaval também impõe custos à saúde financeira das famílias. Em 7 de 10 movimentos analisados entre 2020 e 2025, considerando tanto o crédito rotativo quanto o parcelado, houve aumento da inadimplência após o período carnavalesco.
O dado indica maior uso de crédito de curto prazo para financiar o consumo intensificado durante a festa, especialmente em categorias como viagens, alimentação fora do lar e entretenimento. Para o varejo, o cenário exige atenção redobrada às políticas de crédito, comunicação responsável e estratégias de fidelização no pós-Carnaval.
O que o varejo pode aprender com o Carnaval 2026
O estudo do IBEVAR reforça que o Carnaval não deve ser tratado como um período de retração generalizada, mas como um momento de redistribuição setorial do consumo. Para empresas do varejo, entender essa dinâmica é essencial para planejar sortimento, campanhas, estoques, preços e canais de venda.
Segundo Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School, o Carnaval redefine a composição do consumo sem destruí-lo. “A retração nos bens duráveis é compensada pelo forte avanço dos serviços, do turismo e do consumo corrente, resultando em impacto líquido positivo para a economia. O Carnaval funciona como um catalisador econômico previsível, que impulsiona serviços e turismo, mas impõe custos ao varejo de bens, à infraestrutura urbana e à saúde financeira das famílias”, afirma.
Carnaval 2026: planejamento é a palavra-chave
Para 2026, o cenário indica oportunidades claras para quem souber antecipar tendências, adaptar estratégias e dialogar com o comportamento real do consumidor. O Carnaval segue sendo um dos eventos mais relevantes do calendário econômico brasileiro, com efeitos que vão muito além da festa — e que exigem leitura estratégica, dados e planejamento por parte do varejo.
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
