Mulheres do Varejo
É muito difícil encontrar mulheres competentes. Foi o que ouvi de um fornecedor
Eu atuava como CFO em uma grande multinacional.
Além das áreas transacionais de Finanças, estavam sob minha responsabilidade o planejamento estratégico, tributário, a gestão de riscos corporativos, jurídico e compras indiretas, que envolviam CapEx, itens de não revenda e contratação de serviços.
Conversar com fornecedores fazia parte da rotina.
Naquele dia, recebi uma empresa de palestras corporativas.
Portfólio impecável. Diagramação elegante. Nomes de peso.
Folheei as páginas com atenção.
Para cada área: economia, finanças, liderança, esporte e até humor, havia uma referência indiscutível.
E uma coincidência incômoda.
Trinta nomes.
Todos homens.
Todos brancos.
Perguntei, com genuína curiosidade, sobre o critério de escolha.
A resposta veio simples, quase técnica:
“É muito difícil encontrar mulheres competentes.”
Repeti mentalmente a frase enquanto observava quem estava à minha frente.
Ela era uma mulher. Cofundadora e CEO da empresa de palestrantes.
Eu, mulher e CFO em uma multinacional.
Ao final da reunião, agradeci a visita e propus uma reflexão: que seu elenco refletisse mais pluralidade.
Ofereci ajuda, pois conheço centenas, sem exagero algum, de mulheres brilhantes.
Ela não me procurou.
Um ano depois, recebi o novo portfólio.
Agora, com 20% de mulheres espetaculares. Daquelas para aplaudir de pé.
Fiquei muito feliz.
Desde esse episódio, sigo com a sensação de que avançamos, mas com passos tímidos demais.
No Brasil, há 27% mais mulheres com ensino superior do que homens. Ainda assim, elas ocupam apenas 39% dos cargos gerenciais e recebem, em média, 26% menos.
Somos 52% da população, mas ocupamos menos de 18% das cadeiras parlamentares.
Em Finanças, apenas 17% das posições C-Level são ocupadas por mulheres.
Quando falamos de CEO, mulheres representam cerca de 6%.
E, como Presidentes de Conselhos de Administração, aproximadamente 10%.
Vivemos a internalização de um padrão cultural que historicamente associa autoridade à masculinidade.
No Brasil, a narrativa da liderança ainda tem gênero e cor.
Mudar esse cenário demanda mais do que flores ou bombons em março.
É preciso admitir que competência nunca foi o problema e agir para reconhecer e promover o talento feminino.
A propósito, se você precisar de indicação de mulheres incrivelmente capacitadas, pode me procurar.
Eu consigo te ajudar.
Feliz mês das mulheres.
E que, no próximo ano, possamos comemorar mais de nós em espaços de decisão.
Leia também: Um espaço para todas nós

*Vera Bermudo. CFO, Conselheira de Administração certificada pelo IBGC e Membro dos Comitês de Ética e Compliance, Expansão, Finanças e Gestão de Riscos na Plurix, vertical de varejo alimentar do Grupo Pátria Investments.
Professora nos MBAs da FGV e cofundadora do Wakaro (@wakarotv), plataforma educativa focada em gestão, governança e inovação.
Escritora acadêmica, PhD pela Universidade da Florida, Mestre pelo IBMEC e MBA pela UFF, todos com especialização em Finanças, e Graduação em Administração e Contabilidade.
Formação Executiva em instituições de referência como Harvard Business School, Columbia University e GE Crotonville (EUA). Acompanhe a autora no LinkedIn.
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