NRF2026
Keynote da NRF 2026 aponta a virada de plataforma em IA e redesenha o futuro do varejo
A keynote session “The AI Platform Shift and the Opportunity Ahead for Retail”, apresentada durante esta manhã, 11, na NRF 2026, trouxe uma leitura objetiva sobre como a Inteligência Artificial está deixando de ser apenas uma camada de eficiência para se tornar uma plataforma central de descoberta, decisão e transação no varejo. A sessão reuniu Sundar Pichai, CEO do Google e da Alphabet, e John Furner, President and CEO do Walmart U.S. e futuro CEO global da Walmart Inc..
A conversa partiu de um ponto comum: o varejo já entrou em um novo ciclo tecnológico, no qual IA, personalização e agentes inteligentes passam a estruturar a forma como consumidores descobrem produtos, tomam decisões e concluem compras.
A mudança de plataforma em IA

Ao contextualizar o momento atual, Sundar Pichai afirmou que o Google enxerga grandes mudanças tecnológicas como ciclos de oportunidade. Ele relembrou a transição para o mobile, depois para o modelo “AI-first”, e posicionou o atual avanço da IA como uma reconfiguração profunda da indústria.
Segundo Pichai, a ambição do Google é levar a Inteligência Artificial para muito além de seus próprios produtos, criando um ecossistema capaz de conectar múltiplos modelos, agentes e plataformas. “A IA está se tornando mais pessoal, mais contextual e capaz de agir por você, com a sua orientação”, afirmou o executivo, ao destacar a evolução para experiências lideradas por agentes.
Os números apresentados reforçam a escala dessa transição. Em 2024, os sistemas do Google processaram 8,3 trilhões de tokens relacionados a IA. Em 2025, esse volume saltou para mais de 90 trilhões, um crescimento de 11 vezes em apenas um ano. “Esses dados mostram como este momento é real e já está acontecendo agora”, afirmou Pichai, ao conectar adoção tecnológica e uso prático no varejo.
Novos padrões de descoberta e busca por produtos
A keynote também detalhou como a forma de buscar produtos está mudando rapidamente. Segundo dados compartilhados, o Google já registra mais de 50 bilhões de buscas direcionadas à descoberta de produtos em tempo real, além de 2 bilhões de produtos sendo atualizados por hora em seu shopping graph.
Nesse novo contexto, o consumidor deixa de buscar por palavras-chave isoladas e passa a descrever o que deseja, delegando à IA a tarefa de filtrar, comparar e apresentar opções relevantes. “Agora você pode simplesmente explicar o que quer comprar, e a IA faz o trabalho de busca por você”, explicou Pichai.
Esse movimento impacta diretamente a jornada de e-commerce, reduz atritos e altera o papel das páginas tradicionais de navegação. O Google também destacou que mais de 40 bilhões de horas foram gastas recentemente no consumo de conteúdos relacionados a produtos, como reviews e vídeos explicativos, reforçando a convergência entre conteúdo, descoberta e compra.
Universal Commerce Protocol e o avanço do comércio agêntico

Um dos anúncios centrais da conversa foi a apresentação do Universal Commerce Protocol (UCP), uma iniciativa de padrão aberto liderada pelo Google. O objetivo é viabilizar o chamado comércio agêntico, no qual agentes de IA conduzem compras de ponta a ponta, diretamente a partir do Google Search (em Modo IA) ou do app Gemini.
O protocolo foi desenvolvido em parceria com grandes varejistas e plataformas, incluindo Walmart, Target, Shopify, Etsy e Wayfair.
Segundo Pichai, o UCP foi desenhado para preservar o relacionamento entre varejista e cliente. “O protocolo foi construído mantendo o varejista como merchant of record e permitindo que a relação com o cliente seja moldada em cada etapa da jornada”, explicou. A experiência inclui a possibilidade de um botão direto de compra, integração com programas de fidelidade e ofertas personalizadas, sem que o consumidor precise sair da conversa com a IA.
O UCP opera em conjunto com o Agent Payments Protocol, reforçando camadas de segurança, governança de dados e controle de transações. “Segurança, confiança e protocolos claros são essenciais para que esse modelo funcione em escala”, destacou o CEO do Google.
Walmart e a aplicação prática da IA no varejo
Na segunda parte da keynote, John Furner detalhou como o Walmart está aplicando esse novo paradigma de IA em suas operações. O executivo ressaltou que a empresa vive um momento de profunda transformação, mesmo mantendo seu propósito histórico.
“Nossa essência continua a mesma, mas estamos dispostos a mudar tudo o que for necessário sobre como vendemos, como operamos e como nos relacionamos com os clientes”, afirmou Furner. Segundo ele, a IA passou a ser um elemento estrutural dessa mudança.
O Walmart já opera múltiplos agentes internos e externos. Entre eles está o Sparky, agente voltado ao consumidor, além de agentes internos para colaboradores, sellers, fornecedores e desenvolvedores. Esses sistemas orientam desde a melhor ação no ponto de venda até a criação de campanhas e listagem de produtos.
Furner destacou que a IA também está sendo usada para reduzir esforço físico e elevar o nível de qualificação dos colaboradores, especialmente em logística e supply chain. “Estamos automatizando o trabalho pesado para que nossos associados possam avançar em habilidades mais técnicas e estratégicas”, explicou.
Integração com Gemini e experiências personalizadas
Outro anúncio relevante foi a integração direta do sortimento do Walmart ao Gemini. Com isso, consumidores poderão vincular suas contas, permitindo que a IA compreenda histórico, preferências e contexto para recomendar produtos, verificar disponibilidade, preços e opções de entrega.
Furner exemplificou o uso prático com situações do dia a dia, como planejar uma viagem ou uma atividade específica. “Queremos encurtar a distância entre ‘eu quero’ e ‘eu já tenho’”, afirmou. A proposta é entregar conveniência, velocidade e personalização, sem abrir mão de controle e confiança.
Foco no consumidor como critério central
Ao encerrar a sessão, Sundar Pichai reforçou que a transformação em curso exige colaboração entre plataformas e varejistas. “Não subestimem o quão transformador é esse momento. As experiências dos consumidores vão mudar rapidamente”, afirmou.
Para ele, o princípio orientador continua sendo o mesmo: “Mantenham o foco no usuário, e todo o resto tende a seguir”. Pichai destacou ainda que o Google não busca substituir o papel do varejista, mas viabilizar jornadas mais eficientes, preservando identidade, proposta de valor e relacionamento com o cliente.
*A missão NRF 2026 é uma realização da Central do Varejo, com patrocínio da TOTVS e Getnet.
(*) Amanda Dechen, especialista em comunicação do MBA USP/Esalq.
Imagens: Amanda Dechen
