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O que se deseja ao se decidir por uma franquia
Com tantas opções no mercado financeiro com esse atual rendimento no Brasil de mais de 1% ao mês, a maior preocupação de um futuro investidor é se o risco e o trabalho compensam a garantia do valor a ser investido. Em mercados maduros como Europeu e Norte Americano o valor do custo de capital é de cerca de 3% a 5% ao ano. Muito comum que por lá a expectativa de payback seja de mais de 8 anos, e tudo bem. Assim se constrói empreendimentos sólidos e duradouros.
Eis que no Brasil a expectativa, quando se passa de 36 meses, é de que nada é um bom negócio. Arriscar abrindo negócios do zero, de acordo com dados do SEBRAE, é partir de uma possibilidade de 30% (trinta por cento) de que não dará certo em até 2 (dois) anos.
O franchising se apresenta como opção um pouco mais rentável à renda fixa, projetando cenários factíveis, com certa dose estatística de previsibilidade, além de histórico médio de menos de 10% (dez por cento) de mortalidade nos mesmos 2 (dois) anos de comparação com negócios sem a chancela de uma marca testada.
Muitas franquias não aceitam futuros franqueados apenas investidores, aqueles que apenas injetam o capital inicial e delegam a colaboradores de confiança a gestão do negócio. Outras, exigem pelo menos participação parcial. Mas é claro que as com dedicação integral são as que mais performam.
Em relação à capacidade financeira, muitas vezes é exigido que se possua e inclusive comprove o valor inicial para a abertura da primeira unidade. Pode haver certa tolerância nas demais, ou mesmo incentivo controlado à alavancagem financeira, por meio de isenção de taxas de franquia, bonificação em produtos, suporte à empréstimos vantajosos, cujo fluxo de caixa previsto pela TIR (Taxa interna de retorno) do próprio projeto se pague.
E mesmo assim, ao competir com o “mercado” no patamar de 15% ao ano de taxa de juros, quando se soma o fator custo de oportunidade, as áreas de expansão das franqueadoras enfrentam brutal dificuldade no que está nas planilhas como forma de convencimento a se fechar novos ou expandir negócios. Lembrando que em algum momento o custo de oportunidade deve retornar a patamares históricos de 8 a 12% ao ano, fazendo com que o empreendedorismo seja de fato um propulsor gerador de riqueza, instigando quem quiser ganhar mais a buscar mais riscos.
Então, o que afinal gera desejo em assinar enfim a COF (Circular de Oferta de Franquia) e o contrato definitivo, quando se pensa no longo prazo?
Sonho de liberdade, conquista de um local para se chamar de seu, aliar qualidade de vida e propósito ao ganho são aspectos fundamentais e não aparecem nas planilhas financeiras, embora estas são fatores chave decisivos.
A experiência nos dois lados da mesa comprova que a paixão pela marca, produto, encantamento pela cultura, é que movem a engrenagem com sustentabilidade. É necessário ter o ganho prometido nas premissas para alinhar expectativas, chance de crescimento na rede, fundamental não haver inflexibilidade e tolerância das partes na relação franqueador e franqueado, mas confiança é a chave, e muitas vezes não se consegue identificar de fora, ainda antes da entrada para o sistema.
Com os shoppings centers, malls, galerias e oulets cada vez mais preenchidos de marcas franqueadas, hospitais e aeroportos como boas, mas caras opções, cada vez mais vai se tornando difícil encontrar bons pontos, e um caminho natural que vem surgindo é o do repasse de lojas. Muitas vezes lucrativas, pode ser o atalho entre a obtenção das vantagens da franquia, equipes montadas, ponto maturado, negociações equilibradas de custo de ocupação. Mas principalmente a “certeza estatística”, não presente numa futura operação “green field”, cujos números aceitam tudo.
Ou seja, outro importante ativo é a liquidez que as franquias possuem pensando em caso de necessidade, mudança de momento de vida ou oportunidade, algo que poucos consideram antes da decisão. Pense nisso antes de escolher a sua!
Leia também: O papel da indicação de franqueados para o crescimento das redes
*Carlos Sgarlata. Especialista em Governança, palestrante e entusiasta de finanças e estratégias em desenhos de Canais de distribuição. Acumula mais de 20 anos de experiência em indústrias de bens de Consumo e varejo. Atua no ecossistema de franchising, holdings familiares, foi professor de Estratégia, Franchising e Empreendedorismo, além de membro de Conselhos Consultivos e de Administração. CFO da JAH Açaí e Multifranqueado Kopenhagen há 13 anos, dos quais metade deles como membro de Comitês Financeiros e do Conselho de Franqueados na gestão Advent e Nestlé. Acompanhe o autor no LinkedIn, no ABC do Franchising e nas redes sociais: @carlos_sgarlata.
