NRF2026
Painel no AI Stage discute avanços, limites e decisões práticas para o uso de IA no varejo
O painel Harnessing AI in retail: Progress, pitfalls, and potential, realizado no AI Stage — novo palco dedicado exclusivamente à inteligência artificial na NRF 2026 — reuniu executivos da MediaTek, da Circle K e da Ingenico para discutir o estágio atual da adoção de IA no varejo, seus principais gargalos operacionais e os caminhos mais prováveis de evolução.
Participaram do painel Sameer Sharma, AVP da unidade de IoT da MediaTek para Américas e Europa, Chris Edwards, Diretor Global de Plataformas de Varejo da Circle K, e Erik Vlugt, Chief Product Officer da Ingenico.
IA deixa fase experimental e passa a impactar margens
Na abertura do painel, Sameer Sharma contextualizou a discussão com dados operacionais já observáveis no setor. Segundo ele, estudos recentes indicam redução significativa de rupturas de estoque, diminuição de inventários e aumento de taxas de atendimento após a adoção estruturada de IA. Em um setor caracterizado por margens estreitas, esses efeitos passaram a ter impacto direto na sustentabilidade do negócio.

“A IA deixou de ser um experimento e passou a ser uma necessidade operacional” disse Sharma ao explicar que ganhos como redução de estoques entre 20% e 30% e aumento de fill rates na faixa de 5% a 8% alteram o equilíbrio econômico de redes varejistas. Ele também destacou a expectativa de que os investimentos globais em IA no varejo ultrapassem US$ 100 bilhões até 2030, impulsionados pela busca por eficiência e personalização.
Quatro fases da adoção de IA no varejo
Sharma propôs uma leitura em fases para a evolução da inteligência artificial no varejo. A primeira envolve o uso de IA analítica, com aplicações como visão computacional para análise de tráfego, reconhecimento de padrões e leitura de contexto em loja. A segunda fase corresponde à IA generativa, que ampliou casos de uso relacionados a recomendação, síntese de informações e geração de conteúdo.
Segundo ele, o próximo salto tende a ocorrer com o avanço da chamada IA física, que combina modelos inteligentes com dispositivos capazes de interagir diretamente com o ambiente físico, incluindo sensores, edge computing e robótica. Para o executivo, essa transição exige decisões mais criteriosas sobre arquitetura tecnológica e integração com a operação.

Da análise ao acionamento em tempo real
Chris Edwards comentou que o principal valor da IA está em transformar identificação de problemas em ação antecipada. “Reconhecer que um produto está fora de estoque depois do fato tem pouco valor. O ganho real está em prever que ele vai faltar e agir antes”, afirmou.
Segundo o executivo da Circle K, muitas soluções atuais ainda se limitam à detecção retrospectiva. Para ele, o avanço está no uso combinado de visão computacional e modelos preditivos capazes de orientar decisões operacionais no tempo correto, especialmente no contexto de loja física, onde a janela de reação é curta.
Edwards também chamou atenção para o papel da IA como ferramenta de capacitação dos times. Em sua visão, a tecnologia tem mais impacto quando amplia a capacidade de atuação de colaboradores do que quando é pensada como substituição direta de pessoas.
Infraestrutura, segurança e controle do stack
Ao abordar o ponto de vista da Ingenico, Erik Vlugt destacou que a discussão sobre IA no varejo precisa considerar aspectos menos visíveis ao consumidor, como segurança, resiliência de infraestrutura e controle do ecossistema tecnológico. Segundo ele, no contexto de pagamentos e dispositivos físicos, a IA está sendo aplicada tanto para melhorar a experiência quanto para proteger operações.
“Grande parte das conversas com varejistas hoje gira em torno de como usar IA para melhorar a experiência em ambientes físicos, mas também para reforçar segurança, detectar ataques e garantir disponibilidade operacional”, afirmou Vlugt. Ele ressaltou que esses usos exigem domínio do stack tecnológico, desde o hardware até o software embarcado.
Edge computing e equilíbrio com a nuvem
Um dos pontos centrais do painel foi o debate sobre onde processar inteligência: na nuvem ou na borda. Vlugt explicou que, com dezenas de milhões de dispositivos em campo, não é viável depender exclusivamente de processamento centralizado. “Não faz sentido enviar tudo para a nuvem. Precisamos encontrar um equilíbrio entre capacidade local e backend”.
Sharma complementou destacando que a evolução de dispositivos com maior capacidade de memória e processamento permite executar modelos menores diretamente no edge, reduzindo latência e dependência de conectividade constante. Esse modelo se mostra especialmente relevante em cenários que envolvem privacidade, tempo de resposta e continuidade de serviço.
Barreiras comuns à adoção efetiva
Ao tratar dos principais obstáculos, os palestrantes convergiram em um ponto: a ausência de casos de uso claramente definidos. Edwards sintetizou essa dificuldade ao sugerir um exercício prático para executivos: “A pergunta que precisa ser feita é: o que você faria se tivesse 10 mil pessoas ajudando sua operação?”. A IA deve ser pensada como ampliação de capacidade decisória, não como resposta genérica à pressão por inovação.
Os executivos alertaram que iniciativas de IA sem objetivo operacional claro tendem a gerar fragmentação tecnológica, custos adicionais e baixa adesão interna. A recomendação recorrente foi priorizar problemas específicos, com métricas definidas, antes de escalar soluções.
Progresso real exige decisões arquiteturais
O painel encerrou com uma avaliação realista sobre o estágio atual da tecnologia. Embora o avanço seja consistente, os palestrantes destacaram que ganhos sustentáveis dependem de escolhas estruturais: definição de onde rodar modelos, como treinar versus inferir dados e quais aplicações justificam maior investimento computacional.
Para os participantes, a IA já demonstra impacto mensurável no varejo, mas seu potencial pleno depende menos de novidades técnicas e mais da capacidade das empresas de alinhar arquitetura, operação e objetivos de negócio.
*A missão NRF 2026 é uma realização da Central do Varejo, com patrocínio da TOTVS e Getnet.
(*) Marcos Luppe é Coordenador do MBA em Gestão de Negócios Digitais e Inteligência Artificial da USP/Esalq.
Imagens: Marco Luppe
