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O varejo brasileiro começa a esfriar e o impacto pode ser maior do que parece

Desaceleração revela a combinação de renda apertada, inflação persistente e pressão de caixa que começa a redesenhar o varejo no país

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aluguel; shopping; varejo

Quatro meses seguidos de queda no varejo. O dado, por si só, já chama atenção. Mas a pergunta que começa a circular nos bastidores do mercado é outra, mais incômoda: isso é apenas um movimento pontual ou o início de uma desaceleração mais profunda da economia brasileira?

O alerta ganhou força com a divulgação recente do índice da Stone, que mede a temperatura do varejo no país. E, ao contrário do que muitos gostariam, os sinais não são isolados. O que se vê hoje é a convergência de três pressões estruturais. 

A primeira vem da renda. O orçamento das famílias segue comprimido, com menor capacidade de consumo e maior seletividade nas compras. A segunda é inflacionária. Ainda que em desaceleração, a inflação acumulada corrói poder de compra e altera padrões de consumo. A terceira é interna ao próprio setor. O varejo está operando com margens pressionadas e caixa cada vez mais restrito. Separados, esses fatores já seriam relevantes. Juntos, criam um ambiente de tensão. E o problema do varejo é que ele nunca para nele mesmo.

Quando o varejo desacelera de forma consistente, o impacto se espalha. A indústria sente na produção. A logística perde volume. O setor de serviços desacelera. O efeito cascata começa silencioso, mas ganha força rapidamente. É por isso que o mercado acompanha esses dados com atenção crescente.

Nos últimos meses, o que parecia uma acomodação pós-ciclo começa a ganhar contornos de tendência. O consumo perde tração. O giro diminui. O crédito fica mais seletivo. E, aos poucos, a economia começa a respirar em movimentos mais curtos.

Nesse contexto, a atuação do Comitê de Política Monetária passa a ser central. A sinalização de possível alívio na taxa de juros não acontece por acaso. Ela responde a um cenário em que a inflação dá sinais de controle, mas a atividade começa a enfraquecer. O desafio do Banco Central do Brasil é calibrar esse movimento sem perder credibilidade no combate inflacionário.

Mas há um segundo vetor de incerteza que torna o cenário ainda mais complexo: a agenda de reformas. A reforma tributária e os debates fiscais em curso colocam o varejo diante de uma nova camada de pressão. Empresas já começam a rever cadeias, reprecificar produtos e redesenhar operações para se adaptar a um ambiente ainda pouco claro. Não se trata apenas de custo. Trata-se de modelo de negócio. E, em momentos como esse, os mais frágeis sentem primeiro. Os sinais já aparecem. A Grupo Pão de Açúcar, um dos maiores players do país, entrou em processo de recuperação extrajudicial e renegociação de dívidas, refletindo um ambiente mais duro para o setor. Esse movimento não é isolado. Ele antecipa o que pode vir a ser um ciclo mais amplo de ajuste.

Ao mesmo tempo, uma transformação estrutural segue em curso, independentemente da conjuntura: a migração do físico para o digital. Em um cenário de pressão de margens e necessidade de eficiência, o varejo acelera sua transição para canais digitais, buscando reduzir custos, aumentar alcance e melhorar a relação com o consumidor. Mas nem todos estão preparados para essa virada. O resultado é um setor que, ao mesmo tempo em que se ajusta, também se reorganiza. 

O que vem pela frente não é necessariamente uma crise clássica. É algo mais  complexo, como um período de seleção, onde empresas mais eficientes, mais digitais e com melhor gestão de caixa tendem a atravessar o momento com vantagem. As demais, pressionadas por custos, dívida e mudança de comportamento do consumidor, terão menos espaço para erro. 

E talvez essa seja a principal leitura. O varejo brasileiro não está apenas desacelerando. Ele está mudando de fase. E, como em toda mudança de fase, alguns vão sair mais fortes. Outros, simplesmente, não vão atravessar.


*Julian Tonioli é CEO e sócio da Auddas

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