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Por dentro da Bandai: quando a fábrica também se transforma em experiência

Em Shizuoka, no Japão, a operação da Bandai mostra como indústria, tecnologia, entretenimento e varejo podem fazer parte de uma mesma estratégia de marca

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Bandai

Existem visitas em que o mais importante não é apenas aquilo que podemos ver, mas aquilo que conseguimos entender por trás do produto. Foi essa a sensação ao conhecer, a convite da Bandai, sua operação em Shizuoka, no Japão, um dos lugares mais emblemáticos para compreender como são produzidos os famosos plastic models da companhia, especialmente os Gunpla, modelos da franquia Gundam.

Falar em Gunpla é falar de um negócio que ganhou escala global. Lançados em 1980, os modelos Gundam já ultrapassaram a marca de 800 milhões de unidades enviadas mundialmente. Por trás dos personagens, do entretenimento e do enorme fandom existe uma sofisticada operação industrial.

É justamente essa relação entre produto, indústria, inovação e comunidade que torna a visita tão interessante. A experiência permite observar como a fabricação pode ir além dos bastidores e se conectar diretamente à maneira como o consumidor percebe e se relaciona com uma marca.

Uma nova geração de fábrica

A grande novidade é o BANDAI HOBBY CENTER PLAMO DESIGN INDUSTRIAL INSTITUTE, o BHCPDII, nova unidade da Bandai Spirits em Shizuoka, que iniciou suas operações em julho de 2025.

Com aproximadamente 18 mil metros quadrados de área construída, a estrutura nasceu para ampliar a capacidade produtiva da empresa e incorporar ainda mais automação aos processos. Em plena operação, a expectativa divulgada pela companhia é aumentar em aproximadamente 35% a capacidade de produção de model kits, tomando como referência o ano fiscal encerrado em março de 2024.

Mas reduzir esse investimento a uma ampliação industrial seria perder uma parte importante da história. A Bandai também está transformando a maneira como uma fábrica pode se relacionar com seus consumidores.

A nova unidade ajuda a compreender como a indústria pode ser parte de uma estratégia que conecta capacidade produtiva, tecnologia e experiência de marca. O processo de fabricação deixa de ser apenas uma etapa interna e passa a ter um papel na relação com o público.

Quando o processo industrial vira experiência

Ao lado da nova operação está um dos pontos que mais chamaram minha atenção durante a visita: o novo BHCPDII Museum, inaugurado em setembro de 2025.

Em vez de simplesmente criar um espaço onde o visitante observa produtos históricos dentro de vitrines, a Bandai decidiu transformar o próprio processo produtivo em experiência.

A visita utiliza elementos de gamificação para colocar o visitante dentro da lógica de desenvolvimento de um plastic model. Passamos simbolicamente pelas diferentes etapas necessárias para transformar uma ideia em um produto: Modeling Design, Coloring Design, Mold Design, Injection, Package Design e Result.

Na prática, o visitante deixa de ser apenas espectador. Ele é convidado a assumir o papel de quem participa do desenvolvimento de um produto.

É uma forma inteligente de explicar algo que poderia ser técnico, complexo e até distante do consumidor. Em vez de apresentar uma longa explicação sobre engenharia, moldes e processos industriais, a Bandai transforma aprendizado em participação.

E aí existe uma importante lição sobre inovação. Gamificação não significa necessariamente transformar tudo em um jogo. Significa utilizar mecanismos de interação, progressão, descoberta e recompensa para aumentar o envolvimento das pessoas com determinada experiência.

Nesse caso, ela ajuda a explicar uma fábrica. O visitante percorre etapas do desenvolvimento e consegue compreender, de maneira participativa, parte do processo que existe por trás do produto final.

Bandai - fábrica

A fábrica como mídia

Talvez esse seja um dos maiores insights que trouxe da visita.

Durante décadas, aprendemos que uma fábrica pertence aos bastidores de uma empresa. O consumidor conhece o produto pronto, encontra sua embalagem no varejo e, na maioria das vezes, pouco sabe sobre tudo aquilo que aconteceu antes de o produto chegar à prateleira.

A Bandai inverte parte dessa lógica. O backstage se transforma em frontstage.

A tecnologia, as máquinas, os moldes, o desenvolvimento, a escolha das cores e até a criação da embalagem passam a fazer parte da narrativa da marca.

A fábrica deixa de produzir somente produtos. Ela também passa a produzir conteúdo, conhecimento, experiência e percepção de valor.

Esse movimento fica ainda mais evidente no conceito utilizado pela própria companhia para a nova instalação: uma “captivating factory”, ou uma fábrica capaz de encantar.

É uma definição que diz muito sobre o futuro das experiências de marca. A estrutura industrial não precisa permanecer distante do público: ela pode ajudar a contar a história do produto e tornar visível aquilo que normalmente acontece longe dos olhos do consumidor.

Bandai: Tecnologia que o consumidor consegue perceber

Outro elemento impressionante está no próprio processo de fabricação.

A Bandai desenvolveu tecnologias de moldagem capazes de trabalhar diferentes cores e materiais durante a produção das peças. Para quem monta um Gunpla, isso aparece na experiência final: peças extremamente precisas, diferentes cores e componentes que podem ser montados sem que o consumidor necessariamente precise dominar pintura ou técnicas avançadas de modelismo.

Mas o que vemos no produto é apenas a ponta da cadeia. Por trás dela estão engenharia, desenvolvimento de moldes, automação e décadas de melhoria contínua.

É uma representação bastante clara de um conceito japonês que encontramos repetidamente quando estudamos empresas no país: Kaizen.

A inovação não acontece apenas quando alguma coisa completamente nova surge. Ela também acontece quando uma empresa consegue melhorar continuamente aquilo que já faz bem.

Nesse contexto, tecnologia e melhoria contínua se conectam ao resultado percebido pelo consumidor. O trabalho realizado na fabricação se reflete nas características do produto e na experiência de quem o monta.

Fabricação de jogos e produtos da marca

O que a Bandai ensina ao varejo?

Talvez alguém possa perguntar: o que uma fábrica de plastic models tem a ensinar para quem trabalha com varejo?

Muito. Porque a Bandai mostra que a experiência de compra não precisa começar na loja. Ela pode começar na história, passar pela fábrica, continuar em um museu, transformar-se em conteúdo, encontrar uma comunidade e, finalmente, chegar ao varejo.

A própria expansão de espaços ligados ao universo Gundam reforça essa estratégia. Ambientes como THE GUNDAM BASE vão além da função tradicional de vender produtos: tornam-se pontos de encontro entre marca, propriedade intelectual, exclusividade, experiência e fãs.

Isso muda a lógica da experiência de compra. Em vez de perguntar apenas “como podemos criar uma experiência dentro da loja?”, talvez as empresas precisem começar a perguntar: “Como podemos transformar toda a jornada da nossa marca em uma experiência?”

A reflexão amplia o olhar sobre a relação entre marca e consumidor. A experiência não precisa ficar restrita ao momento da compra. Ela pode se desenvolver em diferentes pontos de contato, conectando aquilo que o público conhece, vivencia, compartilha e procura.

O poder dos fãs

E existe uma camada ainda maior por trás de tudo isso: comunidade.

Gundam não se tornou um fenômeno mundial apenas porque a Bandai aprendeu a fabricar bons produtos. Existe uma relação construída durante décadas entre conteúdo, personagens, produtos, colecionadores e diferentes gerações de fãs.

O consumidor monta, coleciona, compartilha, procura lançamentos, visita lojas, participa de eventos, viaja para conhecer lugares relacionados à marca e compra novamente.

É um ciclo no qual propriedade intelectual gera produto, produto gera experiência, experiência fortalece comunidade e comunidade volta a gerar demanda pelo produto.

Essa conexão ajuda a entender por que uma visita industrial como essa é tão relevante para quem estuda negócios. O produto não está isolado: ele faz parte de uma relação mais ampla, construída entre a marca e as pessoas que acompanham seu universo.

A comunidade participa dessa jornada por meio da montagem, da coleção, da busca por lançamentos e das experiências ligadas à marca. Assim, o relacionamento não termina quando o produto sai da loja.

Bandai: muito além do Gundam

Ter a oportunidade de conhecer essa operação a convite da Bandai tornou possível observar de perto algo que normalmente enxergamos apenas pelo produto final.

E saí de Shizuoka com uma percepção ainda mais clara: o que existe ali não é somente uma fábrica de Gundam. Existe um ecossistema.

Uma empresa capaz de conectar propriedade intelectual, engenharia, manufatura, tecnologia, experiência, varejo e comunidade.

No final, talvez a maior inovação que encontramos na Bandai não esteja em uma única máquina. Está na capacidade de conectar todas essas partes.

Porque uma máquina pode fabricar milhares de peças. Uma fábrica pode produzir milhões de produtos. Mas, quando uma empresa consegue transformar o próprio processo de fabricação em história, aprendizado e experiência, ela passa a produzir algo muito mais difícil de copiar: valor de marca.

Leia também: O que Pokémon pode nos ensinar?

Imagens: Elifas de Vargas/ Central do Varejo


(*) Elifas de Vargas é formado em Marketing, com especialização em Quality Service pela Disney Institute na Flórida-USA. É criador do método FastVideos, produção rápida e versátil de vídeos para web, utilizando apenas o smartphone. Responsável por fundar a primeira webtv privada do Rio Grande do Sul, em 2006, dentro da incubadora tecnológica da Univates, possui ampla experiência em comunicação e é Terapeuta Comportamental pela Escola de Executivos e Negócios Instituto Albuquerque, certificada pela Fundação Napoleon Hill. Empresário, Co-Founder da Agência de Marketing Kreativ desde 2010, com sede em Lajeado/RS e filiais em POA/RS e Rio de Janeiro/RJ, está sempre em busca de experiências que impactem os negócios de seus clientes. Assim, também é curador de diversos eventos, entre eles, o Rio Innovation Week (maior evento de inovação e tecnologia da América Latina) no Rio de Janeiro, e a NRF, em Nova York. Acompanhe o autor no LinkedIn.


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