Operação
Casas Bahia avalia recuperação judicial após fechar lojas
Balanço auditado pela EY mostra fechamento de 298 lojas e redução de quadro; empresa avalia nova recuperação extrajudicial ou judicial
O Grupo Casas Bahia informou que avalia uma nova recuperação extrajudicial ou até uma recuperação judicial entre as medidas possíveis dentro da Fase 2 do seu Plano de Transformação. A informação consta das notas explicativas que acompanham o balanço do segundo trimestre de 2026, previsto para ser divulgado na sexta-feira (14), após o fechamento do mercado, mas apresentado apenas na madrugada deste domingo (16).
Segundo o documento, a companhia teve seu desempenho impactado por fatores como “cenário macroeconômico mais desafiador, com taxas de juros ainda elevadas, consumo das famílias pressionado e disputa crescente pelo orçamento doméstico, inclusive das apostas on-line (bets)”.
A Casas Bahia avalia ainda alternativas operacionais, financeiras, societárias e estratégicas adicionais. Entre elas estão medidas de reorganização formal de passivos e obrigações, incluindo a possível nova recuperação extrajudicial ou recuperação judicial.
A Administração ressalvou que a implementação dessas iniciativas depende de negociação, concordância ou participação de terceiros, sem garantia de que produzirão os resultados esperados nos montantes ou prazos considerados.
O balanço também informa que o Conselho de Administração acompanha continuamente a posição de liquidez, as projeções de fluxo de caixa e a execução das medidas da Fase 2, avaliando, quando necessário, ações adicionais de adequação operacional, financeira e de estrutura de capital.
Fechamento de lojas e redução de quadro
A Casas Bahia concluiu o fechamento de 298 lojas até a data de autorização do balanço, dentro do redimensionamento da malha física previsto na Fase 2. A rede passou a contar com 1.033 unidades.
As lojas encerradas foram selecionadas considerando desempenho operacional, necessidade de capital empregado e retorno econômico diante do atual custo de capital, segundo a Administração.
O fechamento gerou provisão de R$ 210 milhões referente aos imobilizados das lojas encerradas e de R$ 89 milhões para compromissos remanescentes de contratos de arrendamento.
Já a reestruturação de pessoal e o fechamento de lojas, em conjunto, geraram provisão de R$ 502 milhões no trimestre, contabilizada na linha de outras receitas e despesas operacionais.
O quadro de colaboradores encerrou o primeiro semestre de 2026 em 30.117 pessoas, ante 30.492 no início do período. A companhia registrou 4.212 contratações e 4.587 desligamentos no semestre.
O índice de rotatividade ficou em 5%, ante 14,1% no mesmo período de 2025. A Administração afirmou que segue adequando a estrutura organizacional e o quadro de colaboradores ao novo dimensionamento da operação, além de revisar contratos, despesas gerais e administrativas e investimentos.
A companhia também constituiu provisão de R$ 1,8 bilhão por revisões contratuais e deu baixa de R$ 970 milhões em ágio, fundamentada em expectativa de rentabilidade futura diante das projeções revisadas para a operação redimensionada.
Auditoria alerta sobre operações da Casas Bahia
O Grupo Casas Bahia teve prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, impactado pelas provisões da Fase 2 e pela baixa de R$ 5,7 bilhões em créditos tributários diferidos. Sem esses efeitos não recorrentes, o prejuízo ajustado teria sido de R$ 978 milhões.
No acumulado do primeiro semestre de 2026, o prejuízo líquido somou R$ 11,2 bilhões, ante R$ 963 milhões no mesmo período de 2025.
A auditoria independente do balanço foi realizada pela Ernst & Young (EY). Em nota anexa, a EY registrou incerteza relevante quanto à capacidade de continuidade operacional da companhia.
Segundo a EY, o passivo circulante da Casas Bahia superou o ativo circulante em R$ 11,97 bilhões na base individual e R$ 7,84 bilhões na consolidada, em 30 de junho de 2026. O patrimônio líquido da companhia ficou negativo em R$ 8,27 bilhões.
A auditoria afirmou que não foi possível concluir sobre o uso da base contábil de continuidade operacional na data-base do balanço, diante da necessidade de futura geração de caixa e da dependência da implementação bem-sucedida de medidas operacionais e financeiras já anunciadas pela companhia.
A própria Administração reconheceu, na nota de elaboração do balanço, que as informações financeiras não refletem o resultado de um eventual processo formal de reestruturação de dívidas e obrigações, caso venha a ocorrer.
Contexto do trimestre
A dívida líquida da companhia caiu R$ 4 bilhões em relação ao segundo trimestre de 2025, redução de 81%, segundo o Relatório da Administração. A alavancagem recuou para 0,4 vez o Ebitda ajustado dos últimos 12 meses, ante 2,2 vezes um ano antes.
A Administração atribuiu o cenário mais adverso a três fatores: a restrição de crédito de seguradoras a fornecedores, a não conclusão de uma captação internacional que chegara a estágio final, com investidor âncora confirmado, e o consumo das famílias pressionado por juros altos.
O GMV consolidado somou R$ 10,5 bilhões no trimestre, alta de 0,5% sobre o 2T25, com o e-commerce crescendo 6,2% e as lojas físicas registrando vendas mesmas lojas negativas em 3,2%. A receita bruta cresceu 1,6%, para R$ 8,3 bilhões, e o Ebitda ajustado somou R$ 518 milhões, queda de 9,4% na comparação anual.
O fluxo de caixa livre da firma somou R$ 1 bilhão no trimestre e R$ 4,1 bilhões nos últimos 12 meses, segundo o Relatório da Administração. A carteira ativa de crédito da companhia totalizou R$ 6,3 bilhões, com taxa de inadimplência acima de 90 dias de 8,9%, ante 8,4% no 2T25.
Em comunicado que acompanha o balanço, a Administração do Grupo Casas Bahia disse que “o tamanho que se justifica é menor não como objetivo, mas como consequência da disciplina”.
A empresa afirmou ainda que avalia alternativas de reforço de liquidez, redução de custo financeiro e reestruturação de dívidas, incluindo a monetização de parte de seus ativos, sujeita a negociações e aprovações.
A Central do Varejo mantém espaço aberto para novos posicionamentos do Grupo Casas Bahia sobre os temas tratados nesta reportagem.
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Imagem: Divulgação
