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Por que uma única ação americana movimenta 10x mais que toda a nossa Bolsa?
A bolsa brasileira vive dias de euforia, atingindo máximas históricas com uma movimentação média de US$ 4,5 bilhões por dia. O número impressiona, até olharmos para o lado: uma única ação da Nvidia movimenta, sozinha, cerca de US$ 45 bilhões diariamente. Dez vezes mais que todo o mercado acionário do Brasil somado a um único papel. Como isso é possível? A resposta não está em planilhas de curto prazo, mas no futuro irresistível que estamos construindo, e que muitos ainda não perceberam.
Para entender onde estamos, preciso voltar a 2003, quando eu era estagiário na Oi. Naquela época, meu trabalho era relatar vendas de linhas dedicadas em um mundo dominado pela internet discada de 56 kbps. Se o telefone tocava, a conexão caía. Quando as operadoras começaram a oferecer 256 kbps ou 512 kbps por dez vezes o preço padrão, nós ríamos. Questionávamos quem estaria disposto a pagar por tamanha “excentricidade” apenas para navegar no chat do UOL.
Corte para o presente: hoje, em minha casa, o consumo de dados é 10 mil vezes maior do que naquele tempo. Entre videoconferências, streaming e múltiplos dispositivos conectados simultaneamente, meus 500 Mb me permitem consumir tudo o que sou capaz de absorver fisicamente ao mesmo tempo. E é aqui que a Inteligência Artificial entra, repetindo o ciclo da história.
Começamos esta nova era da IA por meio de um chat. De novo, um chat. Ele é fascinante e útil, mas limitado pela nossa capacidade humana de digitar e ler. Pagamos assinaturas que valem a pena hoje, mas que em breve parecerão tão rudimentares quanto os 56 kbps de vinte anos atrás.
Imagine o cenário em poucos anos: você entra em uma videoconferência e sua própria IA não apenas transcreve a conversa, mas participa visualmente. Ela enxerga o que você vê, rascunha e-mails em tempo real, busca dados, preenche planilhas e distribui tarefas enquanto você ainda está falando. No meio da reunião, uma demanda familiar surge por WhatsApp. Vou dar mais um exemplo: é um ingresso de balé para sua filha. Sua IA assume: liga para a escola, compra as entradas, agenda para você e sua esposa e ainda convida a avó.
Ao fim da reunião, sua lista de tarefas foi liquidada. Você não consumiu apenas o que podia; você consumiu tudo o que existe.
Nesse futuro próximo, aquela assinatura mensal de IA que usamos hoje parecerá um Opala 12v tentando subir uma ladeira íngreme de primeira marcha, queimando combustível sem parar. O combustível desse novo mundo, no entanto, não será a gasolina, mas os tokens.
Não estaremos mais olhando apenas para gigantes do petróleo, mas para as fábricas de tokens. Com hardware da Nvidia e de outros players que virão, a economia está sendo recalibrada. Investir nesse ecossistema hoje é o equivalente a ter comprado ações da Petrobras no exato dia em que o motor a vapor foi inventado. Estamos saindo da era da informação para a era da inteligência em escala, e as máquinas de tokens acabaram de ser ligadas.
Imagem: Freepik
*Leonardo Leão é empreendedor de tecnologia e cofundador da Fashion.AI, onde lidera o desenvolvimento de soluções de IA para o varejo, combinando LLMs, embeddings e arquiteturas agentic para transformar dados em decisões estratégicas. Com passagem por empresas como Meta e PayPal, atua há mais de 15 anos na interseção entre produto, dados e crescimento na América Latina, escrevendo sobre inteligência artificial, inovação e os limites — e potenciais — da colaboração entre humanos e máquinas.
