Mulheres do Varejo

A mesa ainda tem poucos lugares para nós. E por que isso é um problema para todos — não apenas para as mulheres

Publicado

on

Coluna Mulheres no Varejo

Entrei no varejo em 1987, como trainee no Ponto Frio. Durante muitos anos, era comum ser a única mulher na sala — nas reuniões de diretoria, nas negociações com fornecedores, nas viagens de negócios. Não havia hostilidade declarada. Havia, simplesmente, uma paisagem em que mulheres não faziam parte do cenário natural do poder.

Quase quatro décadas depois, ainda sou frequentemente a única — ou uma das poucas — nos conselhos em que atuo. A paisagem mudou, mas não o suficiente.

Os números que não deveriam surpreender — mas ainda surpreendem

Desde a criação do Prêmio Nobel em 1901 até 2025, cerca de 894 homens foram laureados. Mulheres? Aproximadamente 67. A primeira foi Marie Curie, em 1903 — e ela segue sendo a única pessoa a receber dois Nobéis em áreas científicas diferentes.

O Supremo Tribunal Federal foi criado em 1891. A primeira mulher a integrá-lo foi Ellen Gracie Northfleet, em dezembro de 2000. Até hoje: 160 ministros homens, 3 mulheres.

Das empresas da Fortune 500, 90% dos CEOs são homens.

No Brasil, as mulheres ocupam cerca de 14% a 15% das cadeiras em conselhos de administração, segundo o IBGC. E nos 5.569 municípios do país, apenas 727 são governados por prefeitas — pouco mais de 1 em cada 8.

O varejo não é diferente. É um setor que vende majoritariamente para mulheres — que respondem por mais de 80% das decisões de compra domésticas —, mas cujas lideranças ainda são predominantemente masculinas. Essa contradição tem um custo real: empresas que não refletem o perfil dos que compram seus produtos perdem qualidade no processo decisório.

O progresso veio — mas incompleto

Grande parte das diferenças que vemos hoje não está ligada à capacidade. Está ligada a barreiras históricas de acesso — à educação, às redes de poder, às oportunidades que começaram a diminuir apenas nas últimas décadas.

Houve avanços reais. A legislação removeu barreiras formais. Organizações como Women Corporate Directors Brasil, Grupo Mulheres do Brasil e Instituto Mulheres do Varejo têm acelerado o desenvolvimento profissional feminino, ampliado visibilidade e criado pipelines de liderança. Cada uma delas atua em frentes complementares: formação, networking, influência institucional e geração de oportunidades.

Mas legislação e iniciativas de sensibilização, sozinhas, não mudam a composição das mesas. Mudam quando há intenção deliberada — e estruturas que sustentem essa intenção ao longo do tempo.

O que eu vi funcionar — e o que não funciona

Ao longo de mais de 30 anos como executiva e conselheira, aprendi algumas coisas sobre o que realmente move o ponteiro:

  • Diversidade que não chega ao conselho não muda a estratégia. Programas de liderança feminina na base da empresa têm valor, mas, enquanto os conselhos e comitês executivos não refletirem essa diversidade, as decisões estruturais continuarão sendo tomadas por um perfil homogêneo.
  • Cota sem preparação não funciona — preparação sem oportunidade também não. O caminho está no encontro entre os dois: criar um pipeline real de talentos femininos e garantir que as portas estejam abertas quando elas chegam até lá.
  • Homens precisam ser parte ativa dessa mudança. A transformação não acontece apenas entre mulheres. Os que detêm o poder de indicar, promover e abrir espaço são, em sua maioria, homens. Essa é uma responsabilidade que não pode ser delegada.
  • Carreira e maternidade ainda são tratadas como escolhas excludentes. Até que as empresas criem estruturas que tornem essa combinação viável — e não apenas tolerada —, estaremos perdendo talentos no meio do caminho.
  • Visibilidade importa mais do que parece. Histórias de mulheres que chegaram à liderança ampliam o imaginário do possível para as próximas gerações. Não para criar ídolos — mas para mostrar que o caminho existe.

Não falta talento. Faltam estruturas.

Conselhos, governos e empresas que desejam prosperar em um mundo complexo precisam refletir a diversidade da sociedade que servem. Diversidade não é uma pauta de equidade apenas — é uma pauta de qualidade de decisão, inovação e sustentabilidade.

No varejo, isso é ainda mais urgente. O setor que mais depende de entender o comportamento das consumidoras não pode se dar ao luxo de tomar decisões sem elas na mesa.

A pergunta que fica não é se as mulheres estão preparadas para liderar. Essa pergunta já foi respondida — inúmeras vezes, em inúmeros setores.

A pergunta real é: estamos dispostos a mudar as estruturas que ainda limitam esse caminho?


Marise Costa - Mulheres no Varejo

*Marise Costa Araújo. Conselheira formada pelo programa da Fundação Dom Cabral. Conselheira independente conforme o Critério de Independência previsto no Regulamento de Listagem do Novo Mercado da B3. Certificada como Conselheira Consultiva pelo Celint. Tem especialização em Governança em Empresas Familiares pelo IBGC e em Inovação pela Fundação Dom Cabral e é Conselheira Certificada em Inovação pela Gonew.

Continue Reading
Comente aqui

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *