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O futuro não é mais digital: é mais humano — e o varejo precisa entender isso
Há algum tempo venho observando sinais que, isoladamente, poderiam parecer apenas tendências passageiras. Mas, quando conectados, revelam algo muito mais profundo: uma mudança estrutural no comportamento do shopper:
- Jovens comprando câmeras analógicas;
- Crescimento do vinil;
- Livros físicos retomando protagonismo;
- Experiências offline ganhando relevância.
A geração que nasceu digital começa, paradoxalmente, a redescobrir o valor do analógico.Não se trata de rejeição da tecnologia, mas sim, reação ao excesso. Vivemos uma combinação de movimentos como “Nostalgia Core”, “Analog Revival” e “Tech Backlash”.
No fundo, todos apontam para a mesma direção:
- Mais presença;
- Mais experiência;
- Mais significado.
O que está por trás disso?
Em um mundo hiperconectado, o simples virou diferencial. E o passado virou linguagem de conexão. Vivemos uma era de sobrecarga de informação, fadiga digital e excesso de estímulos e o shopper começa a buscar essência. A busca pelo “retrô” não é sobre o passado, e sim, sobre pertencimento e identidade. Ou seja, uma âncora emocional em um mundo instável.
A grande mudança e o impacto no varejo ( e no GC)
Durante anos, o varejo foi guiado por conveniência e velocidade. Agora, o driver mudou:
- Significado
- Experiência
- Conexão emocional
E isso muda tudo. Essa não é uma tendência estética. É uma mudança de lógica:
- 1. Curadoria é poder
Menos excesso, mais relevância. “Ter tudo” deixou de ser diferencial.” Ter o certo” virou vantagem competitiva.
- 2. Categorias deixam de ser funcionais e passam a cumprir papéis emocionais
Não é sobre o que o shopper compra, mas por que ele compra: conforto, memória, ritual e experiência.
- 3. A loja física se transforma
De ponto de abastecimento para espaço de descoberta, conexão e experiência. E com isso, o físico vira “palco”.
- 4. Execução disciplinada vira narrativa
Não é mais sobre expor produto. É preciso construir contexto.
Exemplos: café como pausa; papelaria como ritual; vinhos como experiência; chocolate como recompensa/indulgência; chá como desaceleração; snacks saudáveis como autocuidado; cervejas especiais como descoberta e produtos de skincare como ritual de autocuidado.
- 5. Promoção evolui
Sai preço. Entra valor percebido. O shopper passa a querer o mais significativo.
Na prática, o que já está acontecendo
Lojas viram espaços de experiência e marcas investem em storytelling. As categorias passam a ser organizadas por missão de compra e hoje nem tudo tem a ver com mais tecnologia, o movimento real é outro: mais humano, mais simples e mais intencional.
Deixo aqui algumas reflexões: Seu sortimento resolve uma necessidade ou cria uma experiência? Sua loja expõe produtos ou constrói significado?
O futuro não é menos tecnologia, é mais consciência no uso dela. E o retrô deixa de ser passado para se tornar uma linguagem contemporânea de conexão.
Quem entender isso primeiro não só vende mais. Constrói relevância.

*Fatima Merlin é estrategista de Varejo e Shopper, referência em Gerenciamento por Categoria e Governança, fundadora e CEO da Connect Shopper, conselheira de empresas e advisor da IntentAI – empresa do Prof Dr. Brian Harris criador do GC. Retail Thinker da Varejo180, embaixadora da GS1, única brasileira membro do comitê global ECR CatMan Network. Escritora de “Meu cliente não voltou, e agora?”; “Shoppercracia: O gerenciamento por categoria”; “Varejo Conectado” e entre outros.
