Colunistas

A conta da expansão desordenada chegou: o que as recuperações judiciais do varejo nos ensinam sobre margem

Publicado

on

recuperações judiciais

Os dados do segundo trimestre divulgados pelo Jornal Nacional, com base em levantamentos de mercado, acenderam um alerta definitivo para a liderança executiva no Brasil: o número de empresas que pediram recuperações judiciais cresceu 20% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Ainda mais impressionante é a representatividade do comércio nessa estatística: quase mil empresas varejistas já recorreram à proteção da Justiça para tentar reestruturar suas dívidas recentemente. Do varejo alimentar de grande porte ao setor de moda, passando por redes de eletrodomésticos e utilidades domésticas, a onda de pedidos de reestruturação financeira desenha o retrato de uma transformação profunda e dolorosa no mercado brasileiro.

Ao observar a cobertura da imprensa tradicional, a leitura mais comum costuma apontar o dedo unicamente para o cenário macroeconômico, culpando a taxa de juros alta ou a retração temporária do poder de compra do consumidor. No entanto, para quem vivencia o dia a dia e responde pela operação, a verdade pode ser um pouco mais complexa: a taxa de juros elevada não cria a crise sozinha; ela apenas acelera e expõe a fragilidade de operações que já rodavam sem margem de segurança.

O colapso do modelo “growth a qualquer custo”

Durante a última década, impulsionado por capital farto e pela urgência da digitalização, o varejo brasileiro foi dominado pela mentalidade do growth at any cost (crescimento a qualquer custo). A grande métrica perseguida por diretores e investidores era o faturamento bruto (topline), a expansão acelerada de lojas físicas e a captura de market share no e-commerce a preço de ouro.

Nesse ambiente de euforia, o crédito barato mascarava ineficiências operacionais graves. Subsidiar fretes de forma descontrolada para impulsionar a conversão no e-commerce, manter lojas físicas sobrepostas disputando o mesmo raio de entrega e inflar orçamentos de marketing digital para adquirir clientes sem avaliar o retorno de longo prazo tornaram-se práticas comuns.

Porém, quando a liquidez do mercado encolheu e o custo do capital disparou, o modelo ruiu. A liquidação dessa conta chegou para as empresas que não construíram uma operação sustentável, resultando no volume de recuperações judiciais que vemos hoje nos tribunais.

Onde a margem mais sofreu: três grandes problemas operacionais 

Analisando a fundação operacional das empresas que hoje enfrentam processos de reestruturação, fica claro que a crise de liquidez não é uma surpresa, mas o resultado inevitável de três questões crônicas de margem:

1. O ralo do “custo de servir” no digital

Muitas redes tradicionais tentaram digitalizar suas vendas criando uma operação online paralela e isolada da rede física. 

Esse modelo gerou uma estrutura logística duplicada, com centros de distribuição exclusivos para o e-commerce que multiplicaram os custos de armazenamento, manuseio e frete. 

Quando a empresa passa a arcar com taxas altíssimas de aquisição de cliente para vender um produto com margem apertada e ainda subsidia a entrega, ela não está crescendo, está acumulando prejuízo marginal a cada pedido faturado.

2. Capital de giro imobilizado em estoques ineficientes

O estoque representa a maior fatia do capital de giro imobilizado de um varejista. Sem governança rigorosa sobre a governança de catálogo e sem o uso avançado de inteligência de dados para prever a demanda local, a operação é atingida por um duplo golpe fatal: sofre com a ruptura dos produtos de alto giro e alta margem nas prateleiras (deixando de faturar no momento decisivo), enquanto acumula estoque encalhado de itens de baixa liquidez nos depósitos. 

Essa ineficiência destrói o indicador de GMROI (Gross Margin Return on Investment) e força a empresa a buscar captações de dívida caríssimas para cobrir o buraco no caixa.

3. O custo oculto do “omnichannel de mentira”

Dizer que a empresa é multicanal simplesmente por possuir um e-commerce, um aplicativo e lojas físicas é um erro recorrente. 

Se esses canais não compartilham o mesmo inventário e a mesma inteligência de clientes em tempo real, a empresa opera um “Omnichannel de mentira”. 

Essa desconexão encarece a operação, gera divergência de preços, frustra a jornada do consumidor e perde a oportunidade de transformar a loja física em um hub logístico e de atendimento de baixo custo.

O caminho prático: a disciplina da eficiência de receita

A marca de quase mil varejistas em recuperação judicial deixa uma lição definitiva para qualquer executivo: faturamento é métrica de vaidade; a única métrica de sobrevivência é a geração de caixa operacional.

Para garantir a perenidade da empresa e não entrar para as estatísticas de reestruturação, o foco da alta gestão nos próximos trimestres deve sair da busca cega por volume e migrar inteiramente para a Eficiência de Receita (Revenue Efficiency). Na prática, isso exige três movimentos estratégicos:

  • Saneamento e governança rigorosa de dados: Antes de investir em novas ferramentas ou automações, é preciso limpar e unificar as bases de dados (CDP/Data Lake). Isso elimina o desperdício em mídia de performance e permite direcionar ofertas assertivas para a base ativa de clientes, aumentando o LTV (Lifetime Value) sem inflar o CAC.
  • Omnicanalidade focada na redução de custos: Integrar o estoque da rede física ao digital para habilitar jornadas como a Prateleira Infinita nas lojas, a Venda Assistida no WhatsApp e o Clique e Retire (BOPIS). Essas soluções usam a estrutura existente para elevar o ticket médio e reduzir os custos de frete e fulfillment.
  • Obsessão pelo custo de servir por transação: Auditar e cortar margens negativas por canal, categoria ou região. Se determinado produto ou canal consome mais margem logística do que gera de lucro bruto, a jornada precisa ser redesenhada ou eliminada.

As crises macroeconômicas não destroem companhias eficientes; elas apenas aceleram o fim de modelos de negócios que dependiam de crédito farto para mascarar processos quebrados. 

O futuro do varejo não pertence aos maiores e nem aos que vendem mais, mas àqueles que operam com rigor financeiro, tecnologia aplicada à operação e disciplina diária na proteção da margem.

Leia também: Eficiência de receita: como proteger a margem e reestruturar a operação em momentos de pressão no varejo


*Adriano Tavollassi é Fundador da LEAP e possui formação em Marketing pela FAAP, e em Pós-Graduação em Administração pelo Mackenzie. Foi pioneiro na integração de canais online e físicos, consolidando o conceito de Omnichannel no País em grandes empresas. Com mais de 30 anos de experiência, é um profissional com ampla experiência na estruturação, planejamento e execução de canais de vendas, desde os mais tradicionais até os modelos digitais, incluindo marketplaces. É especialista em integração de canais de vendas, definindo papéis e responsabilidades em um cenário de varejo cada vez mais conectado e turnaround de operações complexas.

Continue Reading
Comente aqui

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *