Operação

Crise no varejo: recorde de recuperações judiciais expõe fragilidade das grandes redes

Mesmo com setor em expansão, empresas consolidadas como Casas Bahia, GPA, Marabraz e Tok&Stok recorreram a artifício

Publicado

on

recuperação judicial no varejo

Em agosto de 2026, duas redes de varejo que ajudaram a moldar o consumo popular brasileiro protocolaram pedido de recuperação judicial com um dia de diferença. Casas Bahia e Marabraz somam mais de um século de história e cerca de R$ 17,4 bilhões em dívidas. Nenhuma das duas aponta queda nas vendas como motivo.

O varejo brasileiro fechou 2025 com vendas em alta pelo nono ano seguido, segundo o IBGE, com crescimento de 1,6% no comércio varejista e de 4,5% em móveis e eletrodomésticos. No mesmo período, Tok&Stok, Casa & Video, Polishop e GPA também entraram em recuperação judicial ou extrajudicial.

Segundo o Indicador de Falências e Recuperações Judiciais da Serasa Experian, o país fechou 2025 com 977 processos de recuperação judicial abertos, alta de 5,5% sobre 2024. O total envolveu 2.466 CNPJs, o maior volume da série histórica iniciada em 2012. O comércio respondeu por 535 dessas empresas, 21,7% do total.

Para entender o que levou redes com décadas de operação a essa situação, a Central do Varejo ouviu especialistas em varejo físico e economia com foco em negócios.

O paradoxo do crescimento sem caixa

Para Daniel Zanco, cofundador da Central do Varejo e consultor com mais de 30 anos de experiência em varejo físico, a onda de pedidos de recuperação judicial não tem uma causa única.

“A taxa de juros, as pressões de custo de ocupação, os desafios tributários, o endividamento da população e a redução de liquidez do mercado por conta do efeito das bets contribuíram para esse cenário que o varejo chegou”, afirma.

Zanco pondera que a integração digital, sozinha, não resolve mais o problema. “Um componente importante é a composição de financiamento. Quem depende menos de financiamento externo tende a ter um crescimento um pouco mais seguro”, diz.

Mário Marques, professor de economia da SKEMA Business School, aponta um indicador para separar problema pontual de empresa e sinal de fragilidade estrutural do setor.

“Olharia para a capacidade de gerar caixa para cobrir as despesas financeiras, especialmente os juros. Quando isso começa a aparecer simultaneamente em várias empresas, acompanhado de aumento da inadimplência e das recuperações judiciais, o sinal passa a ser mais preocupante”, afirma.

Marques cita que o Brasil tinha 9,1 milhões de empresas inadimplentes no mesmo ano do recorde de recuperações judiciais.

“Os casos de Casas Bahia e Marabraz precisam ser observados dentro de um contexto maior. Eles podem ser a ponta do iceberg de um processo mais amplo de deterioração financeira das empresas brasileiras”, diz.


A expansão dos anos de juro baixo virou dívida

Zanco reconstitui a trajetória da Casas Bahia a partir do início da década. “Muitas redes cresceram no momento em que a Selic estava na casa dos 2%, 3%, no começo de 2020, e ocuparam muito espaço, abriram muitas lojas, geraram muita despesa, e o caixa não acompanhou”, diz.

A Casas Bahia entrou em recuperação extrajudicial em 2024, com dívida acima de R$ 4 bilhões, e tentou alongar essa dívida.

“Não conseguiram fazer o caixa acompanhar. Não há nível de digitalização que compense isso”, afirma Zanco.

Em 16 de agosto, a companhia protocolou pedido de recuperação judicial no Foro Central Cível de São Paulo, com passivo declarado de R$ 17,3 bilhões, e fechou 298 lojas, segundo balanço auditado pela Ernst & Young (EY).

A Marabraz protocolou recuperação judicial um dia antes (15), com dívidas de R$ 140 milhões, atribuídas a juros altos e disputas societárias que comprometeram garantias de crédito.

O Grupo Toky, dono da Tok&Stok e da Mobly, teve pedido de recuperação judicial aceito pelo TJ-SP em 13 de julho, com dívida de R$ 1,12 bilhão.

A Casa & Video, hoje Grupo CVLB após fusão com a Le Biscuit, protocolou recuperação judicial em 29 de abril, com passivo estimado em R$ 1,71 bilhão. A Polishop entrou com o pedido em 15 de maio de 2024, com dívida entre R$ 352,1 milhões e R$ 395,6 milhões.

O GPA optou pela via extrajudicial em março, restrita a credores financeiros, para renegociar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívida.


O modelo de loja grande venceu seu ciclo

Patricia Cotti, especialista em modelagem de negócios e sócia-diretora do Ecossistema Goakira, descarta que a crise revele uma falha do modelo de loja física.

“Não se trata de uma falha do modelo de loja física em si, mas de um certo vencimento do modelo de grande formato no estilo de depósito de balcão, e das mudanças econômicas e de comportamento do consumidor”, afirma.

Segundo Cotti, redes como Casas Bahia e Marabraz sempre contaram com expansão física agressiva, o que elevou o custo de estrutura.

“Custo fixo do aluguel, energia, que subiram acima do IPCA, além do elevado custo de estoque. O varejo de eletromóveis sempre dependeu muito do crédito, e com a Selic alta, o custo de manter estoques em número elevado de lojas também aumenta”, diz.

Para Cotti, a remodelagem não é simples, pois envolve compromissos de aluguel e financiamento já assumidos. Ela cita o setor de hipermercados, que ressignificou loja e formato de compra com digital, entrega rápida e lojas de bairro.

“A loja física nunca deixará de fazer sentido. O modelo de loja, entretanto, deve ser repensado, de maneira a garantir um correto faturamento por metro quadrado, uma correta localização e o atendimento à visão do consumidor”, afirma Cotti.

O que diferencia quem atravessa a crise

Marques aponta diferença relevante no custo de captação entre uma varejista grande e uma rede regional menor.

“Uma grande empresa normalmente tem acesso a mais alternativas, pode recorrer a bancos, mercado de capitais, antecipação de recebíveis e diferentes instrumentos de dívida. Empresas menores tendem a depender mais de linhas bancárias, fornecedores e capital de giro de curto prazo”, diz.

Segundo Marques, o que diferencia um varejista de bens duráveis que atravessa o cenário sem recorrer à Justiça envolve três fatores.

“Geração de caixa, nível de endividamento e capacidade de financiar capital de giro. A empresa saudável não é necessariamente aquela que vende mais. É aquela que consegue transformar venda em margem e margem em caixa”, afirma.

Cotti recomenda que o varejista acompanhe o GMV por metro quadrado em cada seção da loja.

“Se uma seção não performa, ela deve ser repensada, substituída diante da lógica de mix de produtos e cesta complementar com margem, ou então somada com produtos e serviços. Com o custo de estrutura elevado, não há espaço para ineficiência”, diz.

Para Cotti, a omnicanalidade deixou de ser opção.

“Esta entrada deve ser provocada, direcionada, gerada. Isso só é possível com uma cultura de dados eficiente, uso de CRM e existência de programas de fidelidade”, afirma.

recuperação judicial no varejo


Sinais para monitorar

Zanco lista o que considera importante para acompanhar a saúde financeira de um varejista.

“Capital de giro é fundamental, olhar como está a gestão desse caixa e pensar na expansão de forma responsável, com operação enxuta e cuidado maior com o resultado final do que só com o faturamento”, diz.

Segundo ele, rigidez na contabilidade evita surpresas, e a concentração em poucos credores dificulta a negociação em momentos de crise.

Marques pondera que a queda da Selic, hoje em 14% ao ano segundo o Banco Central, não resolve o problema sozinha.

“O Brasil continua convivendo com uma dívida pública elevada e crescente. Quanto maior a necessidade de financiamento do Estado e maior a percepção de risco sobre a trajetória da dívida, maior tende a ser o retorno exigido pelos investidores. Isso dificulta uma queda mais rápida do custo do dinheiro para empresas e consumidores”, afirma.

Segundo Marques, o mercado de trabalho do varejo reage menos do que o balanço das empresas até aqui.

“Reduzir o quadro envolve verbas rescisórias e outros custos trabalhistas, o que faz com que muitas empresas tentem primeiro outras formas de ajuste, como reduzir investimentos, estoques, novas contratações e número de lojas. A deterioração aparece primeiro no caixa e no balanço”, conclui.

Leia também:

Imagens e infográficos gerados com auxílio de inteligência artificial

Continue Reading
Comente aqui

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *