NRF2026
Tokenização, agentes de IA e pagamentos como camada estratégica redesenham o varejo, diz vice-presidente da Visa
A tokenização já é uma realidade madura no Brasil e deve ganhar ainda mais protagonismo nos próximos anos como base para experiências de pagamento mais seguras, fluidas e invisíveis. A avaliação é de Gustavo Carvalho, vice-presidente de Value Added Services da Visa, em entrevista exclusiva à Central do Varejo, durante a NRF 2026.
Segundo Carvalho, o Brasil está entre os mercados mais avançados do mundo em tokenização. A tecnologia substitui dados sensíveis, como credenciais de pagamento, por tokens que só funcionam dentro de um ecossistema específico. “Mesmo que um token vaze, ele não pode ser reutilizado fora daquele ambiente”, explica. Além de elevar a segurança, a tokenização aumenta índices de aprovação e reduz fricções ao longo da jornada de compra.
O executivo destacou que o checkout tradicional está se tornando cada vez mais transparente. Dados globais da Visa indicam que apenas 16% dos checkouts ainda exigem entrada manual de informações. Esse avanço é viabilizado por tokenização, carteiras digitais e, em breve, por agentes de inteligência artificial que automatizam partes (ou todo) o processo de pagamento.
Para Carvalho, o setor vive uma nova fase de evolução do comércio. Depois do cartão físico, do e-commerce e do mobile, o próximo salto é o comércio agêntico, no qual agentes de IA podem pesquisar, comparar, sugerir e até concluir compras em nome do consumidor, sempre com permissões e controles definidos. “O pagamento deixa de ser um checkout e passa a ser uma camada inteligente”, afirma.
Essa camada, segundo ele, agrega valor estratégico ao varejo. Em vez de um ato pontual, o pagamento se integra a toda a jornada, que hoje é não linear, omnichannel e altamente influenciada por redes sociais, criadores de conteúdo e plataformas digitais. “Você pode descobrir um produto no social, comparar com um agente, testar na loja física e finalizar a compra em outro canal”, diz.
Outro vetor de transformação citado por Carvalho é a redução contínua do uso de dinheiro. Globalmente, 2026 deve marcar o primeiro ano em que transações com cartão superam o uso de cédulas. No Brasil, o dinheiro já representa cerca de 5% do consumo das famílias, índice bem inferior ao de mercados como os Estados Unidos.
O executivo também apontou o avanço das stablecoins, impulsionado por maior clareza regulatória em 2025. A Visa já opera mais de 130 programas que conectam cartões a stablecoins, facilitando o uso dessas moedas digitais no cotidiano, sem exigir que o consumidor pague diretamente com criptoativos no ponto de venda.
A biometria aparece como outro elemento relevante. Pagamentos por reconhecimento facial, palma da mão ou outras formas biométricas tendem a ampliar a fluidez, mantendo altos padrões de segurança. “Tudo o que a gente faz passa, obrigatoriamente, por segurança”, reforça.
Para os varejistas, Carvalho defende uma mudança de mentalidade. Pagamentos precisam ser tratados como pilar estratégico do negócio, não apenas como etapa final da venda. Isso envolve escolher parceiros capazes de acompanhar a velocidade tecnológica, lidar com sistemas legados, integrar dados entre canais e reduzir pontos de fricção de forma contínua.
O Brasil, segundo o executivo, ocupa uma posição singular no cenário global. Pelo nível de digitalização, adoção rápida de tecnologia e presença do Pix, o país se assemelha mais a mercados como Índia e Nigéria do que a outros países da América Latina. “O Brasil não vem só para aprender. Vem também para ensinar e exportar tendências”, afirma.
Carvalho conclui que muitas das inovações discutidas na NRF devem chegar rapidamente ao mercado brasileiro. “Se uma solução funciona no Brasil, especialmente em segurança, ela tende a funcionar em qualquer lugar do mundo.”
Imagem: Amanda Dechen
(*) Amanda Dechen é especialista em comunicação do MBA USP/Esalq. Conheça o MBA em Economia, Investimentos e Banking USP/Esalq.
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