Colunistas
O que está na panela do varejo alimentar
O varejo alimentar atravessa uma transformação estrutural impulsionada não apenas pela tecnologia, mas por uma mudança mais profunda: a redefinição da identidade cultural do consumidor brasileiro. À medida que o setor avança para 2026, cresce a necessidade de compreender que consumo deixou de ser apenas transação e precisa ser visto como linguagem social, pertencimento e representação.
Essa mudança aparece de forma contundente na pesquisa Cultura no Espelho, realizada pela Globo em parceria com a Quaest, e apresentada no SPIW sexta feira 15.05, onde apresentou o que investigou de hábitos culturais e e acerca das percepções dos brasileiros sobre identidade, consumo e representatividade, algo que vai além do “O que que a baiana tem ”.
Consumo como experiência cultural
Em um país onde alimentação e cultura caminham juntas, a experiência de compra passa a assumir papel emocional e simbólico. A pesquisa revela que apenas 10% dos brasileiros se sentem representados pela publicidade atual um dado que evidencia a desconexão entre marcas e realidade social.
No varejo alimentar, isso significa que o consumidor buscará ambientes mais humanos, afetivos e conectados à cultura local.
Em 2026, supermercados, mercados premium e hubs gastronômicos tendem a evoluir para espaços de experiência, incorporando narrativas regionais, memória afetiva e valorização da culinária brasileira.
Não por acaso, 64% dos entrevistados apontam arroz e feijão como o principal símbolo da comida típica nacional — dado que reforça a força da tradição alimentar brasileira em meio à sofisticação crescente do consumo.
Sustentabilidade deixa de ser diferencial
Outro ponto central da pesquisa é a relação entre acesso cultural e desigualdade social. Segundo o levantamento, apenas 2% da população brasileira reúne simultaneamente alto poder aquisitivo e alto repertório cultural.
Esse cenário ajuda a explicar uma mudança importante no comportamento de compra: consumidores estão mais atentos à origem, impacto e propósito dos produtos que consomem.
Sustentabilidade deixa de ocupar o campo do discurso aspiracional para se tornar expectativa concreta.
No varejo alimentar de 2026, rastreabilidade, produção local, agricultura regenerativa e cadeias mais transparentes tendem a ganhar protagonismo. O consumidor quer saber não apenas “o que compra”, mas “o que aquela compra representa”.
A personalização como resposta à pluralidade brasileira
A diversidade cultural brasileira também exige um novo olhar sobre segmentação de mercado. A pesquisa mostra que 25% dos entrevistados sequer conseguem definir o que é cultura, revelando a complexidade das múltiplas identidades presentes no país.
Para o varejo, isso representa o fim da comunicação massificada. O olhar sobre o consumo será marcado por hiperpersonalização, regionalização de sortimento e inteligência de dados aplicada ao comportamento alimentar.
Olhar dados, traduzindo quem está ali atrás de um consumidor, mas sim como representante de uma cultura.
O consumidor de 2026 espera encontrar produtos alinhados ao seu estilo de vida, sua origem, seus hábitos e seus valores culturais da alimentação saudável aos sabores regionais e às novas demandas por bem-estar e conveniência.
E-commerce alimentar e a ascensão da conveniência emocional
A digitalização do varejo alimentar seguirá acelerada, mas a conveniência deixará de ser apenas operacional. Ela passa a ser emocional.
A pesquisa aponta que apenas 16% dos brasileiros possuem hábito frequente de leitura, indicando uma preferência crescente por experiências rápidas, intuitivas e visuais. Isso ajuda a explicar o avanço de plataformas simplificadas, recomendações automatizadas e jornadas de compra cada vez mais fluidas.
Em 2026, o e-commerce alimentar deverá combinar inteligência preditiva, curadoria personalizada e experiências digitais capazes de traduzir identidade cultural em consumo cotidiano.
Saúde, bem-estar e capital cultural
Outro dado relevante do estudo mostra que escolaridade materna e incentivo à leitura na infância impactam diretamente a mobilidade cultural muitas vezes mais do que a própria renda.
Esse aspecto reforça como alimentação, educação e bem-estar estão cada vez mais interligados. O consumidor contemporâneo não busca apenas saúde funcional; ele busca coerência entre alimentação, estilo de vida e propósito.
Nesse contexto, o varejo alimentar tende a ampliar ofertas ligadas à nutrição preventiva, alimentos naturais, produtos clean label, orgânicos ou biológicos e experiências que conciliem tradição cultural e saúde.
O varejo como espelho da sociedade
Mais do que acompanhar tendências, o varejo alimentar de 2026 precisará interpretar o Brasil contemporâneo.
A pesquisa Cultura no Espelho evidencia que identidade, representatividade e pertencimento serão ativos estratégicos para as marcas. O consumidor brasileiro deseja ser visto, compreendido e respeitado em sua pluralidade
Formar comunidades está longe de colocar todo mundo literalmente no mesmo pacote. O que importa nesse movimento é enxergar quem está ali, individualmente, formando o grupo de afinidade e pertencimento.
Os varejistas que conseguirem transformar dados culturais em experiências autênticas estarão mais preparados para atender um novo perfil de consumidor: mais consciente, mais exigente e cada vez menos disposto a separar consumo de identidade.
Leia também: A Copa de 2026 e o que muda no investimento das marcas do branding à conversão
*Márcia Rostheuser é Comunicóloga e Publicitária, com especialização em Psicologia e Marketing, estuda comportamento do consumidor e dedica-se a traduzir comportamentos em oportunidades de negócio atuando como estrategista e curadora de varejo com imersões no Brasil e no mundo.
Imagem: Márcia Rostheuser
