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Cannes 2026: o Pinterest e a tensão entre estar online e viver offline
O Cannes Lions International Festival of Creativity é amplamente reconhecido como o maior e mais prestigiado festival mundial de criatividade em marketing e publicidade. Criado em 1954, reúne, todos os anos, em junho, profissionais para uma semana de prêmios e conferências sobre o estado da indústria criativa.
Mas algumas conversas acontecem fora do palco principal. Ao longo da Croisette (a avenida à beira-mar de Cannes), e um pouco por toda a cidade, há um circuito paralelo de ativações de marca, aproveitando a concentração de profissionais de marketing e criatividade reunidos ali naquela semana.
É lá que marcas como Spotify ou LinkedIn se instalam, mas foi a ativação da Pinterest que mais me chamou a atenção quando li sobre essa edição. O Manifestival trouxe, este ano, uma tensão muito atual: “Less URL, More IRL” (algo como “menos URL, mais vida real”). Apesar de a IA ter dominado parte da programação do festival, muitas das ativações mais procuradas convidavam a guardar o celular e viver o momento.

Em vez de concentrar a experiência em telas, a plataforma decidiu trazer o algoritmo para a vida real, materializando as grandes tendências de seu relatório anual, Pinterest Predicts, em experiências físicas. Havia o estúdio Tattoo Parlour, que oferecia tatuagens inspiradas em tendências, e uma Patisserie, que permitia aos visitantes personalizar suas próprias sobremesas, entre outras ativações.


Mas a ativação que destaco é a Offline Social Club, centrada na tendência “Pen Pals”, o retorno intencional da escrita à mão. E foi exatamente essa tendência que o Pinterest levou a Cannes, com um espaço de correspondência analógica em parceria com os Correios da França. Uma forma interessante de não ficar apenas no papel do relatório, validando a tendência presencialmente.
O mais curioso é que quem adere a essa tendência é, em sua maioria, jovem demais para ter vivido a época em que trocar cartas ou postais era normal. Por isso, não estão recuperando uma memória, estão criando um ritual que tem um valor emocional significativo. Isso é exatamente a definição de anemoia, a nostalgia por um tempo ou lugar nunca vivido.

O que está na base desse comportamento é o cansaço digital. A fadiga das mensagens constantes, editáveis, descartáveis. A necessidade de revalorizar o esforço, em um momento em que tudo está otimizado para a conveniência. E o crescente interesse em rituais analógicos como alívio da vida multitelas.
É provável que eu volte a falar sobre a anemoia, essa espécie de saudade não vivida, que capta muito bem o espírito do tempo em que vivemos.


*Elisabete Galiano é formada em Gestão e conta com mais de 18 anos de experiência em Marketing no setor de FMCG (Fast Moving Consumer Goods). É Head of Strategic Plant Based Food Category na Sumol Compal, empresa líder no mercado de bebidas não alcoólicas em Portugal. Reside em Lisboa e tem um interesse especial por marcas, inovação e tendências.
Fonte das imagens: Pinterest
