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Humanware: executivo da Gravidade Zero questiona o modelo de trabalho atual e defende a era do sentido

Renan Hannouche propõe no ABF Summit 2026 uma virada de perspectiva: menos eficiência no que não deveria ser feito, mais coragem para cavar no lugar certo

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O Brasil registrou, no ano passado, o maior índice de demissão voluntária de sua história. Para Renan Hannouche, fundador da Gravidade Zero e à frente de empresas como Loomi, acaso, Just e Bloom.CX, esse dado não é anomalia — é sintoma. A palestra “Humanware”, apresentada nesta terça-feira (23) durante o ABF Franchising Summit 2026, em São Paulo, partiu desse diagnóstico para propor uma revisão profunda na forma como organizações e líderes constroem seus futuros.

A provocação central de Hannouche foi direta: “As formas que imaginamos os nossos futuros definem o nosso presente.” A partir dessa premissa, ele questionou o modelo predominante de planejamento corporativo — não para descartá-lo, mas para relativizá-lo. “A vida é amplamente impermanente. O planejamento é importantíssimo, mas o acaso e o não planejado têm tomado conta das relações sociais dos últimos anos”, disse. Saber ir com o fluxo, segundo ele, tornou-se competência tão relevante quanto a capacidade de executar um plano.

Como ilustração, Hannouche citou o PDCA — metodologia de gestão baseada nos ciclos de planejar, executar, checar e agir — com ironia: “O PDCA virou um Prometo Depois Corro Atrás.” O comentário funcionou como diagnóstico do pragmatismo excessivo que, na visão do palestrante, tem marcado a cultura executiva brasileira.


Hannouche descreveu o perfil do executivo contemporâneo como alguém reconhecido pela execução e pelos resultados, mas que trata pessoas como recursos, mata a criatividade e bloqueia a inovação ao reduzir tudo ao pragmatismo puro. Para ele, esse modelo está na raiz de um fenômeno mais amplo: “Vivemos uma fábrica de desorientados. Um monte de gente fazendo e não sabendo o que quer.”

A crítica se estendeu à cultura do sacrifício. Hannouche observou que quanto mais as pessoas operam sob a lógica do corre e do sacrifício constante, mais se distanciam do que chamou de “sacro ofício” — o trabalho com sentido. E citou uma máxima para situar o problema da direção: “Cavar certo no lugar errado é cavar errado.” O argumento é que muitas organizações operam com eficiência em frentes que não deveriam ser prioridade.

O palestrante também invocou a lógica darwiniana para ir além dela. Reconheceu que não é o mais forte que sobrevive, mas o que mais se adapta — e então lançou a pergunta que ficou no ar: “Será que é bom ser o mais adaptado em uma sociedade ou ambiente doente?” A adaptação, nesse enquadramento, pode ser uma armadilha se o ambiente de referência for disfuncional.

A proposta de Hannouche para sair desse ciclo passou pelo que ele chamou de ascensão do feelset sobre o mindset — a era do coração, do sentido e da intuição, em contraposição à primazia da racionalidade executiva. “Só a loucura cura. Precisamos nos questionar. Precisamos criar novas realidades, alternativas, visões de mundo e de futuro”, disse.

No campo da inteligência artificial, Hannouche recusou o enquadramento da competição entre humanos e máquinas. Para ele, a IA deve ser usada como ampliação de conhecimento — mente e inteligência em simbiose, não em disputa. “Não é sobre tentar competir com a IA. É sobre se potencializar com ela.”

A palestra encerrou com uma citação de Peter Drucker que sintetizou o argumento central: “Não há nada tão inútil quanto fazer eficientemente o que não deveria ser feito.”

Por Patricia Cotti – Sócia-diretora da Goakira, Diretora IBEVAR, Colunista Central do Varejo, professora dos MBAs da FIA, ESPM, ESECOM e USP.

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