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Casas Bahia e o fim da ilusão do tamanho: o que a maior crise do varejo físico brasileiro ensina sobre sobrevivência pós-pandemia
No último domingo, dia 16 de agosto, o Grupo Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial no Foro Central Cível de São Paulo, um dia depois de divulgar um prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, resultado dezoito vezes pior do que o registrado no mesmo período do ano anterior. A dívida que motivou a medida soma R$ 17,3 bilhões.
Nos dias que antecederam o pedido, a companhia encerrou 298 lojas, cerca de 29% da base de pontos físicos que mantinha no fim de 2025, e desligou entre 1,9 mil e 3 mil funcionários. Dois anos antes, em 2024, a mesma empresa já havia homologado uma recuperação extrajudicial para reperfilar parte de sua dívida bancária.
Não foi suficiente. Para quem opera ou pretende operar uma rede de negócios no Brasil, o episódio não é uma curiosidade do noticiário econômico. É um estudo de caso sobre o que efetivamente sustenta uma operação depois que a pandemia reorganizou, de forma definitiva, o comportamento de compra do consumidor brasileiro.
Alguns casos recentes
A Casas Bahia não é a primeira gigante do varejo brasileiro a recorrer à Justiça para sobreviver, e provavelmente não será a última. As Lojas Americanas protocolaram seu próprio pedido de recuperação judicial em janeiro de 2023, com um passivo que superou R$ 40 bilhões.
A Tok&Stok seguiu caminho semelhante mais recentemente. O padrão que une os três casos é revelador: todas construíram sua posição de mercado em um período no qual capilaridade física, portfólio genérico e força de marca bastavam para garantir relevância. Esse período acabou. Manter centenas de lojas físicas com propostas de valor pouco diferenciadas tornou-se um passivo estrutural, não um ativo competitivo.
O custo fixo de uma rede grande e pouco diferenciada segue crescendo mesmo quando a receita por metro quadrado cai, e é exatamente essa conta que fechou no vermelho para a Casas Bahia.
Caso Casas Bahia: a pandemia não criou a ruptura
O comércio eletrônico brasileiro já vinha crescendo antes de 2020, mas a pandemia comprimiu em poucos meses uma transição de comportamento que levaria anos para se consolidar. O consumidor aprendeu a comparar preço, prazo e experiência entre múltiplos canais em segundos, e passou a dividir sua decisão de compra entre marketplaces generalistas, canais de nicho especializados e redes físicas tradicionais. O resultado é uma pressão simultânea vinda de duas direções.
De um lado, marketplaces com estrutura de custo mais enxuta disputam preço de forma agressiva. De outro, operações especializadas oferecem uma experiência de compra mais relevante para um público específico, mesmo com portfólio menor. Uma rede grande, generalista e pouco diferenciada fica espremida entre essas duas frentes, sem vantagem de preço e sem vantagem de experiência.
Foi exatamente nesse espaço que a proposta de valor da Casas Bahia perdeu força junto ao consumidor, mesmo com uma marca centenária e reconhecida em todo o território nacional.

Diferenciação real é o que substitui o tamanho
Enquanto grandes redes generalistas perdiam relevância, marcas que escolheram uma promessa específica de experiência e a executaram com disciplina seguiram crescendo. A Chilli Beans transformou óculos e acessórios em um negócio de moda de ciclo rápido, com lançamentos constantes e formatos de loja que ocupam espaços não convencionais, de aeroportos a quiosques dentro de outras lojas, criando um motivo recorrente para o cliente voltar.
A Havaianas pegou um produto de baixo valor agregado, o chinelo de borracha, e construiu em torno dele uma marca de estilo de vida, sustentada por design, por ambientação de loja e por uma narrativa de marketing consistente, sem jamais competir pelo menor preço da prateleira.
A Outback, no segmento de alimentação, não é a maior rede de restaurantes do país, mas manteve por anos uma experiência de atendimento e ambiente reconhecível em qualquer unidade, o que se tornou seu principal ativo comercial, mais valioso do que qualquer vantagem de escala.
Fora do Brasil, o McDonald’s segue como referência de como adaptar cardápio, ambiente e formato a cada mercado sem perder a sensação de familiaridade que o cliente busca ao entrar em qualquer unidade da rede, em qualquer país. O denominador comum entre essas marcas não é o tamanho da operação. É a existência de uma experiência de compra memorável, construída de forma deliberada, e não apenas de presença física.
Como o caso da Casas Bahia mostra as falhas
O problema da Casas Bahia não apareceu do dia para a noite. Ele foi se acumulando em cada visita a uma loja que já não surpreendia, em cada comparação silenciosa que o cliente fazia entre o atendimento ali e a experiência de compra em outro canal, em cada motivo cada vez menor para escolher aquela marca em vez de outra.
Uma operação grande costuma perceber essa erosão tarde, porque a informação sobre a experiência do cliente se perde em várias camadas de gestão antes de chegar a quem decide. Uma rede menor e mais próxima do consumidor tem, em tese, uma vantagem aqui: consegue perceber mais rápido quando algo na experiência de loja parou de funcionar e ajustar antes que o problema vire tendência de queda de faturamento.
Essa vantagem só se concretiza, porém, quando existe alguém de fato observando a experiência do cliente ponto a ponto, e não apenas acompanhando números de venda no fim do mês. Agilidade, nesse sentido, não é sobre reagir rápido a uma crise já instalada. É sobre construir sensibilidade suficiente para perceber, na experiência do cliente dentro da loja, os primeiros sinais de que a marca está perdendo relevância.
Três frentes que funcionam como resposta
Diferenciação e agilidade não se constroem isoladamente em uma única área da empresa. Elas dependem da combinação de três frentes que, na maioria das redes, operam de forma desconectada: a estratégia do negócio, que define onde e como a marca vai competir; a experiência física do ponto de venda, que traduz esse posicionamento em algo que o cliente sente com os cinco sentidos ao entrar na loja; e a comunicação de marca, que sustenta a narrativa e a presença digital que atraem e retêm esse cliente antes e depois da visita.
Uma rede pode ter uma estratégia de posicionamento correta e ainda assim perder relevância se a loja não traduz essa proposta fisicamente, ou se a comunicação de marketing promete uma experiência que o ponto de venda não entrega.
A frente física costuma ser a mais subestimada
A frente física costuma ser a mais subestimada das três, e é também a que mais rápido revela se uma marca ainda tem algo relevante a dizer ao cliente. Iluminação, circulação, disposição de produto, som ambiente, tempo de espera e conforto sensorial não são detalhes decorativos: são a diferença entre um cliente que entra, compra por obrigação e sai, e um cliente que entra, permanece mais tempo e associa aquele momento a uma sensação positiva que ele quer repetir.
A Apple, fora do Brasil, transformou a própria arquitetura da loja em parte do produto, com espaços pensados para experimentação livre e permanência prolongada, ao ponto de a visita à loja física se tornar parte da percepção de valor da marca, não apenas o momento da compra. É esse tipo de trabalho, de arquitetura como ferramenta de experiência e não apenas como identidade visual padronizada, que a GDesign desenvolve dentro do ecossistema Goakira: leitura do comportamento do cliente dentro do espaço físico, desenho de fluxo e ambientação que reforcem a permanência e a percepção de marca, e adaptação do projeto arquitetônico à realidade de cada ponto de venda, sem se limitar a replicar um manual de fachada.
Em paralelo, a Potencialize trabalha a narrativa e a presença digital que atraem esse cliente até a loja e sustentam a lembrança da marca depois da visita, e a Goakira Consultoria estrutura a leitura estratégica de mercado que orienta onde e como essa experiência deve se posicionar frente à concorrência. As três frentes avançando juntas, e não cada uma isoladamente, é o que sustenta uma marca relevante ao longo do tempo.
Como não repetir o roteiro da Casas Bahia?
O ponto central não é vender formatação de franquia ou plano de expansão. É reconhecer que o colapso de uma marca como a Casas Bahia raramente é um evento repentino, é o resultado visível de sinais que passaram despercebidos por anos dentro da própria operação: experiência de loja estagnada, comunicação de marca desatualizada, estratégia de posicionamento sem revisão frente a um mercado que mudou.
Esses sinais podem ser identificados com antecedência, por meio de estudo e planejamento estruturado, muito antes de aparecerem como prejuízo bilionário em um balanço trimestral. É esse tipo de diagnóstico antecipado, cruzando estratégia, experiência física e comunicação de marca, que evita que uma empresa chegue ao ponto em que a única saída restante seja fechar centenas de lojas em uma única semana.
O varejo pós-pandemia não perdoa mais operações grandes e indiferenciadas. Ele recompensa quem constrói, de forma deliberada e continuamente revisada, uma experiência de marca que dá ao cliente um motivo real para escolher aquele lugar. Esse é o critério que vai separar, nos próximos anos, quem se antecipa à crise de quem só percebe o problema quando ele já não tem mais solução simples.

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Imagem: Divulgação
*Por Ivan Oréfice – sócio-diretor do Ecossistema Goakira.
