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Educação se constrói com uma base sólida

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Minha formação em Engenharia Elétrica e licenciatura em Matemática e Física, somada a mais de 30 anos de atuação no Kumon, fez com que a matemática estivesse sempre presente na minha trajetória. Ao longo desse caminho, uma convicção se fortaleceu: para avançar no aprendizado, é preciso, antes de tudo, construir uma base sólida.

Recentemente, foram divulgados os resultados do Pisa 2025 e os dados mostram o tamanho do desafio que ainda temos no Brasil: 72% dos estudantes brasileiros de 15 anos não alcançaram o nível básico de proficiência em matemática. O índice preocupa, mas também nos convida a uma reflexão: estamos olhando apenas para as dificuldades que os alunos apresentam hoje ou buscando compreender onde elas começaram?

Na matemática, um aprendizado serve de base para o próximo. Quando um conceito não é bem compreendido, essa lacuna pode acompanhar o estudante e tornar os próximos desafios ainda maiores. E, com o tempo, não é apenas o desempenho que pode ser afetado, mas também a confiança. A dificuldade pode fazer com que o aluno passe a acreditar que simplesmente “não é bom em matemática”. 

Por isso, mais do que avançar conteúdos, precisamos ajudar nossos jovens a construir bases, desenvolver raciocínio e, principalmente, perceber que são capazes de aprender.

Ao analisar os resultados do Pisa nas últimas duas décadas, entre 2006 e 2025, percebemos que o Brasil apresentou avanços, com crescimento de 15 pontos em leitura, 7 em matemática e 18 em ciências. Apesar dessa evolução, o país ainda permanece abaixo da média dos 23 países considerados na comparação, conforme os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Um dado apresentado na página 5 do relatório do Inep chamou especialmente minha atenção: o Catar foi o país que registrou o maior crescimento de pontuação entre 2006 e 2025, destacando-se dos demais países analisados. Esse resultado despertou minha curiosidade sobre as medidas adotadas para alcançar uma evolução tão expressiva.

Para dimensionar esse avanço, se o Brasil tivesse registrado o mesmo crescimento de pontuação do Catar, estaria, em 2025, entre os países com melhor desempenho em leitura, ao lado de Japão, Irlanda e Coreia do Sul. Em matemática e ciências, seus resultados estariam próximos da média dos 23 países considerados na análise.

No início dos anos 2000, o governo catariano reconheceu que seu sistema educacional não estava preparando adequadamente os estudantes para os desafios da economia moderna. Em resposta, lançou a reforma Education for a New Era, desenvolvida com o apoio da RAND Corporation, instituição internacional de pesquisa em políticas públicas.

A iniciativa promoveu mudanças estruturais, como a criação do Supreme Education Council, a adoção de padrões curriculares internacionais, a implementação de avaliações nacionais e a ampliação da autonomia das escolas. Também incentivou a transição de um ensino centrado na memorização para práticas que valorizassem o pensamento crítico, a resolução de problemas e o protagonismo dos estudantes.

Naquele período, o país também vivia uma forte expansão econômica impulsionada pela exploração de gás natural. A liderança catariana compreendeu, porém, que essa riqueza não seria permanente e que o desenvolvimento de longo prazo dependeria da capacidade de formar profissionais preparados para uma economia baseada no conhecimento. Assim, a educação passou a ocupar um papel central na estratégia nacional.

O caso do Catar mostra que avanços educacionais não dependem apenas de recursos financeiros, mas também de planejamento, continuidade das políticas públicas, valorização dos professores e acompanhamento dos resultados. Ao longo de mais de vinte anos, essa combinação contribuiu para uma evolução expressiva nos indicadores internacionais e de posicionar o país entre os maiores casos de progresso educacional do século XXI.

A experiência nos convida a refletir sobre os desafios do Brasil. Mais do que buscar melhorias pontuais nos índices de desempenho, precisamos compreender que a transformação da educação exige compromisso de longo prazo e atenção à qualidade da aprendizagem desde os primeiros anos escolares. O gás não durará para sempre; o país precisaria desenvolver capital humano para uma economia baseada em conhecimento.

Leia também: Seu filho precisa de reforço escolar ou precisa aprender a aprender?


Julio Segala atua no franchising há 29 anos, é graduado em Engenharia Elétrica, Matemática e Física, Mestre em Engenharia, Pós-Graduado em Gestão de Negócios, atualmente Vice-presidente de Operações no Kumon América do Sul, membro dos comitês de Microfranquias & Novos Modelos e Educação da ABF e instrutor dos programas de capacitação da ABF.

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