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Existe mais um Brasil de oportunidades, bem ao nosso lado
Toda empresa que decide expandir suas operações para outro país leva consigo uma bagagem importante: a experiência acumulada em seu mercado de origem. Mas leva também um desafio igualmente grande: reconhecer que essa experiência, sozinha, não é suficiente. Durante mais de 20 anos, construímos a Morana entendendo profundamente a consumidora brasileira. Aprendemos seus hábitos, acompanhamos mudanças de comportamento, ajustamos produtos, coleções e modelos de negócio. Esse conhecimento foi construído ao longo do tempo.
Agora, iniciamos um novo capítulo.
Em agosto, inauguraremos a primeira loja da Morana em Buenos Aires, na Avenida Santa Fé, um dos principais corredores comerciais da cidade. A segunda unidade piloto está prevista para novembro. É um passo importante para a nossa internacionalização, mas, principalmente, o início de uma nova curva de aprendizado.
Costumo dizer que vejo a América Latina como mais um Brasil. Digo isso pelo tamanho do mercado consumidor e pelo enorme potencial que ainda existe para marcas brasileiras crescerem na região. Quando observamos a América Latina de forma integrada, estamos falando de um mercado que reúne uma população e um Produto Interno Bruto (PIB) cerca de três vezes maiores que os do Brasil. Diante dessa dimensão, é natural que uma marca brasileira pense: se conseguimos construir uma rede sólida no Brasil, por que não imaginar uma operação de porte semelhante na América Latina?
Ao mesmo tempo, essa ambição exige uma dose importante de humildade. Apesar da proximidade geográfica, os países da região têm culturas, hábitos de consumo e preferências muito próprias. Conhecemos profundamente o mercado brasileiro. O argentino, ainda estamos aprendendo.
Foi justamente essa consciência que norteou toda a nossa estratégia de expansão. Há cerca de um ano, firmamos uma joint venture com o Grupo BSG, controlador das marcas Todomoda e Isadora, duas das maiores redes de acessórios da América Latina. Juntas, elas somam aproximadamente 900 lojas na região — cerca de 700 da Todomoda e outras 200 da Isadora —, sendo aproximadamente 300 operações apenas na Argentina.
O acordo nasceu com uma lógica simples: cada empresa contribuiria com aquilo que conhece melhor. Enquanto compartilhamos com eles a nossa experiência em tropicalização de marcas internacionais e no desenvolvimento do franchising no mercado brasileiro, eles colocam à disposição da Morana décadas de conhecimento sobre o consumidor latino-americano, seus diferentes mercados e sua operação regional.
Essa troca talvez seja o maior patrimônio dessa parceria.
Ao longo desse último ano, nossas equipes vêm trabalhando intensamente na preparação dessas primeiras inaugurações. Visitamos a Argentina diversas vezes. Fizemos pesquisas, realizamos grupos focais, ouvimos consumidoras locais e entendemos detalhes que dificilmente seriam percebidos a distância — tudo com o apoio de quem já conhece aquele mercado.
Descobrimos preferências de produtos, diferenças de estilo e expectativas em relação ao atendimento, o que gerou adaptações que tornam a nossa marca mais aderente ao mercado local.
Esse processo reforçou uma convicção que considero importante para qualquer empresa brasileira que deseja crescer fora do país: internacionalizar não envolve apenas copiar em outro local um modelo que deu certo no Brasil. Internacionalizar significa construir um novo modelo, respeitando as características de cada mercado.
É justamente por isso que nossas duas primeiras operações serão próprias. Queremos observar, aprender, testar e aperfeiçoar antes de acelerar a expansão por franquias na região.
Acredito que ainda olhamos pouco para o potencial da América Latina. Temos ao nosso lado um mercado gigantesco, formado por países com proximidade logística e milhões de consumidores. Mas essa proximidade não elimina a necessidade de estudar cada realidade local.
Se aprendemos alguma coisa nesses últimos meses preparando a chegada da Morana à Argentina, foi que crescer em outro país começa reconhecendo que ainda temos muito a aprender.

*Por Joe Ho Lee, fundador da Morana
Imagens: Divulgação
