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O vendedor não lembra da sua marca porque você fez uma boa campanha. Ele lembra porque você nunca foi embora

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Em anos de inflação persistente, juros elevados, inadimplência em alta e um calendário eleitoral que naturalmente trava parte do consumo, uma coisa se repete em praticamente todos os ciclos de retração da economia brasileira: menos gente entra na loja.

É um dado incômodo para qualquer diretor comercial ou de trade marketing, porque ele não se resolve com mais investimento em mídia. O fluxo cai, o funil de topo encolhe e a indústria perde uma parte do jogo antes mesmo de ele começar, ainda na porta da loja, antes de qualquer vendedor abrir a boca.

Mas há uma segunda leitura desse cenário, menos óbvia e mais estratégica: quando menos pessoas entram na loja, cada pessoa que entra vale mais. E quem decide o que essa pessoa vai levar, na maioria das categorias, é o vendedor.

É aqui que a maior parte das indústrias erra o alvo. Em momento de crise, o primeiro corte costuma ser em relacionamento com a ponta de venda: programas de incentivo, treinamento, engajamento do vendedor. O argumento é sempre o mesmo, “não é hora de gastar com isso, é hora de vender”. O problema é que esse corte acontece exatamente no momento em que a influência do vendedor sobre a decisão de compra fica maior, não menor.

O vendedor como o verdadeiro algoritmo do ponto de venda

Pense no vendedor de varejo como um algoritmo de recomendação humano. Assim como um algoritmo digital prioriza o que já reconhece, testou e teve boa experiência, o vendedor de loja física faz o mesmo cálculo em segundos: qual marca ele oferece primeiro quando o cliente pergunta “qual você recomenda?”.

A resposta raramente é a marca com a campanha mais recente ou o anúncio mais bonito. É a marca que ele já reconhece, que já pagou direito, que já tratou ele como parceiro, e não como número de uma meta de sell-in.

Isso não é opinião, é o resultado natural de como se forma preferência em qualquer relação humana: repetição, reconhecimento e reciprocidade. Uma campanha pontual pode até gerar um pico de atenção, mas atenção não é o mesmo que preferência. Preferência se constrói ao longo do tempo, com consistência, e é exatamente isso que um programa de incentivo bem desenhado entrega, algo que uma ação tática isolada simplesmente não consegue fazer.

Por que campanha pontual perde para programa de relacionamento

Campanhas pontuais têm início, meio e fim. Elas mobilizam o vendedor por algumas semanas, geram um resultado de curto prazo e depois desaparecem, junto com a lembrança de marca que ajudaram a criar. Quando a campanha acaba, o vendedor volta ao seu comportamento padrão, que é recomendar quem ele já conhece.

Um programa de incentivo estruturado funciona de forma completamente diferente. Ele não pede que o vendedor lembre da marca por duas semanas, ele constrói, mês após mês, o hábito de recomendação. O vendedor passa a associar a marca a uma experiência contínua, feita de metas claras, reconhecimento frequente, pagamento rápido e justo e comunicação constante. É o oposto de uma lembrança induzida por mídia. É lembrança construída por relação.

Em cenário de baixa demanda, essa diferença deixa de ser sutil e passa a ser decisiva. Com menos clientes na loja, o vendedor tem menos oportunidades de indicar qualquer marca, e vai usar cada uma delas para reforçar a relação que já existe, não para testar uma marca nova que apareceu com uma campanha de curta duração.

O erro estratégico de tratar incentivo como custo de curto prazo

Grande parte das indústrias ainda trata verba de incentivo e trade marketing como uma linha de custo variável, a primeira a ser cortada quando o cenário macroeconômico aperta. É uma leitura financeira até compreensível, mas estrategicamente equivocada.

Um programa de relacionamento com a força de vendas do varejo é, na prática, um ativo de distribuição. Ele reduz a dependência da indústria em relação a picos de mídia, à sazonalidade de campanhas e à disputa por espaço de gôndola. E constrói uma vantagem competitiva que nenhum concorrente consegue copiar de uma campanha para outra, porque ela é baseada em tempo e consistência, não em orçamento pontual.

Cortar esse investimento em momento de crise é abrir espaço, exatamente na hora mais sensível da cadeia, para que um concorrente mais paciente construa esse relacionamento no seu lugar.

O que isso significa na prática para quem lidera trade marketing e comercial

Manter, e em alguns casos até intensificar, o investimento em relacionamento com o vendedor durante períodos de retração passa por três mudanças de postura.

A primeira é tratar o vendedor como canal, e não como público de campanha. Isso significa olhar para dados de comportamento e histórico de performance, e construir comunicação segmentada, em vez de disparar apenas comunicados genéricos.

A segunda é priorizar consistência sobre intensidade. Um programa contínuo, com reconhecimento e pagamento recorrentes, rende mais do que picos de investimento concentrados em poucas semanas do ano.

A terceira é medir a lembrança de marca do vendedor como métrica de negócio, o que inclui acompanhar a frequência de indicação, a participação em programas, o tempo de resposta a campanhas e, principalmente, a retenção do vendedor dentro do ecossistema da marca ao longo dos ciclos econômicos, inclusive nos mais difíceis.

A tese por trás disso

O desafio da indústria nunca foi apenas chegar ao varejo. Chegar é relativamente simples, distribuição resolve isso. O desafio real é influenciar quem está na frente do consumidor no momento exato da decisão, e esse alguém, na esmagadora maioria dos pontos de venda físicos do Brasil, é o vendedor.

Em um cenário de fluxo reduzido, com a inflação pressionando o bolso do consumidor e a inadimplência limitando o crédito disponível, a decisão de compra se concentra ainda mais nas mãos de quem está atrás do balcão. Marcas que já construíram relacionamento de longo prazo com esse vendedor entram na conversa antes mesmo de o cliente perguntar. Marcas que dependem de campanha pontual torcem para que o timing coincida.

Não é a marca com a melhor campanha que vence essa disputa. É a marca que o vendedor já reconhece como parceira, porque já provou isso campanha após campanha, mês após mês, inclusive nos meses em que vender ficou mais difícil.


*por Raquel Soler, CEO e fundadora da Multiplik

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