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Varejo mantém resiliência em abril, apesar de pressão do crédito sobre o consumo 

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descontos; confiança; varejo

Em abril de 2026, o varejo brasileiro apresentou um resultado misto, mas ainda positivo no balanço geral. Após a alta expressiva registrada em março, o índice ampliado recuou 0,2% na comparação mensal com ajuste sazonal, enquanto o índice restrito avançou 1,4%, sustentado principalmente pelos bens mais sensíveis à renda. Na comparação interanual, os movimentos convergem: o ampliado cresceu 5,4% e o restrito, 5,5%, consolidando mais um resultado favorável frente a 2025 e reforçando que o setor segue operando em patamar superior ao de um ano atrás.

A leitura por tipo de bem evidencia a dinâmica que vem moldando o setor nos últimos meses. Os segmentos mais sensíveis à renda avançaram 2,4% em relação a março, enquanto os mais dependentes de crédito recuaram 2,4% na mesma base de comparação. Esse diferencial não é fortuito: responde diretamente ao ambiente macroeconômico atual, marcado por um mercado de trabalho ainda aquecido, que sustenta a demanda por bens correntes, e por condições de crédito restritivas, que penalizam decisões de consumo dependentes de financiamento.

No plano macroeconômico, o cenário permanece relativamente estável, ainda que com alguns ajustes pontuais. O mercado de trabalho segue resiliente e próximo da mínima histórica de desemprego, apesar de um leve arrefecimento recente. A taxa de desemprego dessazonalizada subiu de 5,4% em dezembro de 2025 para 5,6% em março de 2026. Ainda assim, a comparação interanual mostra melhora relevante, de 7% para 6,1%. A massa de rendimentos do trabalho permaneceu próxima de R$ 375 bilhões em março — o maior valor da série histórica —, enquanto o rendimento real médio habitual, com ajuste sazonal, alcançou R$ 3.824, alta de 0,7% frente a fevereiro de 2026. Emprego e renda, portanto, continuam oferecendo sustentação importante ao consumo das famílias.

Esse suporte, contudo, encontra um contrapeso cada vez mais evidente no crédito. Com os juros reais ainda elevados, o comprometimento da renda das famílias com o serviço da dívida atingiu 29,7% em fevereiro de 2026, renovando o maior nível da série histórica registrado em janeiro. Em linha com esse ambiente, ao se excluírem as concessões de cartão de crédito à vista e do parcelado sem juros, o crescimento do crédito concedido a pessoas físicas nos últimos 12 meses ficou cerca de 7,7 pontos percentuais abaixo do observado nos 12 meses anteriores — indicador claro do aperto nas condições financeiras. Não por acaso, os segmentos mais dependentes de financiamento, como móveis e eletrodomésticos e material de construção, seguem exibindo desempenho mais volátil.

A inflação reforça esse quadro mais moderado. Os serviços acumulam alta de 5,9% em 12 meses, com leve recuo de 0,1 ponto percentual frente ao período anterior, enquanto o núcleo de inflação acompanhado pelo Banco Central permanece em 4,4%, ainda bem acima da meta de 3%. O ciclo de corte de juros teve início em março e ganhou continuidade em abril, mas ainda há incertezas quanto à intensidade e à velocidade desse movimento.

No fim das contas, o resultado de abril confirma a resiliência do varejo mesmo em um cenário de crédito adverso. O desempenho positivo de março, sinaliza um alívio relevante após um período mais fraco, embora ainda insuficiente para alterar de maneira significativa o diagnóstico dos últimos relatórios. Apesar do mercado de trabalho continuar sustentando a renda e evitando uma deterioração mais abrupta do consumo, o elevado endividamento das famílias e o alto custo do crédito permanecem como os principais vetores de restrição para o setor.


*Guilherme Freitas é economista e pesquisador da Stone, responsável pelo Índice do Varejo Stone (IVS) e pelo Índice Abrasel/Stone, atuando na análise de dados macroeconômicos e do varejo brasileiro.

Imagem: Envato

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