Colunistas

Os segmentos em alta no franchising brasileiro e o que nenhum ranking revela

Publicado

on

Os segmentos em alta no franchising brasileiro e o que nenhum ranking revela

O franchising brasileiro encerrou 2025 com R$ 301,7 bilhões em faturamento e crescimento de 10,5%. Todos os 12 segmentos mapeados pela Associação Brasileira de Franchising registraram alta. O número de redes permaneceu praticamente estável, em 3.297, enquanto o faturamento médio por unidade cresceu 7,9%. O setor não está crescendo por volume: está crescendo por produtividade.

Nesse sentido, descobrir quais segmentos estão em rápida ascensão é realmente valioso para um franqueador que está decidindo onde estabelecer ou consolidar sua rede. No entanto, os rankings de nichos em ascensão têm uma omissão significativa: eles indicam onde a demanda está aumentando, mas não esclarecem o que uma rede precisa oferecer para aproveitar essa demanda de maneira consistente. E é exatamente nessa segunda parte que a grande maioria dos franqueadores acaba falhando.

Os três segmentos que definem o ciclo atual

Os dados da ABF para 2025 são inequívocos em apontar três movimentos de destaque.

O franchising na área de Saúde, Beleza e Bem-Estar é o maior do Brasil, faturando R$ 74,3 bilhões e apresentando um crescimento de 14,6% no ano, que acelerou para 17,4% no último trimestre. O setor é responsável por 19% das 50 maiores redes do Brasil, e uma das principais marcas do segmento, O Boticário, que ocupa a vice-liderança do ranking da ABF, possui 3.898 unidades. 

Estão logo abaixo OdontoCompany (1.577 operações, 6.ª posição entre as Top 10) e Óticas Carol (1.408 operações, 8.ª posição), o que reforça a presença de redes consolidadas em três segmentos distintos: beleza, odontologia popular e ótica. Os vetores estruturais estão claros: aumento da massa salarial, envelhecimento da população, autocuidado como prioridade no consumo e farmácias como centros de saúde, integrando serviços de entrega e cuidados preventivos. Consultórios populares, cabeleireiros express e academias de formatos reduzidos continuam a atrair consumidores e franqueados.

Limpeza e Conservação é o segmento com o maior crescimento relativo do setor: 16,8% no ano e 20,4% no quarto trimestre de 2025. Os R$ 2,5 bilhões de faturamento ainda representam uma fatia pequena do total, mas a trajetória é consistente, e os dados de marcas individuais confirmam o ritmo. A Lavateria foi o maior destaque percentual do ranking ABF de 2025: saltou da 46ª para a 29ª posição, com 685 operações e crescimento de 51,5%. A 5àsec, maior rede de lavanderias especializadas do país, encerrou o ano com 640 pontos de venda e crescimento de 13,94% no faturamento.

A LavPop, marca de autosserviço do mesmo grupo, registrou alta de 370% no faturamento e ampliou sua rede em 52,38%, com 44 novas lojas. No setor de limpeza residencial, a Maria Brasileira registrou um crescimento de 16,2%, enquanto a Mary Help se estabelece com 180 unidades operadas em um modelo de home based, exigindo um investimento inicial que varia entre R$ 40 mil e R$ 60 mil.

Também do setor, outros dois novatos foram incorporados às 50 maiores franquias em 2025: a 60 Minutos Lavanderia Self Service, que ocupa a 30ª posição com 680 operações, e a Lavo, que se encontra na 34ª posição com 663 unidades. A diminuição dos espaços habitacionais nas metrópoles, a falta de mão de obra para serviços domésticos, o aumento das lavanderias automáticas e a crescente busca por conveniência geram uma demanda estrutural que não se limita a um ciclo econômico.

Alimentação, Comércio e Distribuição, que abrange mercados independentes, lojas de conveniência e formatos de autosserviço, teve um crescimento de 12,9% ao longo do ano, totalizando R$ 28,0 bilhões. A grande responsável por esse desempenho é a onda de minissupermercados autônomos que têm sido abertos em condomínios residenciais e comerciais.

O market4u se mantém na liderança das microfranquias do Brasil pelo terceiro ano consecutivo, contando com 2.554 unidades em 180 cidades, uma receita projetada de R$ 336 milhões para 2025 e um objetivo de atingir 4.000 unidades e R$ 500 milhões em 2026, sustentado por quatro centros de distribuição próprios. 

Outras redes desse mesmo modelo, como Honest Market e fast4you, estão entre aquelas que fizeram do varejo autônomo um dos segmentos com maior potencial de crescimento no franchising brasileiro. A AM/PM (6ª maior franquia do país, superando a BR Mania), a BR Mania (que possui 1.517 operações, 7ª colocada, com um crescimento de 8,2%) e a Shell Select (que avançou da 13ª para a 10ª posição, com 1.264 operações) reforçam o setor das lojas de conveniência. O trabalho presencial voltou, a base de clientes em pontos de passagem está mais sólida e os formatos compactos com operação enxuta se consolidaram. 

Os segmentos em alta no franchising brasileiro e o que nenhum ranking revela

O que revelam os dados e precisa ser entendido

Um segmento em alta não garante resultado para qualquer rede que nele opere. Essa afirmação parece óbvia escrita desta forma. Mas, na prática, ela é sistematicamente ignorada por franqueadores que tomam decisões de formatação ou expansão com base no desempenho agregado do segmento, não no desempenho específico do modelo.

A lógica de risco aqui é precisa: quando um segmento está em alta, a janela de vantagem competitiva está aberta, mas ela fecha. À medida que mais redes entram no segmento, atraídas pelo crescimento, a concorrência aumenta, os pontos comerciais de alta performance ficam escassos e caros, e os candidatos a franqueado passam a ter mais opções para comparar. O que diferencia, nesse ambiente mais competitivo, é exatamente o que diferencia sempre: modelo operacional maduro, suporte consistente, governança clara e entrega real de resultado para o franqueado.

A rede que entra em um segmento quente com modelo mal estruturado não captura a demanda: ela desperdiça a melhor janela que o mercado vai oferecer. E desperdiça com um custo adicional: o franqueado que entrou na rede durante esse período de alta vai comparar sua experiência real com as expectativas criadas pelo discurso de expansão. Essa comparação raramente favorece o franqueador que cresceu antes de estar pronto.

D2C

Interiorização: o vetor transversal que atravessa todos os segmentos

Além dos segmentos específicos, há um movimento geográfico que merece atenção particular: a interiorização do franchising. O setor já está presente em 69% dos municípios brasileiros, percentual que subiu de 61% em 2024 para 69% em 2025. Cidades de médio porte no interior dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul concentram crescimento consistente de demanda com concorrência ainda pouco estruturada.

A equação aparece atraente para franqueadores que olham para regiões com baixo custo de ocupação, ausência de concorrência organizada e franqueados locais com elevado comprometimento com o negócio. Mas a equação tem variáveis que o mapa não mostra.

Cidades menores têm mercado consumidor menor, o que significa que unidades mal dimensionadas chegam ao teto de faturamento mais rapidamente. A disponibilidade de mão de obra qualificada é, em muitos casos, significativamente inferior ao que a operação exige. O suporte ao franqueado, quando a rede não tem estrutura de consultoria de campo adaptada à distância, sofre com a geografia.

Interiorizar com inteligência exige análise de potencial de mercado por cidade, não apenas por estado ou região. Exige critérios de seleção de franqueados calibrados para o perfil do empreendedor do interior e um modelo de consultoria de campo que funcione à distância: com tecnologia, com dados e com processos que não dependam da presença física para manter a qualidade da operação.

Os segmentos em alta no franchising brasileiro e o que nenhum ranking revela

O que o franqueador precisa ter antes de entrar em um segmento em alta

Há um conjunto mínimo de condições que determina se uma rede tem ou não condições de capturar o crescimento de um segmento em expansão e entrar no franchising.

A primeira é clareza sobre o diferencial competitivo real do modelo. Em segmentos em alta, a concorrência cresce junto com a demanda. A pergunta que o franqueador precisa responder com objetividade é: por que um candidato a franqueado escolheria esta rede, e não uma das outras dez que estão no mesmo segmento? A resposta precisa ser específica, verificável e sustentável no tempo.

A segunda é um modelo financeiro que entrega resultado real para o franqueado. Segmentos em alta atraem franqueados com expectativas otimistas. Quando o resultado real não corresponde à projeção apresentada no processo de expansão, o custo não é apenas o conflito com aquele franqueado específico. É o dano reputacional que se propaga para candidatos futuros e para a imagem da rede no segmento.

A terceira é estrutura de suporte dimensionada para o crescimento planejado. Crescer de 10 para 30 unidades em 18 meses exige uma franqueadora com equipe, processos e tecnologia que sustentem esse crescimento sem deterioração do nível de serviço ao franqueado. O que funciona para 10 unidades raramente funciona para 30 sem ajustes estruturais significativos.

Na experiência da Goakira acompanhando redes em formatação e expansão, os projetos com maior taxa de sucesso são invariavelmente aqueles em que o franqueador chegou ao mercado com o modelo testado, o suporte dimensionado e os critérios de seleção de franqueados bem definidos. Não são aqueles em que a expansão foi acelerada pela euforia do segmento.

Artigo D2C

A leitura correta dos dados de mercado de franchising

O franchising brasileiro de 2025 e 2026 oferece um ambiente favorável como poucos nos últimos anos. Crescimento real de demanda em segmentos estruturalmente sólidos, interiorização como vetor de expansão territorial e um consumidor mais disposto a pagar por serviços especializados são condições que não coexistiram com essa intensidade por muito tempo.

Mas a ABF também registra um dado que merece atenção: o número de redes permaneceu estável em 3.297, enquanto o faturamento cresceu 10,5%. O setor cresceu sem crescer em redes novas. Isso significa que as redes existentes se tornaram mais eficientes, e que entrar nesse mercado com um modelo sem maturidade operacional significa competir diretamente com franqueadoras que já resolveram os problemas que ainda restam enfrentar.

*Imagens: Freepik

Artigo D2C

*Por Ivan Oréfice – Sócio-diretor do Ecossistema Goakira e colunista da Central do Varejo.

Continue Reading
Comente aqui

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *