Comportamento

Consumo premium ganha novo significado em meio à rotina de cansaço

Pesquisa da Casa Mundo Latam mostra como o cansaço, a preocupação financeira e a busca por praticidade influenciam decisões de consumo no Brasil

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Consumo premium

Pedir uma comida diferente após um dia difícil, pagar por uma entrega mais rápida ou escolher um serviço mais confortável são formas de lidar com o desgaste da rotina. O consumo premium entrou de vez na vida de muitos consumidores em meio a um dia a dia desgastante.

Para quem pode pagar, essas escolhas também podem deixar de ser pontuais e passar a influenciar decisões de consumo. É esse comportamento que a pesquisa “Status Quo do Me Mimei”, da Casa Mundo Latam, procura compreender.

O levantamento ouviu 524 pessoas no Brasil, México, Colômbia e Argentina, em julho de 2026. Entre os brasileiros, 77% consideram que ter uma vida com tempo para si se tornou um privilégio.

A pesquisa relaciona esse cenário à sobrecarga, à preocupação financeira e à sensação de precisar dar conta de tudo. Nesse contexto, conforto e conveniência aparecem como formas de reduzir o desgaste cotidiano.

Quando o “eu mereço” passa a orientar o consumo?

A chamada economia do “eu mereço” surge quando pequenas recompensas ganham espaço nas decisões de compra. Segundo a pesquisa, o ponto de atenção está na possibilidade de o consumo deixar de representar apenas um momento de prazer e passar a ser associado de maneira constante ao alívio.

“Existe uma diferença entre escolher um mimo em determinados momentos e transformar essa recompensa em uma necessidade diária. O problema não está em querer conforto ou aproveitar uma experiência melhor. Ele aparece quando o cansaço se torna tão constante que consumir passa a ser uma das únicas formas disponíveis de sentir alívio. A sociedade repete que você trabalhou muito, está exausto e, por isso, merece alguma coisa. Quando esse discurso se torna permanente, ele também começa a influenciar a relação das pessoas com o dinheiro”, afirma Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Latam.

A preocupação financeira aparece entre os fatores que mais pesam na rotina dos entrevistados. Ao mesmo tempo, produtos e serviços que prometem mais conforto continuam sendo utilizados para reduzir o estresse.

O que o consumo premium representa hoje?

Os dados indicam uma mudança no significado atribuído ao consumo premium. O pagamento adicional, antes mais relacionado à exclusividade e ao status, aparece cada vez mais ligado à tentativa de evitar problemas e reduzir atritos.

Entre os brasileiros que pagam mais por uma experiência melhor, 55% afirmam buscar mais conforto. Outros 51% querem evitar problemas, enquanto 49% procuram mais segurança e 37% desejam ganhar tempo. A exclusividade foi mencionada por 18%.

Para 52% dos brasileiros, experiências consideradas básicas funcionam mal para estimular a contratação de versões pagas ou premium. Quando são somados os entrevistados que concordam parcialmente, o percentual chega a 94%.

“Durante muito tempo, o premium foi associado à distinção. Pagava-se mais para acessar algo exclusivo ou demonstrar determinado status. Hoje cresce outra lógica: pagar para evitar problemas. A fila, a espera, o atraso e o imprevisto passam a ser tratados como situações que podem ser evitadas por quem possui recursos. A tranquilidade também se transformou em produto”, analisa Adriana.

A saúde lidera entre as áreas do consumo premium. Nela, os brasileiros dizem pagar mais para evitar estresse, espera ou imprevistos, com 61%. Na sequência aparecem comida (44%), lazer (37%) e transporte por aplicativo (31%).

Até onde vai a busca por conforto premium?

A pesquisa também diferencia situações em que pagar mais representa acesso a condições consideradas importantes para a qualidade de vida de outras em que o objetivo é eliminar qualquer inconveniente.

“Uma coisa é pagar mais para conseguir um atendimento de saúde em um prazo razoável ou ter acesso a uma alimentação melhor. Outra é construir uma rotina na qual qualquer fila, conversa, espera ou mudança de planos se torna insuportável. A pesquisa coloca essas duas dimensões em discussão porque ambas aparecem dentro da busca por uma vida mais confortável”, explica Adriana.

Esse movimento também aparece no mercado. Segundo levantamento da Kantar citado pela pesquisa, o preço médio dos produtos premium vendidos no Brasil cresceu 11,3% no terceiro trimestre de 2024. No mesmo período, essas categorias registraram aumento de 5,8% nas unidades vendidas, especialmente nos segmentos de bebidas e higiene e beleza.

Nos serviços digitais, recursos como maior resolução de imagem, áudio imersivo e ausência de anúncios também podem ficar restritos aos planos mais caros. Com isso, a versão premium passa a ser percebida, em alguns casos, como uma forma de acessar uma experiência mais completa.

A busca por experiências rápidas, personalizadas e previsíveis também pode aumentar a expectativa de controle sobre situações cotidianas. Evitar filas, reduzir interações ou receber produtos rapidamente são exemplos de conveniência que diminuem atritos, mas podem elevar a intolerância a esperas e imprevistos.

“O mimo eventual pode representar prazer, recompensa e cuidado. A armadilha aparece quando toda situação precisa ser otimizada, personalizada ou transformada em uma experiência premium. Quando a pessoa passa a pagar para não esperar, não conversar, não se adaptar ou não lidar com nenhum imprevisto, o conforto deixa de ser uma escolha pontual e passa a organizar sua relação com o mundo”, afirma Adriana.

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Imagem: Magnific

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