Colunistas

IA com governança: como transformar inteligência artificial em vantagem sem risco

Publicado

on

governança

Existe uma corrida em curso no varejo, mas ela tem um problema de fundo. As empresas estão adotando inteligência artificial numa velocidade impressionante, mas a estrutura de governança que deveria sustentar essa adoção não segue o mesmo ritmo. O McKinsey State of AI 2025, mostra que 78% das organizações já usam IA em pelo menos uma função de negócio, mas apenas 5,5% qualificam-se como “high performers”, capazes de extrair impacto real acima de 5%. Adotar IA virou fácil, extrair valor com segurança, não.

A diferença entre esses dois grupos não está no modelo de IA que usam, afinal, todos têm acesso aos mesmos modelos. Está na governança. E esse é o ponto que defendo: no varejo de margem apertada e alto risco reputacional, IA sem governança é apenas um passivo esperando para se materializar.

Governança não freia a inovação. Ela é o que a torna sustentável.

Há uma percepção comum de que a governança atrasa, porém, os dados dizem o contrário. A Gartner apurou, em 2025, que organizações que fazem auditorias e avaliações regulares de seus sistemas de IA têm mais de três vezes mais probabilidade de obter alto valor de negócio com IA generativa do que as que não fazem. E as empresas que investem em plataformas dedicadas à governança de IA são 3,4 vezes mais eficazes em seus esforços. Governança, portanto, é quase um pré-requisito da performance.

Mas o que significa, na prática, governar IA? Não é um documento genérico de “uso responsável” guardado numa gaveta. É um conjunto articulado de decisões que precisam estar na mesa de qualquer varejista sério.

Começa com políticas de uso claras — definir onde a IA pode atuar de forma autônoma, onde precisa de aprovação humana e onde simplesmente não deve operar. O estudo IBM Cost of a Data Breach 2025 traz um dado preocupante: entre as organizações que sofreram violações envolvendo modelos de IA, 97% não tinham controles de acesso adequados. Ou seja, a política existia no papel, mas não era tecnicamente aplicada. 

O segundo pilar é a qualidade dos dados. A IA opera sobre a fundação que recebe. O Stanford AI Index 2025 documentou que dados de baixa qualidade amplificam vieses e comprometem a robustez dos modelos. No varejo, isso se traduz diretamente em decisões erradas de precificação, recomendação e estoque. 

O terceiro é a supervisão humana. A McKinsey identificou que os high performers não “plugam” a IA em processos antigos, mas redesenham fluxos incorporando validação humana e checkpoints. A supervisão vira o mecanismo que permite dar mais autonomia com segurança. E ela se conecta ao quarto pilar: a definição clara de responsabilidades. Aqui o dado é de que apenas 28% das organizações reportam que o CEO tem responsabilidade direta sobre a governança de IA, segundo a McKinsey. 

Vieses, compliance e segurança: os riscos que amadurecem junto

O quinto pilar é a mitigação de vieses. Mesmo os modelos de fronteira mais avançados continuam exibindo vieses implícitos que reforçam estereótipos. O que, além da questão ética, cria risco de compliance sob leis antidiscriminação. No varejo, um algoritmo enviesado pode significar precificação injusta, exclusão de segmentos ou recomendações discriminatórias, com dano reputacional difícil de reverter.

O que nos leva ao sexto e sétimo pilares: segurança da informação e compliance. O AI Index registrou 362 incidentes de IA documentados em 2025, ante 233 em 2024 — uma escalada que acompanha a própria expansão da tecnologia. Não por acaso, frameworks como o ISO/IEC 42001 e o NIST AI Risk Management Framework ganharam tração como referências de estruturação. 

O oitavo pilar decide tudo: métricas de impacto no negócio

De nada adianta governar bem se não se mede o resultado certo. E aqui está talvez o erro mais comum: avaliar IA por métricas de vaidade — número de interações, volume de texto gerado, “temos IA agora”. A pergunta que importa é outra: essa inteligência protege a margem? Reduziu o custo? Aumentou a conversão? Melhorou a retenção? A McKinsey é enfática ao mostrar que o valor real só aparece quando a IA está atrelada a KPIs de negócio claros e ao redesenho de workflows — algo que apenas 21% das organizações efetivamente fizeram.

A boa notícia é que o retorno da governança bem-feita é mensurável. Ainda segundo a McKinsey, organizações que investem em IA responsável reportam ganhos concretos, já que 42% viram melhora na eficiência e redução de custos, 34% registraram aumento de confiança do cliente e 29% relataram fortalecimento reputacional.

A IA vai redesenhar o varejo e isso é inevitável. O que ainda está em aberto é quem vai extrair valor real dela e quem vai apenas acumular risco disfarçado de inovação. A diferença, como os estudos deixam claro, não está na tecnologia, mas está na maturidade de governança com políticas aplicadas de verdade, dados de qualidade, supervisão humana, responsabilidades definidas, vieses mitigados, segurança embarcada, compliance ativo e métricas ancoradas no negócio.

Governança não é o custo da IA, mas sim o que a transforma em vantagem tangível e sustentável para o seu negócio.

Leia também: Em tempos de margem apertada, automação virou condição


*Por Alessandro Gil, VP da Wake

Continue Reading
Comente aqui

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *