ESG
Dia Mundial do Meio Ambiente: o varejo brasileiro entre a urgência climática e a oportunidade de negócio
Entre novas leis, consumidores mais exigentes e custos operacionais ligados ao desperdício, a pauta ambiental deixou de ser opção para o setor varejista
Celebrado nesta sexta-feira (5), o Dia Mundial do Meio Ambiente chega em 2026 com um tema que não deixa espaço para ambiguidade. A edição deste ano centra-se nas mudanças climáticas e na urgência de ouvir os sinais que o planeta envia, com a cobrança por respostas concretas. Para o varejo brasileiro, essa cobrança chegou antes da data comemorativa e já está embutida em regulações, na pressão de consumidores e nas próprias margens operacionais de quem ainda não colocou a pauta ambiental no centro da estratégia.
O setor que movimenta trilhões de reais e está presente na vida cotidiana de qualquer brasileiro ocupa uma posição singular nessa equação. É ao mesmo tempo um dos maiores geradores de resíduos, embalagens e emissões do país e um dos agentes com mais capacidade de escala para promover mudanças efetivas. Ignorar isso, em 2026, deixou de ser uma escolha estratégica para se tornar um risco.
O consumidor mudou de lado
Os dados sobre o comportamento do consumidor brasileiro ajudam a dimensionar a pressão que chega pelo lado da demanda. Pesquisa da ESG Insights de 2024 aponta que 95% dos consumidores brasileiros afirmam preferir marcas que investem em sustentabilidade. Em nível global, o Future Consumer Index mostrou que, entre 2022 e 2023, o percentual de pessoas dispostas a pagar mais por produtos sustentáveis saltou de 24% para 32%, com a Geração Z liderando o movimento (37%) e os Millennials em seguida (35%).
Mas a preferência declarada nem sempre vira carrinho cheio. Um estudo recente da Ilumeo em parceria com a Ecomunica e Weleda mapeou com precisão essa contradição. Enquanto 74% dos consumidores brasileiros se enquadram nos perfis “engajados” ou “pragmáticos” com a sustentabilidade, 26% são indiferentes à pauta ESG como critério de decisão de compra. O levantamento indica ainda que abordagens baseadas em preços premium abusivos têm baixíssima adesão, e discursos ESG genéricos e sem comprovação prática parecem vazios para esse público.
O recado é claro: o consumidor está mais disposto a trocar de marca do que a pagar mais. O comportamento mais viável para esse grupo é a substituição de marcas, com preferência por selos confiáveis. Para o varejista, isso significa que sustentabilidade sem evidência é marketing; com evidência, é diferencial competitivo.
ESG virou pré-requisito, não diferencial
Após anos em que práticas sustentáveis eram diferenciais, chegamos a um ponto de inflexão: em 2026, o ESG é um requisito básico para competir. Essa inflexão tem raízes tanto no comportamento do consumidor quanto na regulação. As normas globais IFRS S1 e S2, criadas pelo ISSB, entraram em vigor no Brasil como obrigatórias para companhias abertas de Categoria A e securitizadoras registradas na CVM, criando uma nova exigência de transparência que vai muito além das declarações institucionais.
O problema é que a maioria das empresas brasileiras ainda não estruturou o básico dessa agenda. Os dados de 2026 mostram que 73% das empresas não possuem ou não atualizam sua Matriz de Materialidade, 68% não publicam Relatório de Sustentabilidade e 61% não realizam benchmarking setorial. Não se trata de falta de intenção, mas de ausência de metodologia. A próxima fase da agenda ESG no Brasil não será decidida por consciência ou convicção, mas por regulação, por exigências de cadeias globais de suprimentos e, progressivamente, por investidores que exigirão comprovação antes de alocação.
A lei chegou às embalagens
Um dos marcos regulatórios mais relevantes para o varejo nos últimos meses foi a publicação do Decreto nº 12.688/2025, em outubro do ano passado. A norma representa um marco para a economia circular brasileira, pois reforça a responsabilidade compartilhada de fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes quanto ao ciclo de vida das embalagens pós-consumo. Com o decreto, as empresas têm a obrigação de garantir que as embalagens plásticas usadas sejam recolhidas e reinseridas no processo produtivo, o que reduz o descarte incorreto e estimula a reciclagem.
As metas são concretas e vinculantes. As empresas de grande porte já estão sujeitas à obrigação de recuperar 32% das embalagens plásticas que colocaram no mercado, e as fabricantes de embalagens precisam comprovar que ao menos 22% da massa das embalagens novas é composta por resina reciclada pós-consumo. Para as empresas de médio e pequeno porte, o prazo foi fixado para julho de 2026. O descumprimento pode gerar multas de R$ 5.000 a R$ 50 milhões, dependendo da gravidade e do porte da empresa.
O contraste com o cenário global ajuda a entender a dimensão do desafio que o decreto tenta endereçar. Segundo o estudo Panorama Global do Plástico, elaborado pela OCDE, apenas 9% dos resíduos plásticos são reciclados no mundo. O compromisso do Brasil é chegar a 50% de coleta e reciclagem de embalagens até 2040.
Supermercados: onde a conta do meio ambiente aparece no resultado
No varejo alimentar, a conversa sobre sustentabilidade tem uma vantagem adicional: ela frequentemente se confunde com eficiência operacional. Energia desperdiçada é custo. Alimento descartado é prejuízo. Embalagem inadequada é risco regulatório e reputacional. Altos índices de emissão de carbono geralmente indicam desperdícios energéticos que corroem o lucro líquido, o que faz da descarbonização uma demanda estratégica para buscar a otimização de recursos e a mitigação de riscos regulatórios.
Algumas redes brasileiras já percorreram esse caminho com resultados mensuráveis. A Cencosud Brasil, por exemplo, implementou a plataforma EcoStruxure Resource Advisor, da Schneider Electric, em todas as suas lojas no país. Com isso, a varejista conseguiu reduzir mais de 500 toneladas de CO2 e economizar quase 4 mil MWh em energia. “Investir em sustentabilidade é mais do que uma questão ambiental. Trata-se de uma estratégia de negócios que beneficia não só as nossas operações como a sociedade como um todo”, afirmou Douglas Silva, diretor de Obras e Projetos da rede.
Na ponta tecnológica, plataformas IoT baseadas em nuvem voltadas para o varejo alimentar prometem reduzir em até 30% o desperdício de alimentos e entre 15% e 30% o consumo de energia em refrigeração, de acordo com implementações já documentadas. Sistemas de controle de estoque, análise de vendas e gestão de compras contribuem para evitar excessos e melhorar o aproveitamento dos produtos, enquanto equipamentos modernos de refrigeração e iluminação adequada reduzem o consumo de energia e os custos operacionais.
O ranking ambiental do varejo brasileiro
No recorte específico do pilar ambiental entre as grandes empresas brasileiras, o varejo de consumo direto concentra alguns dos nomes mais bem posicionados. No pilar Meio Ambiente do ranking ESG Merco 2025, a Natura lidera, seguida por Grupo Boticário, Ambev, Nestlé e Suzano. A presença de empresas ligadas ao consumo pessoal e à beleza no topo do ranking reflete uma tendência que vai além da comunicação: essas categorias enfrentam pressão direta do consumidor final e, portanto, internalizaram a agenda ambiental com mais velocidade do que outros segmentos.
O varejo que ainda não ouviu o sinal
O cenário de urgência marca o Dia Mundial do Meio Ambiente de 2026, mas o mais provável, passada a efeméride, é que a pauta somente volte a circular diante da ocorrência de algum desastre relacionado ao clima. O tema ainda não faz parte das preocupações do dia a dia das pessoas, apesar das consequências dramáticas decorrentes da emergência ambiental.
Para o varejo, esse gap entre o discurso da data comemorativa e a prática cotidiana tem um custo crescente. Os consumidores que trocam de marca por critérios ESG não esperam o próximo 5 de junho para fazer a escolha. A regulação sobre embalagens plásticas não aguarda o calendário ambiental para cobrar metas. E os investidores que exigem comprovação de métricas antes de alocar capital tampouco se orientam por datas simbólicas.
O tema do Dia Mundial do Meio Ambiente em 2026 fala em ouvir os sinais do planeta e decidir quais sinais enviar de volta. Para o setor varejista brasileiro, os sinais já chegaram por múltiplas frentes: do consumidor, da regulação, do mercado financeiro e da própria operação. A questão é saber quem vai responder e com o quê.
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