Economia
GLP-1: Redução de 35% no preço pode ampliar acesso ao tratamento
Estudo da IFEPEC apontou como a disputa do GLP-1 deve afetar o varejo farmacêutico e como impulsiona suplementos alimentares.
A ampliação da oferta de medicamentos da classe GLP-1 no Brasil tem potencial para transformar o mercado voltado ao tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 e gerar impactos em diferentes segmentos do varejo farmacêutico. Além do aumento esperado no acesso aos medicamentos, o movimento também tende a ampliar a procura por suplementos, vitaminas, serviços farmacêuticos e acompanhamento especializado nas farmácias.
Levantamento realizado pelo Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (IFEPEC) com 1.067 médicos de todas as regiões do país mostra que apenas 28% dos pacientes aptos ao uso de medicamentos da classe GLP-1 conseguem manter financeiramente o tratamento. Conforme os profissionais entrevistados, uma redução média de 35% nos preços elevaria esse percentual para 45%.
A mudança ocorre com a entrada de novos produtos no mercado brasileiro, incluindo alternativas nacionais, como a Ozivy, da EMS, primeira semaglutida sintética produzida no Brasil aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo representantes do setor, o aumento da concorrência pode favorecer a redução dos preços e ampliar o acesso aos tratamentos.
A pesquisa também identificou que 65% dos pacientes interrompem o tratamento ou deixam de seguir a posologia recomendada devido ao custo da terapia, apontando o preço como o principal fator que limita a expansão desse mercado.
Como o GLP-1 afeta o varejo farmacêutico?
Para Edison Tamascia, presidente da Febrafar e da Farmarcas, o cenário indica uma nova etapa para a categoria.
“A eficácia dos GLP-1 já é amplamente reconhecida pelos médicos. O grande desafio agora é ampliar o acesso. A pesquisa mostra claramente que existe uma demanda reprimida muito significativa e que a redução dos preços pode permitir que milhões de brasileiros tenham acesso a tratamentos que hoje estão fora de sua realidade financeira”, afirma.
Segundo ele, a entrada de novos fabricantes deve estimular a competitividade entre os produtos disponíveis.
“Quando novas opções passam a disputar espaço no mercado, naturalmente cria-se uma tendência de maior competitividade. Isso beneficia os pacientes, amplia o acesso e fortalece a adesão aos tratamentos. Estamos observando o início de um processo de democratização dos GLP-1 no Brasil”, destaca.
Quais produtos o GLP-1 deve impulsionar?
Além da comercialização dos medicamentos, a expansão dos GLP-1 pode aumentar a demanda por produtos relacionados ao suporte nutricional e ao acompanhamento dos pacientes. Entre os itens citados pelo setor estão suplementos proteicos, creatina, vitamina B12, polivitamínicos, coenzima Q10 e outros produtos voltados à nutrição e ao bem-estar.
Segundo a Farmarcas, a procura por esses produtos acompanha mudanças nos hábitos dos usuários dos medicamentos, que tendem a adotar uma rotina voltada aos cuidados com a saúde.
Para Fábio Chacon, diretor da Farmarcas, os medicamentos passaram a representar uma oportunidade para ampliar o relacionamento entre farmácias e consumidores.
“O paciente não procura apenas o medicamento. Ele passa a buscar orientação, acompanhamento e produtos complementares que contribuam para o sucesso do tratamento. Isso cria uma jornada de consumo muito mais ampla dentro da farmácia e fortalece diversas categorias relacionadas à saúde e ao bem-estar”, afirma.
Ainda de acordo com o executivo, o crescimento do número de pacientes em tratamento tende a aumentar também a procura por serviços farmacêuticos e produtos complementares.
“Quanto maior o número de pacientes em tratamento, maior tende a ser a procura por vitaminas, suplementos, produtos nutricionais e serviços farmacêuticos. Estamos falando de uma transformação que impacta toda a cadeia do varejo farmacêutico”, explica.
Farmácias reforçam treinamento das equipes
Com o crescimento da demanda pelos medicamentos, redes e farmácias independentes também vêm ampliando investimentos na capacitação de farmacêuticos e equipes de atendimento.
Entre os temas que têm recebido maior atenção estão a aplicação correta dos medicamentos, armazenamento, adesão ao tratamento e orientação sobre possíveis efeitos adversos. Conforme o levantamento do IFEPEC, os efeitos gastrointestinais, como náusea, constipação, vômitos e diarreia, são os eventos adversos mais frequentemente relatados pelos pacientes.
Nesse contexto, a orientação farmacêutica é apontada como um fator importante para a continuidade do tratamento.
“O farmacêutico passa a desempenhar um papel ainda mais relevante. Ele ajuda a orientar o paciente, contribui para a adesão terapêutica e auxilia na utilização correta dos medicamentos. Isso fortalece o posicionamento da farmácia como um agente de saúde cada vez mais presente na jornada do consumidor”, afirma Tamascia.
Ampliação da oferta pode reduzir mercado irregular
A pesquisa também aponta que, em média, 7% dos pacientes chegam aos consultórios relatando já ter utilizado medicamentos da classe GLP-1 sem prescrição médica antes da primeira consulta.
Segundo representantes do setor, o aumento da oferta de medicamentos aprovados pela Anvisa e comercializados em canais regulares pode reduzir a procura por produtos de origem desconhecida.
“Existe uma demanda muito grande por essa categoria. Quanto mais opções seguras e acessíveis estiverem disponíveis nas farmácias, menor tende a ser o espaço para produtos de origem duvidosa. O paciente ganha acesso a tratamentos regularizados, com acompanhamento médico e orientação farmacêutica adequada”, afirma Chacon.
Imagem: Magnific
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