Operação
Fim da escala 6×1 só vai a votação no Senado após as eleições
Senador Davi Alcolumbre confirma que texto será votado na segunda semana de outubro; especialistas mapeiam impactos de custos, produtividade e infraestrutura para o varejo
O Senado vai votar o fim da escala 6×1 apenas após as eleições, segundo confirmação do presidente da Casa, Davi Alcolumbre. A base governista chegou a cogitar levar o texto ao plenário antes do pleito, mas recuou na quarta-feira (2) diante da obstrução da oposição e da falta de garantia sobre os votos necessários. A previsão é que a votação ocorra na segunda semana de outubro, com primeiro turno em 4 de outubro e eventual segundo turno em 25 de outubro.
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado já aprovou a PEC, de autoria dos deputados Reginaldo Lopes (PT-MG) e Erika Hilton (Psol-SP), que estabelece jornada máxima de 40 horas semanais distribuídas em cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redução salarial. O texto já havia passado pela Câmara dos Deputados e agora precisa de aprovação em dois turnos no plenário do Senado.

Fim da escala 6×1 pode elevar custos das empresas, mostra simulação
Um estudo da Confirp Contabilidade dimensiona o possível impacto financeiro da mudança para empresas que operam com escalas contínuas, como parte do varejo. A simulação, feita com uma empresa hipotética do Simples Nacional com receita bruta anual de R$ 50 milhões, compara uma operação em escala 6×1 com um cenário de 5×2.
No modelo atual, a empresa teria R$ 4 milhões em folha de pagamento (8% da receita), R$ 500 mil em benefícios e R$ 100 mil em medicina e treinamentos, resultando em EBITDA de R$ 3,5 milhões, ou margem de 7%. No cenário 5×2, mantendo a mesma receita, a folha subiria para R$ 4,9 milhões, os benefícios para R$ 650 mil e os gastos com medicina e treinamentos para R$ 180 mil. O EBITDA cairia para R$ 2,37 milhões, com margem de 4,7%, perda de 2,3 pontos percentuais.
“Cada empresa precisa mapear sua operação, entender quais funções dependem de cobertura contínua e calcular como diferentes modelos de jornada afetariam a estrutura de pessoal”, afirma Daniel Santos, gerente Trabalhista Outsourcing da Confirp Contabilidade. Segundo ele, o ideal é começar a simular cenários antes mesmo da definição final da PEC no Congresso: “A empresa que conhece sua estrutura de custos, sua produtividade e suas necessidades de pessoal consegue tomar decisões com muito mais segurança quando o ambiente regulatório muda.”
Para Carlos Junior, diretor de Outsourcing da Confirp, a resposta ao aumento de custos não deve se limitar à contratação. “Antes de simplesmente contratar mais pessoas, a empresa precisa analisar seus processos, eliminar etapas desnecessárias e identificar onde pode ganhar eficiência. A redução da jornada pode representar um custo adicional, mas também pode acelerar uma transformação que aumente a produtividade”, diz.
Fim da escala 6×1 pressiona varejo a repensar retirada de produtos
Para Gustavo Artuzo, engenheiro pelo ITA e CEO da Clique Retire, empresa de armários inteligentes, o debate sobre a escala 6×1 expõe uma dependência estrutural do varejo brasileiro em relação à presença física de funcionários para etapas como entrega e retirada de produtos. “A resposta mais comum tem sido imaginar que será preciso contratar mais pessoas para cobrir os novos turnos. Mas esse raciocínio trata o efeito, não a causa”, afirma.
Segundo Artuzo, o crescimento do e-commerce amplia a pressão sobre esse modelo. Segundo a ABComm, associação citada pelo especialista, o comércio eletrônico brasileiro movimentou cerca de R$ 235 bilhões em 2025, impulsionado por categorias de alta recorrência, como vestuário, calçados e saúde. “Se o varejo responder à nova jornada apenas reduzindo equipes e horários de atendimento aos finais de semana, esse consumidor também será impactado”, diz.
Mudança na jornada de trabalho pode abrir vagas na área operacional, aponta Catho
Pesquisa da Catho, plataforma de empregos, mostra que 51,4% das empresas apontam a área operacional como a mais impactada por uma eventual mudança na jornada, seguida pela área comercial e de vendas, com 13,7%. Segundo o levantamento, cerca de 10% das empresas pretendem ampliar o quadro de colaboradores como principal estratégia de adaptação, enquanto 38% planejam reorganizar escalas, jornadas e equipes.
“Sempre que o mercado passa por mudanças estruturais, surgem novas necessidades de contratação e reorganização das equipes. Os profissionais que acompanham essas transformações e se preparam com antecedência aumentam as chances de aproveitar as oportunidades que começam a surgir”, afirma Patrícia Suzuki, diretora de RH da Redarbor Brasil, detentora da Catho.
Leia também:
- Câmara aprova fim da escala 6×1 e redução da jornada para 40 horas semanais
- A jornada 6×1 e a realidade do varejo brasileiro
- O impacto da escala de trabalho 6×1 para pequenos comerciantes
Infográfico gerado com auxílio de inteligência artificial
Imagem: Carlos Moura/Agência Senado
