Operação
Economia de creators deve movimentar mais de US$ 1 trilhão até 2034
Mercado de creators amplia modelos de negócio, investimentos publicitários e desafios relacionados à mensuração, profissionalização e escolha de parceiros
A economia de creators deixou de estar restrita a campanhas com influenciadores nas redes sociais. O setor passou a reunir produção de conteúdo, publicidade, comércio, assinaturas, tecnologia, dados e comunidades.
Um relatório divulgado pela Market.us em agosto de 2026 estima que o mercado global movimentou US$ 149,4 bilhões em 2024. A projeção é chegar a US$ 1,07 trilhão até 2034.
O estudo prevê crescimento médio anual de 21,8%. A estimativa considera o conjunto formado por criadores, plataformas, ferramentas, serviços e diferentes modelos de monetização.
O movimento também aparece nos investimentos publicitários. Segundo o Interactive Advertising Bureau (IAB), as marcas nos Estados Unidos gastaram US$ 37 bilhões com creators em 2025.
O valor representa alta de 26% em relação ao ano anterior. Para 2026, o IAB estima que o investimento alcance US$ 44 bilhões.
Para Giselle Freire, CEO e Diretora de Contas da DreamOne, os números refletem uma mudança na participação dos creators dentro das estratégias de comunicação.
“Para nós, as estratégias com influenciadores cresceram 60% no último ano. Estamos falando de uma mudança estrutural na maneira como as marcas constroem relevância. O criador não é mais apenas alguém que empresta sua audiência para uma campanha. Ele pode ser mídia, produtor de conteúdo, empreendedor, parceiro de desenvolvimento de produto e, em alguns casos, uma extensão da própria cultura da marca.”
Como a economia de creators mudou o planejamento das marcas?
O relatório do IAB aponta que 48% dos compradores de mídia nos Estados Unidos já consideram os criadores um investimento obrigatório. A categoria aparece atrás apenas das redes sociais e da busca paga.
Entre os objetivos das campanhas estão reconhecimento de marca, alcance de novas audiências, fortalecimento de reputação e confiança e geração de vendas ou conversões online.
Na análise da Market.us, as colaborações entre marcas e creators representam 22,7% do mercado por modelo de monetização. A receita publicitária aparece logo depois, com 22,1%.
O vídeo responde por 24,4% do mercado por tipo de conteúdo. O resultado acompanha a expansão de formatos curtos e longos em plataformas como YouTube, TikTok e Instagram.
Ricardo Tarza, sócio e Diretor de Inovação e Criatividade da DreamOne, considera que a expansão modifica a estrutura dos meios de comunicação.
“Tecnicamente, o que estamos vendo é a consolidação de uma nova camada de mídia. Os criadores combinam produção, distribuição, dados de audiência, segmentação e capacidade de gerar conversa em um mesmo ambiente. E isso pode ser ainda mais potente quando conectamos creator marketing com mídia paga, social commerce, inteligência artificial e dados de performance”, afirma.
A diversificação também alcança as receitas dos criadores. Além da publicidade, estão entre os modelos possíveis assinaturas, programas de afiliados, produtos próprios, comércio eletrônico, eventos e licenciamento.
A Market.us aponta a monetização em diferentes plataformas como um dos fatores de crescimento do mercado.
Dependência de audiência
O crescimento da economia de creators também aumenta a necessidade de profissionalização. Entre os desafios apontados pela Market.us estão desigualdade de renda, dependência dos algoritmos, volatilidade na descoberta de conteúdo e dificuldades de mensuração.
O estudo também cita riscos relacionados à segurança das marcas. Em algumas plataformas, os 1% a 5% de criadores no topo concentram mais da metade dos pagamentos de determinados fundos e receitas de patrocínio.
Para Giselle Freire, a quantidade de seguidores não é suficiente para definir a escolha de um creator.
“Não podemos confundir tamanho de audiência com capacidade de gerar valor para uma marca. Um influenciador pode ter milhões de seguidores e não ser a pessoa certa para determinado público, produto ou posicionamento. Da mesma forma, um micro criador pode ter uma comunidade muito mais relevante para um objetivo específico. O desafio está em sair da lógica da celebridade pela celebridade e entender contexto, afinidade, credibilidade e resultado”, pondera.
O relatório “2025 Creator Economy Ad Spend & Strategy Report”, do IAB, também aponta a identificação dos profissionais adequados como um dos obstáculos para os anunciantes.
Mais da metade das marcas considera a reputação do criador, apontada por 58%, e a aderência de sua audiência, com 56%, entre os principais critérios de escolha.
No Brasil, pesquisa do IAB Brasil e Offerwise indica a importância da autenticidade. O estudo #Publi 2025 aponta que sete em cada dez brasileiros consideram o fator decisivo na relação com creators.
A mesma pesquisa mostra que oito em cada dez brasileiros já compraram produtos recomendados por influenciadores e apresentaram alto índice de satisfação.
Qual será o próximo passo para a economia de creators?
A inteligência artificial generativa também participa dessa transformação. Para as agências, a tecnologia pode acelerar a produção, reduzir prazos e ampliar a capacidade de análise e personalização.
Tarza destaca, porém, a permanência da relação entre criador e comunidade como um elemento central.
“A IA pode reduzir tempo e custo de produção, personalizar conteúdos, analisar grandes volumes de dados e ajudar na identificação de oportunidades. Isso significa que um creator pode operar hoje com uma estrutura que, poucos anos atrás, exigiria uma equipe muito maior. Mas a tecnologia não resolve o principal ativo desse mercado, que é a capacidade de estabelecer uma relação de confiança com uma comunidade”, reflete Tarza.
Outro ponto em desenvolvimento é a mensuração. Em janeiro de 2026, o IAB publicou um levantamento sobre o tema e identificou a falta de padrões, métricas comuns e maior rigor financeiro como obstáculos para integrar creators às estratégias corporativas de mídia.
Entre os problemas apontados estão métricas fragmentadas, plataformas isoladas e modelos de atribuição baseados em indicadores indiretos.
Para Freire, a consolidação do mercado passa pela criação de parâmetros capazes de relacionar creators, públicos, mensagens e resultados.
“É um mercado que já provou sua relevância, mas que ainda está construindo seus próprios parâmetros. E isso é saudável. A próxima etapa é transformar influência em inteligência: saber por que determinado criador funciona, para qual público, em qual contexto, com qual mensagem e com qual impacto real no negócio. A maturidade virá quando conseguirmos preservar a espontaneidade que torna os creators interessantes sem abrir mão de governança e mensuração.”
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