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Como a Kodak usou a nostalgia para se tornar uma das marcas de roupa mais cool da Coreia do Sul

Do rolo fotográfico à fotografia da vitrine

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Assim como para muitos que nasceram até os anos 80, a Kodak é, para mim, sinônimo de boas memórias. Lembra-me a infância, as férias de verão e aquela ansiedade boa de descobrir como as fotos ficavam depois de revelar o rolo. Anos depois, sem aviso, a marca desapareceu… e deixou de fazer parte do meu dia a dia, ficando guardada em algum lugar entre a memória e a saudade.

Até chegar à Coreia do Sul e perceber que, por lá, a história é completamente diferente.
Após a crise do digital, a Kodak reinventou-se – através de um contrato de licenciamento – como Kodak Apparel. Mas não se limitaram a estampar o logo em uma camiseta e chamar isso de rebranding. Construíram uma identidade visual completa, ancorada na herança da marca. O resultado? O amarelo e o vermelho icônicos voltaram às ruas, tornando-se um exemplo de varejo de experiência impossível de ignorar.

“Newtro”: o segredo do sucesso

O que está por trás deste sucesso tem nome: chama-se Newtro, a fusão de new com retro. É a arte de reinterpretar o passado de forma contemporânea. E os coreanos souberam fazer isso com maestria.
A marca utiliza o “Amarelo Kodak” de forma onipresente – fachadas, acessórios, iluminação – criando um impacto visual imediato. As lojas funcionam como pequenos museus: pôsteres antigos e câmeras de filme analógico estão expostos não como decoração, mas como prova de autenticidade, dirigida precisamente a uma geração que nunca chegou a segurar um rolo fotográfico.
É paradoxal e genial ao mesmo tempo.

Mais do que varejo, uma experiência

Tinha a Kodak Corner Shop (Flagship em Seongsu-Dong, o bairro conhecido como o “Brooklyn de Seul”) na minha lista de lugares para visitar no primeiro dia completo da viagem. Mas devo confessar que, mal avistei aquele amarelo ao longe, sorri de imediato.
É, provavelmente, a loja mais icônica e nostálgica que já visitei.

O que me surpreendeu não foi só o espaço em si, mas a forma como cada detalhe foi pensado para que a visita se transforme em algo maior do que apenas comprar roupa:
A fachada e o interior foram desenhados para ser fotografados e compartilhados. Não de forma artificial, mas com uma coerência visual que convida naturalmente ao registro.

Kodak Corner Shop, no bairro Seongsu-dong, em Seul. De dia.
Kodak Corner Shop, no bairro Seongsu-dong, em Seul. À noite.


As peças e acessórios exploram tons terrosos e cores primárias fortes que remetem aos diferentes tipos de filme – Ektachrome ou Portra – para quem os conhece e para quem não conhece.

A placa “Seongsu Exclusive” atiça o desejo de colecionismo. E não é só uma questão de branding, é uma declaração de lugar. O consumidor valoriza produtos de exclusividade local. Os turistas ainda mais. E eu, um pouquinho mais ainda.


O provador também não foi esquecido e vai muito além de um espaço funcional: conta a história da marca. No fundo, a Kodak Apparel está dizendo: “Fomos os mestres da imagem analógica. Agora somos os mestres da sua imagem digital.” O slogan “Make something Kodak” é um convite e um desafio.


A máquina de fotos em preto e branco que tira a foto e a imprime instantaneamente em papel térmico, no estilo de um cupom de compra foi a de que mais gostei. É gratuita, imperfeita e completamente tátil: o antídoto perfeito para a obsessão pelos filtros. Ainda por cima sem fila, foi um momento que me divertiu bastante e me fez permanecer na loja alguns minutos adicionais.

Kodak


Também há áreas de selfie, com espelhos estrategicamente colocados, iluminação de estúdio profissional e cenários que lembram sets de filmagem. A frase “What’s life without pictures?” faz exatamente o que deve fazer: cria uma ligação emocional e vende a ideia de preservar memórias em um mundo efêmero.

Kodak


A sacola que eu não esperava
Depois de pagar, pensei que a experiência tinha terminado. Mas não. Deram-me uma sacola que, além de criativa, pode ser usada nas costas, mantendo as mãos livres – algo que uma sacola de alça comum não permitiria. Passou o resto do dia comigo e ainda a usei em outros dias da viagem, pois foi muito útil para guardar outras lembranças. Não foi um brinde qualquer, foi um detalhe que prolongou a relação com a marca sem que eu percebesse.

Kodak
Kodak
Kodak Cine Shop, localizada em Busan, no coração da BIFF Square.

A Kodak Apparel é o exemplo perfeito de como uma marca pode ser resgatada e tornar-se relevante em uma categoria completamente diferente, capitalizando em seu maior ativo: o valor emocional.
É a prova de que uma marca nunca morre de verdade se souber fazer a transição do produto para o valor simbólico.
Em Seul, a Kodak já não vende fotografia. Vende a estética da nostalgia. E as pessoas adoram.

Leia também: Ir à terapia como quem vai à academia: como o The Self Space está redefinindo o “terceiro lugar”


*Elisabete Galiano é formada em Gestão e conta com mais de 18 anos de experiência em Marketing no setor de FMCG (Fast Moving Consumer Goods). É Head of Strategic Plant Based Food Category na Sumol Compal, empresa líder no mercado de bebidas não alcoólicas em Portugal. Reside em Lisboa e tem um interesse especial por marcas, inovação e tendências.

Imagens: Elisabete Galiano

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