Moda
Da alfaiataria ao check-in: os próximos passos da Ricardo Almeida
Em entrevista à Central do Varejo, CEO Adilson Machado confirma abertura de casa de wellness para 2027 e explica o que a marca aprendeu nas missões à NRF
A imprensa vinha anunciando 2026 como o ano de abertura da Alma Kan, a casa de wellness que a Ricardo Almeida constrói nos Jardins, em São Paulo. Em entrevista exclusiva à Central do Varejo, o CEO da marca, Adilson Machado, atualiza essa data: o espaço abre no primeiro trimestre de 2027.
O atraso não é o dado mais revelador da conversa. É o modelo de negócio por trás dele. A Alma Kan vai operar como clube de membros, com adesão inicial restrita a 40 casais de sócios-fundadores.
“Estruturamos o modelo de negócios da Alma Kan de forma a garantir a perenidade das receitas desde o momento de sua abertura, eliminando a dependência da curva comum de ocupação e uso do segmento”, diz Machado.
A lógica financeira por trás da conta é diferente da moda. “No segmento de wellness e hospitalidade, estamos falando de ativos intensivos, onde o benchmark tradicional de mercado aponta uma curva de maturação de 24 a 36 meses para estabilizar a operação e o retorno”, diz o CEO.
O modelo de clube, segundo ele, existe para encurtar essa curva.
A expansão acontece em um momento de crescimento do consumo de luxo no Brasil. O mercado nacional cresceu 11,7% em 2024 e a expectativa era de alta de 15% em 2025, segundo estudo da consultoria MCF em parceria com a Associação Brasileira das Marcas e Empresas de Luxo (Abrael).
Da alfaiataria ao ecossistema de lifestyle
A Ricardo Almeida soma 43 anos de história, e a associação com terno e mercado financeiro é mais recente do que parece.
“Nos anos 80 para 90, o ‘homem Ricardo Almeida’ usava ternos roxos, laranjas e azuis, e nossos produtos eram consumidos, em geral, por artistas, publicitários, músicos e criativos”, conta Machado. O público de advogados e executivos veio depois, quando a alfaiataria da marca virou símbolo de status.
É essa a origem que Machado usa para justificar a entrada em hotelaria e wellness.

“Hoje, entendemos que nosso papel vai muito além de vestir. Nós construímos relacionamentos de longo prazo”, afirma. Para ele, a Alma Kan e o Hotel Ricardo Almeida, em desenvolvimento no litoral de Alagoas, seguem essa lógica.
O hotel deve reunir hospedagem, condomínio e fazenda, com beach club, academia e centro de bem-estar.
Machado afirma que o projeto está em desenvolvimento desde 2022 e 2023, mas foi mantido em sigilo até o anúncio ao mercado, feito entre o fim de 2025 e o início de 2026.
“Essa expansão não é uma tentativa de compensar oscilações de curto prazo na venda de roupas, mas uma escolha consciente de inovação e lifestyle”, diz o executivo. Ele afirma que a operação de vestuário segue rentável e representa o núcleo do negócio.
Machado rejeita a leitura de que a diversificação enfraquece a identidade da marca. “Não estamos diluindo o legado da marca. Estamos levando os mesmos valores que consolidaram nossa reputação para outros momentos da vida dos nossos clientes”, diz.
“No fim das contas, não estamos expandindo a marca para novos mercados. Estamos ampliando a presença da Ricardo Almeida em ambientes que compartilham da mesma visão de excelência que sempre nos definiu”, diz ainda.
A base da operação segue sendo o tecido. Há mais de 30 anos, a Ricardo Almeida mantém parceria pessoal do fundador com o lanifício italiano Loro Piana, do grupo LVMH.
“Essa parceria faz da Ricardo Almeida a única marca a deter essa chancela em toda a América Latina”, diz Machado. Segundo ele, a colaboração incluiu o desenvolvimento de 18 cores exclusivas, introduzidas a partir de 2025.
Enquanto diversifica, a marca mantém a alfaiataria oficial da Seleção Brasileira de futebol, parceria que chegou à terceira Copa do Mundo em 2026.
Um CEO que veio do financeiro
Machado entrou na Ricardo Almeida em 2021, vindo da Smartway Assessoria, como diretor financeiro, e assumiu a cadeira de CEO ainda naquele ano.
“Ter vivenciado a área de finanças antes de assumir a liderança foi decisivo”, diz Machado sobre o período no financeiro. “Essa imersão prévia me permitiu absorver a cultura da marca na prática e criar uma conexão genuína com as equipes.”
“Sempre digo que nosso desafio engloba três segmentos complexos: indústria, varejo e moda”, acrescenta.
Essa origem definiu o método. “Toda nova estratégia, expansão ou mudança operacional na Ricardo Almeida passa por um filtro duplo: o respeito absoluto ao DNA e à qualidade da marca, ancorado por análises de custos, riscos e retornos”, afirma o CEO.
O filtro também organiza a relação com o fundador. Machado diz que a governança corporativa e a inteligência financeira garantem estrutura e sustentabilidade ao negócio, enquanto a direção autoral segue sob acompanhamento de Ricardo Almeida, hoje afastado da gestão executiva diária.
“É natural e estratégico que o fundador não esteja diretamente na gestão executiva diária, mas continue acompanhando de perto a alma da empresa”, diz Machado. “A eficiência financeira não serve para limitar a criação.”
O que as missões à NRF mudaram na operação
A Ricardo Almeida integrou as delegações da Central do Varejo à NRF, em Nova York, em 2025 e 2026. Machado é direto sobre o que ficou da experiência: “Eu não diria que trouxemos tendências, mas sim referências concretas de práticas já consolidadas e amplamente adotadas por grandes organizações ao redor do mundo.”
Da NRF saíram mudanças que se veem no balanço da operação. A empresa migrou a plataforma de e-commerce para o Shopify e passou a usar tecnologia RFID no controle de estoque, diz o executivo. A marca também obteve a certificação Great Place to Work para 2026 e formalizou parceria com a consultoria de tendências WGSN.
Internamente, a companhia criou uma área de Governança de Dados, responsável por um datalake em BigQuery que consolida as informações das diretorias. A empresa também ampliou o uso da inteligência artificial generativa Gemini, do Google, como ferramenta de apoio à produtividade, segundo Machado.
O avanço digital, porém, é tratado como inacabado. “Nossa jornada omnichannel é um trabalho em contínua construção”, diz o CEO. Segundo ele, o desafio é reproduzir online o mesmo nível de personalização que o cliente encontra nas lojas físicas, sem atalhos que comprometam o padrão da marca.
Dados, retail media e um público de 19 a mais de 80 anos
A empresa mantém uma área de CRM e inteligência de dados que analisa comportamento de consumo, estoque, performance comercial e recorrência de clientes, segundo o CEO.
Sobre retail media, tema recorrente nos painéis da NRF, Machado marca posição: “No mercado de luxo, o objetivo não é ampliar a exposição publicitária de forma indiscriminada, mas criar conexões autênticas entre marcas que compartilham valores, posicionamento e público semelhantes.” Para ele, o modelo funciona no varejo de luxo como ferramenta de curadoria, e não de alcance.
Quem é esse público, afinal? Segundo Machado, é mais amplo do que o estereótipo do homem de terno. “A nossa carteira ativa transita entre os 19 e mais de 80 anos de idade”, diz.
Ele emenda uma correção de vocabulário do setor. “O mercado fala muito em terno, mas a peça de três partes é menos comum. O brasileiro usa mais o costume”, diz, sobre a combinação de calça e paletó sem colete.
Para ele, esse nível de precisão técnica é o mesmo que a marca quer levar para o hotel e para o clube de bem-estar.

Ele cita a linha RA2, lançada como laboratório de inovação da marca, como ponte entre o público tradicional e o consumidor mais jovem. A linha é conduzida por Arthur e Ricardinho Almeida, filhos do fundador.
Em abril de 2026, a marca concluiu a atualização de identidade visual iniciada com a abertura do Studio na Cidade Matarazzo, em 2023, e da primeira loja conceito, no Shopping Pátio Higienópolis, em 2025. “Neste ano, com a virada oficial concluída, encerramos de vez a fase de transição”, diz Machado.
Nem tudo, porém, aponta para aceleração. O mercado global de luxo superou 1,5 trilhão de euros em 2023, mas o ritmo de crescimento deve desacelerar, segundo relatório da Bain & Company em parceria com a Altagamma.
Para Gabriele Zucarelli, sócio da Bain e líder da prática de varejo na América do Sul, marcas do setor precisam priorizar confiança e conexão com o cliente para manter relevância, e não apenas diversificar negócios.
Perguntado sobre os próximos cinco anos, Machado resume a aposta: “Queremos ser a referência que continua a ditar os rumos do luxo nacional, expandindo a nossa presença na jornada do cliente, mas mantendo a nossa essência.”
Segundo ele, isso significa aplicar à hotelaria e ao wellness a mesma exigência que a marca já tem com a alfaiataria.
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