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Gestão de Estoque no Varejo: o que é, como fazer e por que R$ 36,5 bilhões em perdas dependem disso

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inventário; gestão de estoque

A gestão de estoque é o conjunto de processos, metodologias e ferramentas utilizados por uma empresa para controlar a entrada, o armazenamento e a saída de produtos, de forma a garantir disponibilidade para o cliente sem imobilizar capital desnecessário. Em termos práticos, é o que define se o produto certo vai estar na gôndola, no momento certo, na quantidade certa.

Para o varejo, esse controle vai muito além da organização do depósito. Ele afeta diretamente o faturamento, a experiência do consumidor, o relacionamento com fornecedores e a saúde financeira do negócio. Quando falha, o custo é alto: de acordo com a Pesquisa Abrappe de Perdas no Varejo Brasileiro 2025, realizada com apoio da KPMG, as perdas totais do setor somaram R$ 36,5 bilhões em 2024, o equivalente a 1,51% das vendas totais.

Por que a gestão de estoque define o resultado do varejo

Há dois tipos de problema que uma gestão de estoque ineficiente pode gerar: a falta de produto, chamada de ruptura, e o excesso de mercadoria, que imobiliza capital e gera desperdício.

A ruptura é o cenário mais visível. Segundo levantamento da AGP Pesquisas, divulgado em dezembro de 2025 com base em dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), a ruptura de estoque responde por 42% das perdas de vendas no varejo brasileiro. O Brasil apresenta índices persistentemente elevados: entre 10% e 12% nas lojas físicas, conforme dados da Neogrid compilados entre 2020 e 2024, e 36% no e-commerce, segundo o Lett E-Commerce Report de 2024.

Do lado do consumidor, o impacto também é direto. Pesquisa da GS1 Brasil, publicada em 2025, aponta que 58% dos consumidores deixam de comprar e de frequentar o estabelecimento quando não encontram os produtos de sua preferência. No varejo supermercadista, a cada 100 produtos procurados, 19 não são encontrados, segundo dados da Associação dos Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj). O setor pode perder entre 3% e 5% do faturamento somente por conta da ruptura, índice que, em algumas categorias, supera a própria margem operacional.

O excesso de estoque tem outro tipo de custo: capital parado, risco de vencimento ou obsolescência, ocupação de espaço e aumento das despesas logísticas. Ambos os cenários têm a mesma raiz, a ausência de uma gestão de estoque estruturada.


O que compõe uma gestão de estoque eficiente

A gestão de estoque envolve quatro pilares principais:

Controle de entradas e saídas: Registro preciso de toda movimentação, desde o recebimento da mercadoria até a venda ou baixa. Sem esse controle, qualquer análise posterior é imprecisa.

Acurácia do inventário: É a medida de conformidade entre o estoque físico e o registrado nos sistemas. A Pesquisa Abrappe 2025 indica que o segmento de informática e telefonia alcançou 99% de acurácia, enquanto o de materiais de construção apresentou queda de 15,99% no indicador. A acurácia elevada melhora o planejamento de compras, reduz desperdícios e diminui custos logísticos.

Previsão de demanda: A projeção de quanto cada produto será consumido em determinado período. É o que orienta as decisões de compra e o dimensionamento do estoque de segurança.

Reposição e armazenagem: A organização física do estoque e os processos de reposição em loja. A Pesquisa Abrappe chama atenção para a “ruptura operacional”, quando o item está no estoque, mas não está na gôndola. É uma falha de processo, não de disponibilidade.

Principais métodos de gestão de estoque

Diferentes abordagens podem ser adotadas dependendo do tipo de negócio, do volume de produtos e do nível de tecnologia disponível. Os principais são:

PEPS: Primeiro a Entrar, Primeiro a Sair

O método PEPS, também conhecido internacionalmente como FIFO (First In, First Out), determina que os primeiros produtos a entrar no estoque sejam os primeiros a sair. É o modelo mais recomendado para produtos perecíveis ou com prazo de validade, como alimentos, medicamentos e cosméticos. A lógica preserva a qualidade do estoque, evita vencimentos e facilita auditorias.

Na prática, exige padronização física do depósito, endereçamento e disciplina operacional. Sem esses elementos, a aplicação do PEPS perde eficácia.

Custo Médio Ponderado

O custo médio ponderado, também chamado de MPM (Média Ponderada Móvel), é o método contábil mais utilizado no Brasil. A cada entrada de mercadoria, o sistema recalcula automaticamente o custo médio entre as quantidades existentes e o novo lote. O resultado é um custo de estoque mais estável, que suaviza variações de preço ao longo do tempo. É adequado para operações com volume elevado e com fornecedores que apresentam oscilações frequentes nos preços.

Curva ABC

A Curva ABC classifica os itens do estoque em três categorias com base em sua representatividade financeira, usando o princípio de Pareto. Os itens do grupo A representam cerca de 20% das SKUs, mas concentram aproximadamente 80% do valor total do estoque. Os itens B têm importância intermediária. Os itens C são numerosos, mas de baixo impacto financeiro.

Essa classificação orienta onde concentrar atenção, verba e controle. Produtos A demandam monitoramento contínuo, estoque de segurança ajustado e relacionamento próximo com fornecedores. Produtos C podem ser gerenciados com menor frequência.

Just in Time (JIT)

O Just in Time é uma estratégia de reposição baseada na demanda real, com o objetivo de manter o estoque no nível mínimo necessário. Elimina a necessidade de grandes espaços de armazenagem e reduz o capital imobilizado. O método exige alta previsibilidade de demanda, fornecedores confiáveis e logística eficiente. É comum em indústrias e em varejistas de grande porte com operações integradas à cadeia de fornecimento.

gestão de estoque


Como a tecnologia transforma a gestão de estoque no varejo

A adoção de sistemas de gestão (ERP), leitores de código de barras, etiquetas RFID e ferramentas de inteligência artificial está mudando a forma como o varejo controla seus estoques. Para 2025, o uso de inteligência artificial para gestão de estoques e personalização de ofertas foi apontado como essencial pelo estudo “7 Tendências para o Varejo Brasileiro em 2025”, publicado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL).

A Pesquisa Abrappe 2025 reforça esse caminho: ferramentas de data analytics, algoritmos de inteligência de dados e câmeras com IA auxiliam no monitoramento e na identificação de inconsistências. Empresas com processos contínuos de reposição e monitoramento de SKUs alcançam maior precisão e reduzem rupturas.

Um dado que revela a maturidade ainda baixa do setor: 30% das empresas ainda não realizam revisão cadastral de produtos, segundo a mesma pesquisa. Isso impacta diretamente a acurácia do estoque e o planejamento de compras.

Gestão de estoque no omnichannel: o desafio da visibilidade unificada

Com a expansão do comércio unificado, a gestão de estoque ganhou uma camada adicional de complexidade. Em operações omnichannel, o mesmo produto pode estar disponível na loja física, no centro de distribuição e no site, e precisa ser gerenciado de forma integrada para evitar conflitos entre canais.

A ruptura no e-commerce brasileiro, de 36% conforme o Lett E-Commerce Report de 2024, é resultado direto dessa desintegração: o varejista vende no digital sem visibilidade real sobre o que está disponível no estoque. O cliente faz o pedido, e o produto não está disponível para entrega.

A solução passa pela implementação de um OMS (Order Management System), sistema de gerenciamento de pedidos que centraliza a visão do estoque em todos os canais e define de qual ponto o produto será despachado.

Como estruturar uma gestão de estoque no varejo

O processo pode ser organizado em etapas:

  1. Inventário inicial: contagem física de todos os itens, com registro de quantidade, custo e data de aquisição. É o ponto de partida para qualquer sistema de controle.
  2. Classificação dos produtos: aplicação da Curva ABC para identificar quais SKUs merecem atenção prioritária.
  3. Definição do estoque mínimo e máximo: com base no histórico de vendas e no lead time dos fornecedores, é possível calcular o ponto de pedido, ou seja, o momento em que um novo pedido deve ser feito para evitar a ruptura.
  4. Escolha do método de controle: PEPS para perecíveis; custo médio para a maioria das operações; JIT onde a demanda for previsível.
  5. Adoção de sistema: ERP, software de gestão ou, no mínimo, planilhas com controle rigoroso de entradas e saídas.
  6. Inventários periódicos: a realização de inventários cíclicos, com frequência definida por categoria, é o que sustenta a acurácia ao longo do tempo.
  7. Análise de indicadores: giro de estoque, cobertura de estoque, taxa de ruptura e acurácia de inventário são os KPIs fundamentais para monitorar a eficiência da operação.

Indicadores essenciais de gestão de estoque

Medir o desempenho do estoque exige acompanhar os indicadores certos:

Giro de estoque: quantidade de vezes que o estoque foi renovado em determinado período. Um giro alto indica eficiência; um giro baixo, acúmulo ou baixa demanda.

Cobertura de estoque: quantos dias o estoque atual consegue abastecer a operação sem reposição. Auxilia no planejamento de compras.

Taxa de ruptura: percentual de situações em que o produto procurado não estava disponível. A referência internacional para lojas físicas bem gerenciadas é abaixo de 2%.

Acurácia do inventário: comparação entre o estoque físico e o registrado no sistema, expressa em percentual. O objetivo é 100%; operações maduras giram acima de 98%.

Estoque obsoleto: percentual de produtos sem movimentação em determinado período. Indica necessidade de ação comercial ou revisão de mix.

O custo de não fazer gestão de estoque

Para o varejo de pequeno e médio porte, a ausência de uma gestão de estoque estruturada costuma se manifestar em três formas: falta de produto para o cliente, compras excessivas que comprometem o caixa e incapacidade de planejar campanhas e sazonalidades.

Segundo a Pesquisa Abrappe 2025, cerca de 70% das perdas no varejo brasileiro estão associadas a quebras operacionais, furtos internos e externos e erros de inventário. Todos esses fatores têm relação direta com o controle de estoque. Em lojas de vizinhança do setor supermercadista, a perda pode chegar a 3,30%, enquanto a margem média do segmento oscila entre 2% e 2,5%, ou seja, as perdas superam o lucro.

Empresas que investem em controle, tecnologia e gestão baseada em dados conseguem reduzir esses impactos e operar de forma mais sustentável, conforme conclusão da própria Pesquisa Abrappe de Perdas no Varejo Brasileiro 2025.

FAQ

O que é gestão de estoque? Gestão de estoque é o conjunto de processos, metodologias e ferramentas utilizados por uma empresa para controlar a entrada, o armazenamento e a saída de produtos, garantindo que o item certo esteja disponível no momento e na quantidade adequados, sem imobilizar capital desnecessário.

Qual é o melhor método de gestão de estoque para o varejo? Não existe um método universalmente melhor. O PEPS é recomendado para produtos com prazo de validade. O custo médio ponderado é o mais utilizado no varejo em geral. A Curva ABC complementa qualquer método ao classificar os produtos por relevância financeira. A escolha depende do tipo de produto, do volume de operação e do nível de tecnologia disponível.

O que é ruptura de estoque e qual o seu impacto? Ruptura de estoque é a situação em que o consumidor procura um produto e não o encontra disponível para compra. No Brasil, os índices são persistentemente elevados: entre 10% e 12% nas lojas físicas e 36% no e-commerce, segundo dados da Neogrid e do Lett E-Commerce Report de 2024. A ruptura é responsável por 42% das perdas de vendas no varejo, conforme a Associação Brasileira de Supermercados (Abras, 2024), e faz com que 58% dos consumidores deixem de frequentar o estabelecimento (GS1 Brasil, 2025).

O que é acurácia de estoque? Acurácia de estoque é o indicador que mede a conformidade entre o estoque físico e o registrado nos sistemas da empresa. É expressa em percentual: uma acurácia de 98% significa que 98% dos itens registrados correspondem ao que existe fisicamente. Operações com alta acurácia têm melhor planejamento de compras, menos rupturas e menor incidência de perdas.

Como a inteligência artificial pode melhorar a gestão de estoque? Ferramentas de inteligência artificial aplicadas à gestão de estoque conseguem analisar históricos de venda, sazonalidades e comportamento de demanda para automatizar a previsão de reposição, identificar anomalias no inventário e reduzir tanto rupturas quanto excessos. A Pesquisa Abrappe 2025 e o estudo da CNDL sobre tendências do varejo para 2025 apontam a IA como uma das principais ferramentas para a eficiência operacional do setor.

Qual é a diferença entre ruptura comercial e ruptura operacional? A ruptura comercial ocorre quando o produto não foi comprado ou chegou ao fim do estoque. A ruptura operacional ocorre quando o produto está no estoque do depósito, mas não chegou à gôndola por falha de processo. Segundo a Pesquisa Abrappe de Perdas no Varejo Brasileiro 2024, a média de ruptura comercial era de 7,65% e a operacional de 6,11%, ambas em alta em relação ao levantamento de 2022.

Qual é o custo das perdas no varejo brasileiro? De acordo com a Pesquisa Abrappe de Perdas no Varejo Brasileiro 2025, realizada com apoio da KPMG, as perdas totais do varejo brasileiro somaram R$ 36,5 bilhões em 2024, equivalente a 1,51% do total de vendas do setor.

Infográfico gerado com auxílio de inteligência artificial
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