Colunistas

Split Payment: o que muda para varejo e franquias

Publicado

on

Declaração de conteúdo; shopping centers; Carta de Correção Eletrônica; locação; PMEs; imóvel; reforma tributária; CNPJ; split payment

A Reforma Tributária costuma ser associada à simplificação do sistema de impostos, mas uma de suas mudanças mais relevantes está menos na criação da CBS e do IBS e mais na forma como esses tributos serão pagos. O split payment promete alterar a dinâmica financeira das empresas ao separar automaticamente o valor dos impostos no momento da liquidação da venda. Para varejistas e redes de franquias, isso representa uma mudança estrutural que exige preparação desde já.

Na prática, o mecanismo funciona de maneira relativamente simples: quando uma venda é realizada por meios eletrônicos, como cartão ou Pix, o valor correspondente aos tributos deixa de passar pelo caixa da empresa e é direcionado automaticamente ao Fisco. O restante é creditado ao estabelecimento. A lógica busca reduzir a inadimplência, combater fraudes e dar mais segurança ao aproveitamento de créditos tributários, pilares centrais do novo modelo de tributação sobre o consumo.

Embora a implementação seja gradual durante a transição da Reforma Tributária, o mercado já começou a se movimentar. O Comitê Gestor do IBS vem definindo especificações técnicas para a operação do sistema, enquanto empresas de tecnologia, instituições financeiras e ERPs adaptam suas plataformas para atender às novas exigências. Esperar a obrigatoriedade para iniciar essa adaptação pode significar perder competitividade e enfrentar uma corrida contra o tempo.

Impacto para o varejo na gestão do fluxo de caixa

Hoje, muitas empresas administram o capital de giro considerando que o valor dos tributos permanece temporariamente em caixa até o recolhimento. Com o split payment, esse recurso deixa de existir. A consequência é uma necessidade maior de previsibilidade financeira, planejamento de liquidez e acompanhamento diário das entradas e saídas de recursos. Empresas que operam com margens reduzidas ou ciclos longos de reposição de estoque sentirão esse efeito de forma ainda mais intensa.

Nas franquias, o desafio ganha outra camada de complexidade. Além da operação das lojas, será preciso revisar a forma como circulam recursos entre franqueados e franqueadores, especialmente em contratos que envolvem royalties, taxas de publicidade, fornecedores homologados e repasses financeiros. Quanto mais integrada for a rede, maior será a importância de sistemas capazes de oferecer visibilidade em tempo real sobre o comportamento financeiro de cada unidade.

Esse cenário também amplia o papel da tecnologia na gestão financeira. Não basta que o ERP esteja atualizado para emitir documentos fiscais compatíveis com a nova legislação. Será necessário integrar informações fiscais, financeiras e operacionais para garantir conciliações automáticas, previsões de caixa mais precisas e tomada de decisão baseada em dados. A reforma tributária, nesse sentido, acelera um movimento que muitas empresas já deveriam estar fazendo: transformar a área financeira em um centro estratégico do negócio.

Outro ponto que merece atenção é a cultura de gestão

Durante muitos anos, a preocupação tributária esteve concentrada nas áreas fiscal e contábil. Com o split payment, o tema passa definitivamente a fazer parte da rotina financeira e operacional. Diretores, gestores de franquias e empresários precisarão compreender como a nova lógica afeta precificação, capital de giro, investimentos e expansão da operação. A adaptação deixará de ser apenas uma obrigação legal para se tornar uma questão de eficiência empresarial.

A boa notícia é que a transição oferece tempo para planejamento. As empresas que aproveitarem esse período para revisar processos, investir em tecnologia, fortalecer controles financeiros e simular os impactos em seu fluxo de caixa chegarão mais preparadas quando o novo modelo estiver plenamente implementado. Em uma reforma dessa magnitude, a vantagem competitiva estará em transformar a adaptação em uma oportunidade para construir uma operação mais eficiente, previsível e sustentável no longo prazo.

Leia também: Reforma Tributária: por onde as empresas devem começar?


*Maurício Galhardo é sócio da F360, maior plataforma SaaS de gestão financeira voltada para varejistas e franquias no Brasil. Apaixonado por finanças, é autor de três livros de negócios e gestão financeira, tem ampla experiência em treinamentos e palestras e já treinou mais de 50 mil pessoas no varejo.

Imagem: Freepik

Continue Reading
Comente aqui

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *