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Cuidar das pessoas também é uma estratégia de negócios
Há alguns anos, falar sobre bem-estar nas empresas significava discutir benefícios. Hoje, o tema ocupa outro lugar. Organizações que desejam crescer de forma consistente devem entender que cuidar das pessoas não é apenas uma iniciativa de RH, mas um componente da estratégia do negócio.
A entrada em vigor da NR-1, com a ampliação do olhar para os riscos psicossociais no ambiente de trabalho, apenas reforça uma transformação que já estava em curso: a saúde emocional dos colaboradores deixou de ser um assunto individual para se tornar uma responsabilidade compartilhada entre trabalhador, empresa e liderança.
O desafio, porém, vai muito além de cumprir uma norma. É relativamente simples criar protocolos, aplicar pesquisas e até elaborar planos de ação. O mais difícil é construir uma cultura em que o cuidado seja percebido diariamente pelas pessoas. Porque cultura não nasce de um documento. Ela se manifesta nas pequenas decisões, nos comportamentos da liderança e na coerência entre aquilo que a empresa comunica e aquilo que efetivamente entrega.
No meu entendimento, quando falamos em cuidar das pessoas, não estamos falando apenas de oferecer benefícios. Estamos falando de criar um ambiente em que o colaborador encontre condições reais para desempenhar seu trabalho com equilíbrio. Isso envolve uma boa infraestrutura, ferramentas adequadas, metas alcançáveis, clareza sobre prioridades, espaço para diálogo, reconhecimento, desenvolvimento profissional e incentivo ao autocuidado. São elementos que, isoladamente, parecem pequenos, mas que, juntos, moldam a experiência de quem trabalha na organização.
E uma das lições que aprendemos ao longo dos anos é que as pessoas só utilizam os recursos disponibilizados quando percebem que existe autorização cultural para isso. Isso significa que não adianta oferecer programas de saúde mental se o líder transmite, ainda que de forma indireta, a mensagem de que parar quinze minutos para respirar, meditar ou fazer uma pausa demonstra falta de comprometimento. O exemplo da liderança continua sendo uma das ferramentas mais poderosas para transformar comportamentos.
Outro ponto que aprendemos é que pesquisas de clima e de identificação de riscos psicossociais são importantes, sim, mas precisam ser aprofundadas para compreender o que realmente está por trás dos indicadores. Um número, sozinho, diz pouco. É preciso entender as causas: excesso de demanda, conflitos de liderança, falta de clareza nas funções ou problemas de comunicação. Conseguimos extrair isso dos nossos colaboradores por meio de entrevistas individuais qualitativas, feitas sob total sigilo, para que os funcionários se sintam à vontade de expôr o que precisa ser ajustado. Só assim o plano de ação consegue produzir mudanças concretas.
Na nossa jornada da Cultura do Cuidar também aprendemos que cuidar da saúde mental é muito mais eficiente quando acontece de forma preventiva. Em vez de agir apenas quando surgem casos de burnout, afastamentos ou sofrimento emocional, empresas podem estimular hábitos que fortalecem o equilíbrio ao longo do tempo. Atividade física, apoio psicológico, meditação, massagens, pausas conscientes e momentos de convivência devem ser vistos como instrumentos que ajudam as pessoas a administrar a pressão natural do trabalho contemporâneo.
No Buddha Spa, procuramos construir essa lógica dentro da própria empresa antes de levá-la para o mercado. A partir das pesquisas internas, estruturamos uma política ampla de benefícios e iniciativas voltadas ao bem-estar, com programas de saúde física e emocional, espaços de convivência, encontros periódicos entre colaboradores e liderança, momentos de celebração, incentivo à meditação e mecanismos para equilibrar a carga de trabalho. Mais recentemente, transformamos essa experiência em uma metodologia que passou a ser compartilhada com toda a nossa rede de franquias por meio da Cultura do Cuidar, formando líderes do bem-estar que atuam nas unidades e oferecendo ferramentas para que cada spa possa desenvolver seus próprios planos de ação.
Esse movimento também passou a fazer parte das soluções que levamos às empresas. Mais do que oferecer vouchers ou massagens isoladas, buscamos contribuir para uma visão integrada de bem-estar corporativo, com experiências que combinam terapias, pausas conscientes, aromaterapia e outras práticas voltadas ao equilíbrio físico e emocional dos colaboradores.
Acredito que a principal mudança provocada pela NR-1 é cultural — e não jurídica ou de compliance. Ela convida as empresas a revisarem uma pergunta essencial: queremos apenas cumprir uma obrigação ou construir um ambiente onde as pessoas realmente desejem trabalhar? As organizações que fizerem essa escolha de maneira genuína provavelmente descobrirão que cuidar das pessoas é uma das formas mais inteligentes de fortalecer a cultura, aumentar o engajamento e garantir a sustentabilidade do negócio no longo prazo.
Leia também: Bem-estar no topo do mundo: por que o setor vive seu momento mais estratégico

*Gustavo Albanesi é CEO do Buddha Spa.
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