Comportamento
Estudo identifica três forças que já redesenham o consumo brasileiro
Estudo apresentado no (IN) Motion 2026 aponta avanço da premiumização, da saudabilidade e de compras menores e mais frequentes
Um estudo realizado pela Scanntech em parceria com Google e McKinsey identificou três mudanças que já alcançaram o que a companhia chama de “massa crítica” nas tendências de consumo brasileiro. A análise foi apresentada durante o (IN) Motion 2026, evento da Scanntech voltado a representantes do varejo, da indústria e dos distribuidores de bens de consumo.
O levantamento cruza dados de pontos de venda, jornadas de compra analisadas com inteligência artificial e pesquisas sobre comportamento do consumidor.
Entre os movimentos identificados estão a premiumização associada à renda, a busca por saúde e experiências como parte das relações sociais e a mudança no formato das compras, com menor volume por visita e maior frequência.
Quais tendências de consumo já ganharam escala?
A primeira mudança está relacionada ao chamado “efeito K”. Segundo o estudo, famílias de renda mais alta passaram a ter maior renda livre disponível, enquanto as de menor renda enfrentam maior pressão do endividamento.
Esse cenário influencia a escolha de produtos. Dados da Scanntech indicam que 58% das categorias monitoradas apresentam saldo positivo no crescimento das marcas premium.
No caso do amaciante concentrado, por exemplo, a participação aumentou 3,9 pontos percentuais em relação ao produto diluído.
A inflação supermercadista acumulada em 12 meses até junho chegou a 2,96%, enquanto o aumento médio de preços foi de 3,69%. A diferença é atribuída ao chamado efeito mix, com alterações nas escolhas dos consumidores.
“Quem entende essa divisão consegue calibrar portfólio, preço e comunicação para cada realidade de consumo, em vez de tratar o mercado como um bloco único”, afirma Priscila Ariani, CMO da Scanntech.
A diferença também aparece na análise por bairros de São Paulo. No Itaim Bibi, onde a renda média indicada no estudo é de R$ 16 mil, as marcas premium representam 48% do volume vendido.
No bairro de Iguatemi, na zona leste, com renda média de R$ 2 mil, produtos econômicos dominam 13% do volume, com redução de consumo em categorias como refrigerantes, arroz e biscoitos.
Como as tendências de consumo afetam a saudabilidade?
A segunda transformação está ligada à saúde e às novas formas de interação social. Pesquisa do Google com 2 mil pessoas mostra que 37% dos brasileiros já consideram o cuidado emocional parte do autocuidado.
Além disso, 88% afirmam buscar tempo de qualidade. Para o estudo, essa procura também cria ocasiões de encontro e, consequentemente, novas situações de consumo.
O levantamento identifica ainda um intervalo entre intenção e prática. Embora 94% dos brasileiros considerem a saúde uma prioridade, 51% afirmam alcançar suas metas nessa área.
Os medicamentos à base de GLP-1 aparecem nesse contexto. Segundo os dados apresentados, o mercado formal desses produtos alcançou R$ 16 bilhões em termos anualizados e cresceu 244% no primeiro semestre de 2026, ante o mesmo período de 2025.
O estudo aponta que 14% da população usa ou já usou GLP-1. Entre quem não utiliza, 37% afirmam que poderiam aderir caso o preço fosse menor.
A mudança de tendências de consumo também aparece nos alimentos. Entre usuários de GLP-1, o consumo total de alimentos recua 0,49%, enquanto bebidas caem 0,91% e perecíveis, 0,66%.
“Saudabilidade deixou de ser nicho e virou motor de consumo em várias frentes ao mesmo tempo, do prato ao encontro social, passando até por medicamentos como o GLP-1. Para a indústria e o varejo, a saída não é resistir a esse movimento, mas entender exatamente onde ele está reconfigurando a demanda”, complementa a diretora.
O que muda no carrinho?
A terceira mudança nas tendências de consumo envolve transformações demográficas e no modo de comprar. O estudo aponta uma sociedade brasileira mais urbana e envelhecida, com famílias menores, menos filhos e mais animais de estimação.
Segundo a Scanntech, a urbanização está associada a uma redução de 1,9% no consumo de arroz e feijão, enquanto alimentos frescos e proteína animal avançam 5,5%.
A queda no número de filhos também afeta categorias específicas. O consumo de produtos infantis recua 11,7%, enquanto alimentos para animais de estimação crescem 2,3%.
Ao mesmo tempo, produtos indulgentes apresentam queda de 4,7%, enquanto itens proteicos avançam 22%.
O formato das compras também muda. Nos 16 bilhões de tickets monitorados pela Scanntech, as compras de abastecimento perderam 1,58 ponto percentual de participação.
Ganham espaço as compras de reposição, expressas e aquelas destinadas a refeições específicas. Com lares menores, o volume adquirido em cada visita diminui, aumentando a importância da frequência.
Entre os 60 milhões de shoppers analisados, consumidores recorrentes gastam, em média, R$ 483 por mês. O valor é superior aos R$ 229 gastos mensalmente, em média, por novos shoppers.
A tecnologia também entra nesse processo. Para a Geração Z, redes sociais aparecem como canal de decisão de compra em 34% dos casos.
O estudo do Google indica ainda que 46% dos brasileiros pretendem usar inteligência artificial em suas compras no futuro. A IA já é utilizada para pesquisar produtos principalmente em eletrônicos, viagens e beleza.
A partir desses dados, a Scanntech considera que as três mudanças — premiumização, busca por saúde e experiências e maior frequência de compras — deixaram de ser movimentos isolados.
Para empresas de varejo e indústria, o estudo aponta a necessidade de adaptar sortimento, preços, comunicação e canais a diferentes perfis de consumidores, considerando também o avanço da inteligência artificial e das redes sociais na jornada de compra.
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Imagem: Magnific
