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World Retail Congress: China exporta um novo manual do varejo global — e Europa vira campo de batalha estratégico
World Retail Congress: China faz um manual global para o varejo e a pergunta que fica para o varejista é direta: você está preparado para competir com isso?
No World Retail Congress, em Berlim, um dos painéis mais provocativos do evento colocou sob os holofotes a nova ofensiva global do comércio chinês. Com o título China’s New Global Commerce Playbook: Temu, Shein & TikTok’s Strategies to Redefining Retail Amid Political and Consumer Shifts”, a sessão reuniu Jordan Berke e Xavier Xu para analisar como plataformas chinesas estão se reinventando diante de barreiras políticas, mudanças regulatórias e novas exigências do consumidor.
A principal mensagem foi clara: a era do “enviar barato da China para o mundo” está mudando rapidamente. O novo jogo envolve estoque local, logística regional, marcas parceiras e experiência superior.
Temu reage rápido e muda modelo
Segundo Xavier Xu, a Temu sofreu impacto relevante após o fim de benefícios tributários nos Estados Unidos e mudanças ligadas ao regime de minimis, que encareceram produtos de baixo valor enviados diretamente da China.
A resposta, porém, foi veloz. A empresa acelerou a transição do modelo puramente cross-border para abastecimento local. Em menos de um ano, a participação de produtos entregues a partir de estoque doméstico subiu de menos de 40% para cerca de 75% do negócio. 
A leitura do painel: Temu percebeu que, para continuar crescendo, preço baixo sozinho não basta. É preciso velocidade, previsibilidade e confiança.
Shein enfrenta desafio maior
No caso da Shein, os executivos apontaram maior complexidade. O modelo da companhia depende de moda ultrarrápida, pequenos lotes e renovação constante de catálogo — o que dificulta manter grandes volumes de estoque local.
Resultado: pressão operacional e perda de eficiência em mercados mais rígidos. Ainda assim, a marca segue relevante, especialmente entre consumidores sensíveis a preço. 
World Retail Congress: Europa vira prioridade máxima
Se os EUA endureceram regras, a Europa se tornou o principal território de expansão. Segundo os palestrantes, tanto Temu quanto Shein passaram a direcionar recursos, vendedores e parceiros para o continente.
A estratégia inclui:
- recrutamento de marcas locais
- designers europeus;
- sellers regionais;
- centros logísticos no continente.
- produtos de maior ticket médio e melhor percepção de qualidade
Berke resumiu que hoje entre 70% e 80% do que chega aos consumidores europeus dessas plataformas já é abastecido localmente. 
Ou seja: o consumidor europeu começa a receber uma experiência muito diferente daquela imagem inicial de marketplace lento e distante.
JD.com aposta no premium e no same-day delivery
Outro nome citado como peça-chave dessa nova fase foi a JD.com. Diferentemente de Temu e Shein, JD entra na Europa com posicionamento mais premium, foco em eletrônicos, serviço e controle total da operação.
Xu destacou que a empresa foi pioneira na China em entregas no mesmo dia e quer repetir esse padrão fora do país. No Reino Unido, por exemplo, o modelo já começa a ganhar tração. 
A leitura estratégica é forte: enquanto alguns competem em preço, JD quer vencer em confiança e excelência operacional.
TikTok Shop: o varejo movido por conteúdo
Talvez a fala mais disruptiva tenha vindo sobre TikTok. Para Xavier Xu, o TikTok Shop representa “o futuro do e-commerce”, porque vende não apenas produto, mas desejo, descoberta e entretenimento.
A Deli Group revelou números expressivos: saiu do zero para US$ 70 milhões em GMV nos EUA em menos de nove meses. O motor? Conteúdo em escala industrial.
Entre os bastidores revelados:
- fábrica de conteúdo com dezenas de modelos produzindo vídeos curtos;
- uso crescente de IA para vídeos promocionais;
- foco em poucos SKUs vencedores;
- narrativa baseada em dor do consumidor e demonstração rápida.
A frase implícita do painel foi poderosa: no novo varejo, quem domina conteúdo domina tráfego.
O recado para varejistas globais no World Retail Congress
O painel encerrou com um alerta importante: competir com plataformas chinesas exige muito mais do que baixar preços.
Exige:
- ecossistema logístico eficiente;
- uso inteligente das lojas físicas;
- marketplace forte;
- velocidade de execução;
- conteúdo constante;
- experiência superior ao cliente.
Walmart foi citado como um case de reação bem-sucedida, especialmente pela integração entre lojas, retirada, devoluções e marketplace.
O que Berlim mostrou ao mundo no World Retail Congress
No World Retail Congress, ficou evidente que a próxima disputa global do varejo não será apenas entre físico e digital.
Será entre modelos de negócio.
China exporta agora quatro armas competitivas: preço, velocidade, conteúdo e ecossistema. A pergunta que ficou ao final é: a competição está alta e você está pronto para isso?
Imagem: Danielle Mallmann / Divulgação

