Colunistas
Uma guerra no meio do caminho
Foram seis meses de planejamento intenso para uma missão que levaria mais de 20 empresários brasileiros ao encontro da cultura, da tradição, da inovação e da tecnologia do Japão. Um roteiro desenhado com cuidado, conexões estratégicas e uma parada em Dubai — não apenas para otimizar a logística, mas para mergulhar também no ambiente vibrante de negócios dos Emirados Árabes. Na coluna passada, compartilhei a expectativa dessa jornada. Hoje, escrevo sobre o imprevisto que transformou essa experiência antes mesmo de ela começar.
Na madrugada de sábado, embarcamos em São Paulo pela Emirates, rumo a Dubai. Tudo transcorria com a normalidade e a excelência que consagraram a companhia como uma das melhores do mundo. Sete horas de voo depois, o comandante interrompeu o silêncio protocolar da cabine: o espaço aéreo de Dubai estava fechado. A aeronave precisaria retornar ao Brasil até que novas informações fossem confirmadas.
Ainda faltavam seis horas para o pouso. A surpresa foi coletiva. No sistema de entretenimento, havia a opção de canais ao vivo. Sintonizei a CNN. Ali compreendemos a dimensão do que estava acontecendo: os Estados Unidos haviam atacado o Irã; o Irã retaliara, atingindo também os Emirados Árabes Unidos. A geopolítica, que muitas vezes parece distante dos nossos planejamentos corporativos, cruzava, literalmente, a nossa rota.
O retorno foi tranquilo. Pousamos novamente em São Paulo com segurança. Já em solo, assimilamos a gravidade dos acontecimentos e, com a serenidade possível, decidimos transferir a missão para o segundo semestre de 2026.
Mas o que ficou dessa experiência vai além da mudança de agenda. Em um mundo globalizado, onde encurtamos distâncias e ampliamos horizontes, também nos tornamos mais expostos às instabilidades que atravessam fronteiras. Jamais imaginei viver uma situação em que, por questão de horas — ou de combustível — poderíamos ter ficado retidos em outro continente. Se o aviso viesse uma hora depois, talvez não houvesse autonomia para retornar ao Brasil. Teríamos pousado na África ou na Europa. E a história, certamente, teria sido mais traumática.
Demorei alguns dias para que a ficha caísse. Quando estamos profundamente envolvidos em um projeto, é difícil perceber o que se move ao redor. Essa vivência me levou a uma reflexão que serve também para os negócios: nem todo caminho interrompido é fracasso. Às vezes, o que parece obstáculo é livramento. Nem sempre o desvio é perda; pode ser proteção.
Confiar um pouco mais — no tempo, nas circunstâncias e até no imprevisto — pode ser o alento necessário para seguir com mais lucidez e serenidade.
Boa semana.
Leia também: O futuro e o passado do Japão

(*) Elifas de Vargas é formado em Marketing, com especialização em Quality Service pela Disney Institute na Flórida-USA. É criador do método FastVideos, produção rápida e versátil de vídeos para web, utilizando apenas o smartphone. Responsável por fundar a primeira webtv privada do Rio Grande do Sul, em 2006, dentro da incubadora tecnológica da Univates, possui ampla experiência em comunicação e é Terapeuta Comportamental pela Escola de Executivos e Negócios Instituto Albuquerque, certificada pela Fundação Napoleon Hill. Empresário, Co-Founder da Agência de Marketing Kreativ desde 2010, com sede em Lajeado/RS e filiais em POA/RS e Rio de Janeiro/RJ, está sempre em busca de experiências que impactem os negócios de seus clientes. Assim, também é curador de diversos eventos, entre eles, o Rio Innovation Week (maior evento de inovação e tecnologia da América Latina) no Rio de Janeiro, e a NRF, em Nova York. Acompanhe o autor no LinkedIn.
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