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Tecnologia como meio, não como fim: o papel humano no centro da transformação do varejo
Se houve um ponto de convergência no painel, é o entendimento de que a inteligência artificial só faz sentido quando aplicada sobre uma base estruturada de dados.
No painel “Technology as a People-Enabler”, no World Retail Congress, dois protagonistas de universos complementares — Thierry Gadou, CEO da Vusion, e Christoph Werner, CEO da dm-drogerie markt — conduziram uma discussão que reposiciona um dos debates mais recorrentes do varejo global: afinal, qual é o verdadeiro papel da tecnologia?
A resposta, longe de ser técnica, foi essencialmente humana.
Tecnologia a serviço das pessoas
Logo na abertura, Gadou contextualizou o avanço da digitalização nas lojas físicas — de etiquetas eletrônicas a sensores e inteligência artificial — destacando o papel da Vusion como líder global em soluções IoT para o varejo. No entanto, foi Werner quem trouxe o contraponto central: tecnologia, por si só, não é estratégia.
Para o executivo da DM, a digitalização é apenas um meio para atingir um objetivo maior: melhorar a experiência tanto de quem compra quanto de quem trabalha nas lojas. “Somos uma organização de serviço. Nosso diferencial está nas pessoas e nas decisões que elas tomam”, reforçou.
Essa visão desmonta a narrativa de que a transformação digital é um fim em si mesma. Na prática, ela deve ampliar a capacidade dos colaboradores de agir com mais inteligência, autonomia e contexto.
O dilema do varejo moderno: escala vs. agilidade
Werner também trouxe à tona um dos maiores desafios do setor: o paradoxo entre eficiência operacional e adaptabilidade. À medida que grandes varejistas ganham escala, tornam-se mais processuais — e, consequentemente, mais lentos.
Em um cenário marcado por mudanças rápidas no comportamento do consumidor e eventos imprevisíveis (“black swans”), essa rigidez pode se tornar um risco competitivo. “O desafio é manter os benefícios da escala sem perder a capacidade de adaptação”, destacou .
A solução passa por um conceito cada vez mais presente nas discussões estratégicas: organizações antifrágeis — sistemas que não apenas resistem às mudanças, mas aprendem e evoluem com elas.
Omnichannel não é escolha, é contexto
Outro ponto relevante foi a quebra definitiva da dicotomia entre físico e digital. Para Werner, essa divisão é fruto de uma visão ultrapassada.
“O consumidor não pensa em canais. Ele escolhe o que faz sentido para o seu momento”, explicou .
Nesse cenário, o omnichannel deixa de ser uma estratégia e passa a ser uma condição básica de competitividade. As lojas físicas, longe de perder relevância, ganham um novo papel: tornam-se centros de experiência e proximidade, enquanto o digital amplia conveniência e frequência de contato.
O verdadeiro poder da IA e da tecnologia no varejo
Se há um ponto de convergência no painel, é o entendimento de que a inteligência artificial só faz sentido quando aplicada sobre uma base estruturada de dados — e isso exige um passo anterior: a criação do chamado “digital twin” das operações físicas.
Ao replicar digitalmente o funcionamento das lojas, varejistas conseguem usar IA para otimizar processos, melhorar decisões e aumentar eficiência operacional.
Mas, novamente, o foco não está na tecnologia em si. “A IA deve capacitar os colaboradores a tomarem melhores decisões — não substituí-los”, afirmou Werner .
Três pilares que não mudam na era da tecnologia
Apesar de toda a transformação tecnológica, o executivo da DM foi enfático ao destacar que alguns fundamentos do varejo permanecem inalterados:
- Relação preço-valor;
- Sortimento (escolha);
- Disponibilidade.
Uma conclusão clara: o futuro é humano
Esses três pilares continuam sendo determinantes — a diferença é que, agora, a tecnologia atua como aceleradora desses fatores.
Ao final, o painel deixou uma mensagem direta: o varejo do futuro não será definido pela tecnologia que utiliza, mas pela forma como utiliza a tecnologia para potencializar pessoas.
A dm-drogerie markt, com sua abordagem centrada no colaborador e no cliente, exemplifica um modelo em que inovação e cultura caminham juntas — e onde a transformação digital não substitui o humano, mas o amplifica.
Em um momento em que o mercado discute automação, IA generativa e eficiência extrema, o painel trouxe um lembrete essencial: no varejo, ainda são as pessoas que fazem a diferença.

