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World Retail Congress: o futuro do Grocery e a promessa ainda não cumprida da IA
No palco do World Retail Congress 2026, a diretora-geral da EuroCommerce, Christel Delberghe, apresentou um retrato direto e, ao mesmo tempo, provocativo sobre o futuro do varejo alimentar europeu. Baseado em um estudo conduzido em parceria com a McKinsey & Company, o relatório combina a visão de CEOs, dados de consumidores e análises de mercado para apontar os caminhos até 2030.
A conclusão central é clara: o setor de grocery vive uma tensão constante entre estabilidade aparente e fragilidade estrutural.
Consumidor: mais confiante, mas ainda vulnerável
Os dados indicam um leve otimismo no comportamento do consumidor europeu. Há sinais de estabilização e uma redução na busca extrema por economia, abrindo espaço para movimentos de “trading up” — consumidores dispostos a gastar mais em determinados produtos ou experiências. 
Ainda assim, a confiança permanece sensível a fatores externos, como inflação e instabilidade geopolítica. A nova geração, especialmente, passa a ditar tendências com maior foco em saúde e sustentabilidade, redefinindo o mix de produtos e posicionamento das marcas.
Outro vetor importante é a conveniência. Soluções como ready-to-eat e ready-to-heat ganham força, acompanhando uma mudança de comportamento em que o tempo se torna um ativo ainda mais valioso. O online segue crescendo, mas com dinâmicas distintas entre países e, principalmente, com menor fidelidade em comparação ao varejo físico tradicional.
World Retail Congress: Crescimento limitado e pressão estrutural
Se o consumidor mostra sinais mistos, o cenário econômico do setor é ainda mais desafiador. O crescimento do grocery na Europa gira em torno de apenas 0,3%, com projeções igualmente modestas até 2030. 
Ao mesmo tempo, os custos operacionais seguem em alta estrutural — uma realidade que persiste mesmo após anos de programas de eficiência. O resultado é um setor comprimido entre margens reduzidas e baixa expansão de volume.
Nesse contexto, a disputa por crescimento se desloca para novas frentes: retail media, marcas próprias, canais digitais e modelos de desconto. Em paralelo, formatos tradicionais como hipermercados enfrentam crescente pressão.
Private label: de alternativa a protagonista
Um dos pontos mais contundentes do relatório é a evolução das marcas próprias. O que antes era uma alternativa de preço se transforma agora em motor de inovação e diferenciação. 
As private labels passam a antecipar demandas do consumidor — desde linhas premium até opções sustentáveis e saudáveis — assumindo um papel estratégico na construção de valor. Mais do que competir com grandes marcas, elas começam a redefinir a dinâmica da indústria.
IA: prioridade máxima, retorno mínimo (por enquanto)
A inteligência artificial aparece como uma das maiores apostas do setor — mas ainda distante de gerar impacto financeiro relevante. Apenas 3% dos líderes afirmam ver ganhos significativos no EBIT até agora. 
O paradoxo é evidente: todos investem, poucos capturam valor real.
O principal potencial está na reconfiguração das operações, especialmente em áreas comerciais. A automação de tarefas repetitivas pode liberar tempo para decisões estratégicas, parcerias e desenvolvimento de categorias. No entanto, essa transformação ainda não ocorreu em escala.
O desafio, segundo o painel, não é apenas implementar IA, mas medir seu retorno e integrá-la ao core do negócio — saindo de uma lógica de custo para uma lógica de valor.
World Retail Congress: escala e discussões até 2030
Diante de um mercado de baixo crescimento, a escala se torna essencial. O setor já observa aceleração em movimentos de fusões, aquisições e alianças internacionais, buscando ganhos de eficiência e poder de negociação.
A equação do futuro do grocery europeu, portanto, passa por três pilares:
- eficiência operacional radical,
- diferenciação via marca própria e experiência,
- e uso inteligente — e mensurável — da tecnologia.
Como resumiu Delberghe, o setor não está parado. Pelo contrário: vive uma transformação intensa, impulsionada por tecnologia, mudanças no consumidor e pressão econômica — um cenário em que sobreviver já não é suficiente. É preciso reinventar o modelo.
Imagem: Danielle Mallmann / Divulgação

