Economia
Com nova fase da reforma tributária, empresas revisam operações e planejamento financeiro
Com a nova regulamentação avançando em 2026, empresas devem revisar suas operações e o planejamento das finanças.
A reforma tributária passou a ocupar espaço nas decisões estratégicas das empresas brasileiras à medida que avança a regulamentação do novo sistema de tributação sobre o consumo. Com a publicação das regras da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) pelo governo federal no fim de abril e o início da fase operacional da transição previsto para 2026, empresários têm revisado processos financeiros, contratos e modelos de gestão para se adequar ao novo cenário.
O movimento marca uma mudança de percepção no ambiente corporativo. Antes concentrada em departamentos jurídicos e tributários, a reforma agora influencia diretamente decisões relacionadas à precificação, estrutura societária, fluxo de caixa e planejamento operacional.
Segundo Márcio Lopes, CEO da Tributo Certo, empresa especializada em inteligência tributária, contabilidade estratégica e gestão empresarial, os efeitos da reforma já começaram a ser sentidos. “Muitos empresários ainda tratam a reforma como um evento futuro, mas a adaptação já começou. A empresa que continuar operando com a lógica tributária antiga corre o risco de errar na formação de preço, comprometer margem e perder competitividade.”
O novo modelo substituirá gradualmente tributos como PIS, Cofins, ICMS, ISS e parte do IPI por um sistema dual de Imposto sobre Valor Agregado (IVA), composto pela CBS, de competência federal, e pelo IBS, administrado por estados e municípios. Embora a transição ocorra ao longo dos próximos anos, especialistas apontam que os impactos estratégicos já exigem atenção das empresas.
A necessidade de adaptação tende a atingir organizações de diferentes portes. Dados do Sebrae indicam que os pequenos negócios representam 96% das empresas abertas no Brasil em 2025, grupo que pode enfrentar maiores desafios diante da complexidade das mudanças regulatórias.
Para Rafael Rocha, cofundador e executivo comercial da Tributo Certo, um dos principais equívocos é enxergar a reforma apenas sob a ótica tributária. “A reforma tributária mexe diretamente na rotina financeira da empresa. Não estamos falando apenas de imposto, mas de contratos com fornecedores, política comercial, análise de crédito, repasse de custo e previsibilidade de caixa.”
Revisão de contratos e formação de preços ganha importância
Entre as medidas já adotadas por diversas empresas está a revisão de contratos de fornecimento, acordos comerciais e políticas de precificação. A alteração na dinâmica de créditos tributários e a incidência dos tributos no destino das operações podem modificar a rentabilidade de negócios que atualmente apresentam equilíbrio financeiro.
Nesse contexto, compreender os efeitos da tributação sobre toda a cadeia operacional passa a ser uma necessidade estratégica. Segundo Márcio Lopes, a análise não pode ficar restrita ao valor final dos impostos.
“O empresário que conhece apenas o valor final do imposto, mas não entende como ele impacta a operação, pode tomar decisões equivocadas. Em muitos casos, o problema não estará no tributo em si, mas na incapacidade de reorganizar processos a tempo.”
Além das mudanças financeiras, as empresas precisarão promover adequações tecnológicas e documentais. O governo definiu 2026 como um período de adaptação operacional, exigindo ajustes em sistemas de gestão, emissão de documentos fiscais eletrônicos e processos internos para atender às novas regras.
Pequenas e médias empresas enfrentam desafios maiores
Enquanto grandes corporações já iniciaram projetos internos voltados à adaptação da reforma tributária, pequenas e médias empresas ainda apresentam menor capacidade de antecipação e planejamento. Esse cenário pode aumentar a pressão sobre organizações que já lidam com desafios relacionados a crédito, custo de capital e eficiência operacional.
Especialistas avaliam que a reforma pode acelerar a profissionalização da gestão empresarial. A necessidade de integração entre áreas, controle de processos e simulações financeiras mais precisas tende a exigir maior organização administrativa.
“Historicamente, muitas empresas brasileiras cresceram com pouca governança tributária. A reforma tributária tende a expor esse desalinhamento porque exige controle, integração entre áreas e capacidade de simulação financeira”, afirma Rafael Rocha.
Por outro lado, empresas que conseguirem utilizar o período de transição para revisar processos internos poderão identificar oportunidades de ganho de eficiência operacional e correção de distorções existentes em suas estruturas de custos.
Gestão financeira será determinante durante a transição
A expectativa é que a reforma tributária continue no centro das discussões empresariais ao longo de 2026, especialmente com o avanço das regulamentações complementares e a necessidade de testes operacionais.
Para especialistas do setor, o sucesso da adaptação dependerá da capacidade das empresas de integrar planejamento tributário, gestão financeira e estratégia operacional. Mais do que uma mudança na forma de recolher impostos, a reforma passa a influenciar decisões relacionadas à competitividade e à sustentabilidade dos negócios.
“Essa reforma tributária separa empresas que operam no improviso das que tomam decisões com inteligência financeira. O impacto não será igual para todos. Quem se prepara antes tende a absorver melhor a transição”, conclui Marcio Lopes.
