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As armadilhas financeiras que ainda travam o crescimento do varejo
O Brasil chegou a 9 milhões de empresas inadimplentes em maio de 2026, com R$ 229,9 bilhões em dívidas acumuladas, segundo a Serasa Experian. Entre as micro e pequenas empresas, esse número já soma 8,6 milhões de negócios. Os dados do IBGE reforçam a mesma leitura: apenas 35,9% das empresas empregadoras com 1 a 9 funcionários, nascidas em 2017, sobreviveram cinco anos. Em um cenário de juros ainda elevados e crédito mais caro, esses números deixam claro que o problema do varejo brasileiro não é falta de gestão financeira estruturada.
Ao longo de quase vinte anos ajudando varejistas e franquias a organizar o financeiro, tenho visto os mesmos erros se repetirem, independentemente do porte ou do tempo de mercado do negócio. São falhas silenciosas, que não aparecem no dia a dia da operação, mas corroem margem, capital de giro e capacidade de investimento até que o problema vire crise.
A confusão entre o caixa da empresa e o bolso do dono
Essa ainda é a armadilha mais comum e uma das mais perigosas. Quando uma despesa pessoal sai direto da conta da empresa, ou quando o lucro do negócio se confunde com o salário do empreendedor, a fotografia financeira deixa de refletir a realidade da operação. Sem separação clara entre pró-labore, retiradas e despesas do negócio, o dono pode acreditar que está lucrando mais – ou menos – do que realmente está. E decisão estratégica tomada em cima de número errado tende a sair cara.
Muitos varejistas experientes confiam no “feeling” para decidir, e a experiência de fato tem valor. O problema é substituir dados por intuição, em vez de usar um para embasar o outro. Quando vendas, despesas, recebíveis e fluxo de caixa estão integrados, o gestor consegue enxergar quais produtos e operações realmente dão retorno, identificar desvios cedo e projetar cenários com segurança. Sem essa integração, a intuição vira aposta.
Centralização excessiva das decisões financeiras no dono
É comum o empreendedor concentrar tudo: pagamento de contas, conciliação de cartões, conferência de vendas. O resultado é um gargalo que consome justamente o tempo que deveria ir para estratégia – buscar fornecedores, treinar equipe, planejar expansão. Em redes com várias unidades, esse acúmulo manual não só rouba horas como aumenta o risco de erro. Automatizar processos é o que permite ao gestor sair da operação e assumir de fato a análise e o crescimento do negócio.
Outro erro recorrente é achar que a saúde financeira do negócio é responsabilidade exclusiva do contador. O contador é um parceiro essencial, mas não substitui o acompanhamento direto do empresário sobre quanto há em caixa, quanto a empresa tem a receber, quais compromissos estão previstos e como está a rentabilidade da operação. Quando essa informação fica dispersa entre equipe interna e terceirizada, sem escopo definido, os problemas só aparecem quando já é tarde para agir.
Resistência a sair da planilha
Ainda hoje, boa parte dos negócios de varejo controla caixa, vendas e recebíveis em cadernos ou planilhas complexas e, portanto, suscetíveis a erro de preenchimento e a informação desatualizada. Essa resistência à digitalização não é só uma questão de conforto: ela impede uma visão estratégica do negócio e deixa passar despercebidas inconsistências que a tecnologia identificaria automaticamente.
Vender mais não é o mesmo que ganhar mais
Se existe uma lição que atravessa todas essas armadilhas, é esta: no varejo, vender mais não significa necessariamente ganhar mais dinheiro. É preciso entender o quanto realmente sobra depois de considerar custos, taxas, despesas e o prazo para receber cada venda. Quando o empresário não tem essa visão, pequenas ineficiências consomem a margem e comprometem o caixa sem que o problema seja percebido de imediato.
A boa notícia é que nenhuma dessas falhas exige reinventar o negócio para ser corrigida. Exige, sim, tratar o financeiro como área estratégica desde o primeiro caixa aberto, com separação clara de contas, dados centralizados, processos automatizados e responsabilidades bem definidas entre quem cuida da operação e quem cuida da contabilidade. Em um ambiente de crédito caro e inadimplência recorde, organização é condição de sobrevivência.
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*Maurício Galhardo é sócio da F360, maior plataforma Saas de gestão financeira voltada para varejistas e franquias no Brasil. Apaixonado por finanças, é autor de três livros de negócios e gestão financeira, tem ampla experiência em treinamentos e palestras e já treinou mais de 50 mil pessoas no varejo.
