E-commerce
Comércio agêntico: o que é e como funciona
Agentes de IA já pesquisam, comparam e fecham compras sozinhos no Brasil, e a McKinsey projeta até US$ 5 trilhões em gastos redirecionados por esse modelo até 2030
Comércio agêntico é o modelo de compra em que um agente de inteligência artificial pesquisa produtos, compara preços e conclui a transação em nome do consumidor. Há pouca ou nenhuma navegação humana pelo site do comerciante.
A McKinsey, em parceria com a ICSC, projeta que esse modelo pode redirecionar entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões em gastos globais de varejo até 2030.
No Brasil, o marco inicial já aconteceu. Em 11 de março de 2026, Banco do Brasil e Visa executaram a primeira transação de comércio agêntico do país, em piloto controlado. O agente buscou o produto, selecionou o fornecedor e concluiu o pagamento em cerca de um minuto, com autenticação bancária e tokenização.
O que é comércio agêntico
No comércio agêntico, o agente de IA atua como comprador delegado. A pessoa define parâmetros como produto, preço máximo e prazo de entrega, e o agente executa a busca, a comparação entre lojas e o checkout sem que o consumidor visite o site do comerciante durante a compra.
O modelo se diferencia do chatbot de atendimento porque vai além da conversa. Ele conecta a decisão de compra à execução da transação, incluindo pagamento. É essa etapa final, o checkout automatizado, que separa comércio agêntico de recomendação de produto assistida por IA.
Segundo pesquisa da Visa, o Agentic Commerce Consumer Study, 76% dos brasileiros pretendem usar agentes de IA para comprar, ante 44% nos Estados Unidos. Do total de entrevistados no Brasil, 67% dizem se sentir muito ou extremamente confiantes ao permitir que um agente compre em seu nome.
Como funciona uma compra no comércio agêntico
A jornada tem três etapas. Primeiro, o agente interpreta a intenção do usuário e busca opções em lojas e marketplaces. Segundo, ele compara preço, prazo e avaliação, aplicando os limites definidos pela pessoa. Terceiro, ele executa o pagamento, geralmente com credencial tokenizada e validação de risco em tempo real.
Frederico Succi, vice-presidente de Produtos e Inovação da Visa do Brasil, afirmou à Central do Varejo que a tecnologia já está pronta. Segundo ele, o desafio está em unir comércio, emissor, bandeira e agente em um mesmo caso de uso.
Succi disse ainda que sites de e-commerce precisam entregar frete, prazo e avaliação já na primeira interação. O agente não navega por páginas sucessivas como faria um usuário humano.
Renato Migliacci, vice-presidente de vendas da Adyen, disse em entrevista à Central do Varejo que a empresa trata o comércio agêntico como um canal de venda adicional, não como substituto da loja física ou do e-commerce tradicional.
Para ele, a interação com agentes de compra exige estratégia própria de conteúdo, organização de inventário e estruturação de pagamento.
Por que o modelo avança tão rápido no Brasil
Três fatores explicam a velocidade de adoção no país. O primeiro é a infraestrutura de pagamento instantâneo já madura com o Pix, que reduz a fricção para transações executadas por agentes.
O segundo é o comportamento digital do consumidor brasileiro, citado por executivos da Visa como fator de aceleração. O terceiro é a entrada simultânea de grandes plataformas.
A Stripe anunciou parceria com o Google para integrar compras diretamente ao Gemini. Já a Amazon uniu o assistente Rufus ao Alexa+, criando o Alexa for Shopping.
Segundo dados divulgados pela própria Amazon, o recurso registrou aumento de 115% nos usuários ativos mensais e alta de 400% no engajamento ano a ano. O sistema já gera cerca de US$ 12 bilhões em vendas anuais incrementais para os 300 milhões de clientes da empresa.
Ainda assim, a adoção em escala segue limitada. Segundo a IA Survey 2026, apenas 9% das marcas brasileiras têm hoje uma estratégia formal para assistentes de IA.
Quais protocolos sustentam o comércio agêntico
Três padrões técnicos organizam a comunicação entre agentes e lojas. O Universal Commerce Protocol (UCP), criado por Google e Shopify, permite que qualquer agente de IA se comunique diretamente com o sistema de checkout do comerciante.
Microsoft, Meta e Amazon já integram o comitê do UCP.
A Visa criou o Trusted Agent Protocol, que atribui a cada agente um identificador verificado, o Verified Agent ID, e exige registro de consentimento antes da transação.
A empresa também lançou o MCP Server e o Acceptance Agent Toolkit dentro do programa Visa Intelligent Commerce. O piloto começou nos Estados Unidos em setembro de 2025 e chegou ao Brasil em 29 de abril de 2026.
No campo B2B, a Gartner projeta que agentes vão intermediar mais de US$ 15 trilhões em compras até 2028, o equivalente a 90% do volume de transações entre empresas, segundo dado citado pelo Digital Commerce 360.
Os riscos da automação de compras por IA
A responsabilidade em disputas de cobrança ainda é um ponto em aberto. Uma transação contestada pode ter origem em conta de IA invadida ou em erro do próprio agente.
A definição de quem responde pelo caso, comerciante, banco ou desenvolvedor do agente, segue sem padrão definido no setor.
Há também disputa sobre autorização de acesso. A Amazon processou a Perplexity no fim de 2025, alegando que o navegador de compras Comet acessava seu site sem permissão. Em março de 2026, um juiz federal americano deu razão à Amazon e bloqueou temporariamente o acesso do Comet às contas da plataforma.
Fraude é outro ponto de atenção citado pelo setor. Redes de pagamento apontam que quadrilhas especializadas devem explorar brechas na verificação de identidade e nos fluxos de checkout automatizado à medida que o volume de transações por agente cresce.
Como o varejo brasileiro pode se preparar
A primeira etapa é técnica: estruturar dados de produto em formato legível por máquina, com estoque, preço e ficha de produto consistentes entre canais.
Segundo Maria Isabel Noronha, vice-presidente da Adyen, em entrevista à Central do Varejo, essa organização de catálogo e estoque é a fase inicial do processo, antes mesmo de qualquer integração com agentes.
A segunda etapa é de conteúdo. Páginas que hoje escondem frete, prazo e avaliação atrás de cliques do usuário deixam de ser lidas por agentes que exigem essa informação na primeira interação, segundo Succi, da Visa.
A terceira etapa é de pagamento e segurança, com adesão a protocolos como o UCP ou o Trusted Agent Protocol da Visa, conforme a bandeira usada pelo negócio.
Perguntas frequentes sobre comércio agêntico
O que é comércio agêntico?
Comércio agêntico é o modelo em que um agente de inteligência artificial pesquisa produtos, compara preços e conclui a compra em nome do consumidor, dentro de limites definidos por ele, como preço máximo e prazo de entrega. A etapa final inclui o pagamento, geralmente com credencial tokenizada. No Brasil, a primeira transação desse tipo foi feita por Banco do Brasil e Visa, em 11 de março de 2026.
Como funciona uma compra no comércio agêntico?
O agente interpreta a intenção do usuário, busca opções em lojas e marketplaces, compara preço e prazo, e executa o pagamento com validação de risco em tempo real. O processo dispensa a navegação manual do consumidor pelo site. Segundo a Visa, a primeira transação agêntica no Brasil levou cerca de um minuto do início da busca até a confirmação do pagamento.
Qual é o tamanho do mercado de comércio agêntico?
A McKinsey, em parceria com a ICSC, projeta que o comércio agêntico pode redirecionar entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões em gastos globais de varejo até 2030. No mercado B2C dos Estados Unidos isoladamente, a receita do modelo pode chegar a US$ 1 trilhão até 2030. No B2B, a Gartner projeta que agentes intermediarão mais de US$ 15 trilhões em compras até 2028.
Quais empresas já operam soluções de comércio agêntico no Brasil?
Visa e Banco do Brasil realizaram a primeira transação agêntica do país em março de 2026. A Visa expandiu o programa Visa Intelligent Commerce ao Brasil em abril de 2026. A Adyen atua com clientes como a C&A em soluções de IA aplicadas à jornada de compra. Globalmente, Amazon, Google, Stripe e Perplexity também têm iniciativas ativas de comércio agêntico.
Quais os principais riscos do comércio agêntico para o varejo?
O ponto em aberto mais citado é a responsabilidade em disputas de cobrança quando a compra é feita por um agente, sem padrão definido entre comerciante, banco e desenvolvedor do agente. Há também disputas de autorização de acesso, como o processo movido pela Amazon contra a Perplexity em 2025 por uso do navegador Comet. Fraude em checkout automatizado é apontada pelo setor de pagamentos como risco crescente.
Como uma loja se prepara para vender a agentes de IA?
A preparação começa pela estruturação de dados de produto em formato legível por máquina, com estoque, preço e ficha de produto consistentes entre canais. Em seguida, a loja precisa expor frete, prazo de entrega e avaliação já na primeira interação, sem exigir cliques adicionais do agente. Por fim, é necessário aderir a protocolos de pagamento como o UCP ou o Trusted Agent Protocol da Visa.
Comércio agêntico é o mesmo que compra por chatbot?
Não exatamente. Um chatbot de atendimento pode recomendar produtos e responder dúvidas, mas normalmente encerra a interação antes do pagamento.
O comércio agêntico inclui a execução da compra até o fim, com o agente concluindo o checkout em nome do consumidor. É essa etapa final de pagamento autônomo que distingue os dois modelos.
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Imagem: Magnific
