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Perfumes Árabes cresceram 380% no Brasil: a estratégia da Zayara
Em um mercado em expansão, a criação da Zayara mostra como posicionamento, curadoria, arquitetura e experiência podem diferenciar uma operação multimarca
Durante muito tempo, a perfumaria árabe ocupou um espaço relativamente restrito no mercado brasileiro. Nos últimos anos, esse cenário mudou rapidamente. Fragrâncias intensas, maior concentração, embalagens sofisticadas e presença crescente nas redes sociais transformaram a categoria em um fenômeno de consumo, especialmente entre públicos mais jovens.
Os números ajudam a dimensionar essa mudança. Segundo dados da Circana, divulgados pela Associação Brasileira de Embalagem (ABRE), o mercado de fragrâncias árabes movimentou mais de R$ 20 milhões no Brasil em 2024, crescimento de 380% em relação ao ano anterior. Embora ainda representasse menos de 1% do mercado de fragrâncias internacionais naquele momento, a velocidade de crescimento já indicava uma mudança relevante no comportamento do consumidor. Mais de 90% das vendas aconteciam em lojas físicas.
O movimento continuou. Dados da Circana, publicados pela Exame, apontaram crescimento de 64% nas fragrâncias árabes no primeiro semestre de 2026. O mercado brasileiro já contava com mais de 40 marcas da categoria, 15 a mais do que no ano anterior. Um estudo da Similarweb, realizado em setembro de 2026, identificou crescimento de 26,7% no interesse por perfumaria árabe desde agosto de 2025, somando mais de 1,2 milhão de buscas no período analisado.
Existe, portanto, demanda, curiosidade e um mercado em expansão. Mas, quando dezenas de fabricantes e marcas disputam atenção, como um varejista multimarca consegue construir identidade própria e se tornar destino para o consumidor?
Foi nesse contexto que nasceu a Zayara.

O Brasil e o crescimento dos perfumes árabes
O potencial da categoria precisa ser analisado dentro de um mercado brasileiro historicamente receptivo à perfumaria. Segundo a ABIHPEC, com dados da Euromonitor International, o Brasil ocupa a posição de segundo maior mercado consumidor de fragrâncias do mundo. A entidade informa ainda que a categoria cresceu 10% no país em 2025.
Essa relação do consumidor brasileiro com perfumes árabes ajuda a explicar por que a perfumaria árabe encontrou um terreno fértil no país. A intensidade e a duração das fragrâncias, as embalagens elaboradas e a presença digital contribuíram para transformar muitos desses produtos em itens de desejo.
Mas mercados que crescem rapidamente também se tornam mais competitivos. Participar de uma tendência deixa de ser um diferencial suficiente.

Uma matéria publicada pela Exame em setembro de 2026 sobre a Mawwal, fabricante de perfumes árabes criada em Dubai, ilustra esse cenário. Paulo Isper, CMO da operação brasileira, afirmou que seu desafio é “fazer a pessoa comprar a marca e não comprar o perfume árabe”. A companhia informou ter faturado R$ 66 milhões no país até agosto de 2026 e projetava encerrar o ano em R$ 100 milhões.
Para uma operação multimarca, o desafio é diferente, mas igualmente estratégico. A Zayara não fabrica as fragrâncias comercializadas em seu portfólio. Seu papel é selecionar marcas, construir curadoria, organizar a descoberta, criar serviços e desenvolver uma experiência própria, capaz de fazer o consumidor escolher a Zayara como destino de compra.
Zayara: o projeto começou antes da arquitetura
Antes de definir materiais, mobiliário ou layout, o desafio era estabelecer o que a nova operação representaria para o consumidor e como poderia construir um território próprio dentro de uma categoria em rápida expansão.
As informações sobre o desenvolvimento da Zayara e as etapas do projeto foram fornecidas pela marca e pelas equipes do Ecossistema Goakira, Potencializee e GDesign, responsáveis pelo trabalho estratégico e arquitetônico.
Por meio da Potencializee, frente de marketing estratégico do Ecossistema Goakira, o trabalho começou com a criação do nome, do posicionamento e do branding. Essa etapa estruturou a identidade da Zayara antes que sua primeira unidade física existisse, criando as bases para traduzir a marca em arquitetura, experiência, curadoria e comunicação.
Essa sequência é especialmente importante para uma varejista multimarca. Se o consumidor pode encontrar determinadas fragrâncias em outros canais, a operação precisa oferecer algo além da disponibilidade do produto. Curadoria, atendimento, experimentação, ambiente, confiança e serviços passam a fazer parte da proposta de valor.
Quando branding e arquitetura são desenvolvidos como disciplinas isoladas, o consumidor pode receber mensagens diferentes a cada ponto de contato. Quando partem de uma estratégia comum, o espaço deixa de ser apenas o local onde diferentes marcas são expostas e passa a construir a identidade da própria Zayara.
Foi com essa premissa que o projeto chegou à GDesign, responsável pela arquitetura da primeira unidade, inaugurada no Shopping Ibirapuera, em São Paulo.

Perfumes Árabes: por que a experiência física importa
Se existe uma categoria em que o espaço físico possui uma função difícil de substituir integralmente pelo digital, é a perfumaria. Escolher uma fragrância envolve experimentar, comparar, perceber sua evolução na pele, compreender diferentes notas e construir associações emocionais e pessoais.
Um levantamento realizado pela Radar em parceria com a Beauty Fair, em 2025, entrevistou 400 consumidoras na saída de dez perfumarias de São Paulo e da região metropolitana. Segundo o estudo, 74% das visitas resultavam em compra, enquanto consumidoras que recebiam atendimento especializado gastavam, em média, 78% mais. O levantamento identificou ainda que 95% das entrevistadas valorizavam o atendimento humano.
Outro estudo divulgado pela Beauty Fair apontou que 90% das consumidoras haviam visitado uma perfumaria nos seis meses anteriores, 60% compravam no canal pelo menos uma vez por mês e o tempo médio de permanência chegava a 37 minutos. Além disso, 85% consideravam a experiência em perfumarias superior à encontrada nos setores de beleza de farmácias e supermercados.
Esses dados mostram por que o ponto físico não deve ser pensado somente como local de exposição de produtos. Experimentação, atendimento, permanência e curadoria fazem parte da jornada de decisão, principalmente em uma operação multimarca.
Na Zayara, essa leitura foi incorporada desde a concepção do quiosque.

De ponto de venda a plataforma de descoberta
O primeiro espaço da Zayara foi desenvolvido para funcionar não apenas como ponto de venda, mas como plataforma de descoberta da perfumaria árabe. O projeto procurou entender quais experiências poderiam ajudar o consumidor a navegar entre marcas, conhecer perfis olfativos, experimentar e construir uma relação com a própria Zayara.
Esse desafio é ainda mais relevante em um quiosque. Diferentemente de uma loja tradicional, o espaço precisa comunicar sua proposta rapidamente e trabalhar com uma área limitada, mantendo-se aberto visualmente aos diferentes fluxos do shopping. Cada metro quadrado precisa equilibrar exposição, operação, circulação, armazenamento, atendimento e experiência.
A arquitetura precisava convidar quem passava pelo mall a interromper sua jornada e explorar um universo que, para muitos consumidores, ainda é relativamente novo.
Para uma varejista multimarca, essa lógica também organiza a complexidade da oferta. Quanto maior o número de fabricantes, famílias olfativas e produtos, mais importante é transformar variedade em curadoria, e não em excesso de informação.
A proposta acompanha o momento da categoria. Quanto maior a curiosidade despertada pelos perfumes árabes nas redes sociais e nas buscas digitais, maior a oportunidade de transformar esse interesse em experimentação concreta e orientação de compra.

Experimentação e personalização como parte da experiência
Uma das experiências desenvolvidas no projeto foi uma área dedicada à Vive, na qual o consumidor pode experimentar diferentes fragrâncias e participar da criação de um perfume autoral.
Além de descobrir produtos de diferentes fabricantes disponíveis no portfólio, o cliente pode participar de uma experiência olfativa mais personalizada, ampliando sua relação com a categoria e com o espaço.
Em outro ponto do quiosque, a experiência continua com a personalização do frasco ou da embalagem, permitindo gravar um nome ou uma mensagem. O recurso adiciona uma nova camada à compra, especialmente em ocasiões de presente, ao transformar um produto selecionado dentro da curadoria multimarca em algo associado àquela pessoa e àquele momento.
Essas experiências não foram inseridas apenas como elementos de entretenimento. Elas aumentam os pontos de interação, criam motivos para permanência, estimulam a conversa com a equipe e ampliam a capacidade de experimentação.
Também ajudam a construir lembrança da própria Zayara, e não apenas das marcas expostas. O cliente pode chegar atraído por um perfume ou fabricante específico, mas a experiência precisa fazer com que se lembre de onde comprou, de como foi atendido e de por que vale a pena retornar.

Branding, arquitetura e lançamento na mesma estratégia
A construção da Zayara também levanta uma questão maior sobre novas marcas de varejo. Naming e identidade visual, arquitetura, definição do mix e lançamento muitas vezes são desenvolvidos em frentes separadas, com pouca conexão entre as equipes.
Esse modelo aumenta o risco de fragmentação. O consumidor não percebe uma varejista multimarca apenas pelas marcas que ela vende. Ele também experimenta o ambiente, a seleção de produtos, o atendimento, a organização das categorias, os serviços e a comunicação.
Na Zayara, acompanhar o projeto desde a origem permitiu conectar estratégia de marca, identidade, curadoria, espaço físico e experiência. O posicionamento definido antes da arquitetura criou parâmetros para as decisões espaciais, enquanto o quiosque precisou transformar esses atributos em algo que pudesse ser visto, tocado, experimentado e vivido.
A integração ganha relevância diante de uma ambição de expansão. A primeira unidade pode funcionar como laboratório, no qual conceito, operação, exposição, curadoria e experiência formam um sistema capaz de orientar as próximas unidades.
O trabalho também incluiu a estratégia de Go to Market, o planejamento da inauguração e a frente estratégica de influenciadores, desenvolvidos pela Potencializee. Essas ações conectaram o espaço físico à comunicação necessária para apresentar uma marca varejista ainda desconhecida ao mercado.
A etapa é especialmente importante em uma categoria impulsionada pelo ambiente digital. Segundo dados da Circana divulgados pela ABRE, a presença nas redes sociais contribuiu para o crescimento dos perfumes árabes. Em 2025, a entidade registrava mais de 61 mil conteúdos publicados com a hashtag #perfumearabe.
Em 2026, a Mawwal atribuiu parte significativa de seu crescimento no país ao TikTok Shop e informou à Exame que uma campanha realizada em agosto havia alcançado mais de 100 milhões de visualizações na plataforma. Embora o exemplo não diga respeito à Zayara e os seus perfumes árabes, evidencia a aproximação entre descoberta digital, influência e venda nessa categoria.
Para uma marca multimarca, inaugurar não é simplesmente abrir um ponto de venda. É coordenar curadoria, espaço, conteúdo, influência e comunicação para gerar reconhecimento desde os primeiros contatos com o consumidor.
Da tendência à construção de uma marca de perfumes árabes
A Zayara inaugurou sua primeira unidade no Shopping Ibirapuera, em São Paulo. Segundo o planejamento informado pela marca, ao menos quatro novas inaugurações estão previstas para os próximos meses. A expansão torna ainda mais relevante a criação de uma base estratégica capaz de orientar as próximas etapas.
Existe uma diferença entre aproveitar uma categoria em alta e construir uma marca varejista própria dentro dela. A primeira estratégia pode se apoiar no interesse por determinados fabricantes ou produtos; a segunda precisa criar razões para que o consumidor escolha aquele varejista mesmo quando encontra produtos semelhantes em outros canais.
Os números mostram a oportunidade. As fragrâncias árabes cresceram 380% no Brasil em 2024 e avançaram outros 64% no primeiro semestre de 2026, segundo a Circana. O interesse digital superou 1,2 milhão de buscas no recorte analisado pela Similarweb, enquanto o Brasil permanece como o segundo maior mercado de fragrâncias do mundo, segundo dados da Euromonitor divulgados pela ABIHPEC.
Mas o aumento da concorrência também importa. Com mais de 40 marcas de perfumaria árabe presentes no país, a tendência tende a deixar de ser um diferencial por si só.
Foi por isso que, na construção da Zayara, o projeto começou antes da arquitetura e continuou depois da inauguração. Naming, posicionamento, branding, curadoria, espaço físico, experimentação, personalização e estratégia de lançamento foram desenvolvidos como partes de uma mesma construção de marca.
O crescimento de uma categoria pode abrir uma janela de oportunidade, mas não garante preferência, recorrência ou relevância no longo prazo. À medida que a perfumaria árabe amadurece no Brasil, o diferencial tende a deixar de ser apenas ter acesso aos produtos em alta e passar a ser a capacidade de construir uma experiência de varejo que faça o consumidor reconhecer, confiar, retornar e escolher novamente aquele destino de compra.
Leia também: Quiosque da Zayara: entre, sinta e escolha
Imagens: GDesign


Por Bianca Murotani | Arquiteta especialista em varejo e sócia na GDesign, vertical de arquitetura e visual merchandising do Ecossistema Goakira. Seu maior objetivo é difundir seu conhecimento sobre arquitetura comercial e estratégica para melhorar a experiência e resultado do varejo físico.
