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Black Friday: vender muito não é o mesmo que lucrar

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Black Friday

Em 2025, o e-commerce nacional movimentou mais de R$ 10 bilhões durante a Black Friday, alta de 7,8% em relação ao ano anterior, segundo a Confi Neotrust. Para este ano, a expectativa é de novo crescimento nas vendas da data, em um mercado para o qual a ABComm projeta faturamento superior a R$ 258 bilhões ao longo de 2026. Mas o desafio do varejista na Black Friday, que acontece no dia 27 de novembro, raramente é a falta de venda. É fazer com que o aumento das vendas também apareça no caixa e na margem.

Há mais de vinte e cinco anos ajudando varejistas e franquias a organizar o financeiro, vejo o mesmo cenário se repetir a cada novembro: promoções agressivas, aumento das vendas, faturamento recorde e, semanas depois, um caixa apertado e a dificuldade de explicar para onde foi o resultado. Isso não significa que a Black Friday cria novos problemas financeiros, mas ela acelera os que já existem e expõe, em poucos dias, o nível de maturidade da gestão.

O caixa não acompanha o ritmo das vendas

No período, o primeiro choque vem do descasamento entre prazos. Boa parte das compras da Black Friday é parcelada no cartão, enquanto fornecedores e outras despesas podem vencer antes do dinheiro entrar no caixa. Sem uma simulação prévia desse fluxo, o varejista pode precisar antecipar recebíveis ou recorrer a crédito para financiar uma operação que, no papel, parecia altamente lucrativa. O problema é que o custo dessa decisão pode consumir justamente a margem conquistada com as vendas.

Por isso, o planejamento da Black Friday deveria começar pelo caixa, e não apenas pela meta de faturamento. É preciso projetar entradas e saídas, considerar taxas, prazos de recebimento e eventual custo de antecipação. Quem conhece esse impacto antes de colocar uma promoção na rua consegue definir até onde pode ir sem transformar crescimento de vendas em pressão financeira.

Desconto não pode ser confundido com resultado

A pressão por preço durante a Black Friday é grande, e muitos negócios entram na disputa de descontos sem calcular quanto cada produto efetivamente deixou de lucro. O resultado é um período de vendas altas e uma margem que não cobre custos, taxas e despesas.

Uma promoção pode aumentar significativamente o número de pedidos e, ainda assim, destruir a rentabilidade. Antes de definir qualquer oferta, é preciso conhecer a margem de cada item e estabelecer um limite mínimo para a operação. Combos, descontos progressivos e outras estratégias podem ser eficientes, mas precisam ser avaliados pelo impacto financeiro, não apenas pelo potencial de atrair consumidores.

Estoque também é uma decisão financeira
O mesmo raciocínio vale para a compra de estoque. Na expectativa de vender mais, é natural aumentar os pedidos aos fornecedores. O risco está em errar na medida.

Comprar de menos significa perder vendas em uma das principais datas do varejo. Comprar demais significa transformar capital em produto parado e manter o caixa comprometido depois que a campanha termina.

A experiência do lojista é importante, mas ganha precisão quando combinada com dados históricos de vendas, comportamento de consumo e capacidade financeira. Quando estoque, vendas e caixa são analisados em conjunto, a decisão de compra deixa de ser uma aposta baseada apenas na expectativa de demanda.

Mais transações, mais riscos

O aumento do volume de transações traz outro efeito pouco discutido: crescem também as possibilidades de cancelamentos, devoluções, fraudes, divergências de pagamento e inadimplência. São custos que podem ficar fora da conta inicial da campanha e aparecer justamente quando a empresa já está contabilizando o resultado.

Por isso, políticas claras de troca e devolução, mecanismos antifraude e acompanhamento dos pagamentos não são apenas questões operacionais. Fazem parte da conta financeira da Black Friday e precisam ser considerados antes da campanha.

Esse volume também coloca à prova a qualidade dos controles internos. Quando vendas, recebimentos e movimentações bancárias ainda dependem de planilhas e lançamentos manuais, o aumento das transações amplia a possibilidade de erro e reduz a velocidade das informações para a tomada de decisão.

É nesse ponto que a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta de eficiência e passa a cumprir um papel financeiro. Integrar dados de vendas, pagamentos, bancos e estoque permite acompanhar, com maior precisão, margens, recebíveis e fluxo de caixa. A conciliação automática de cartões e contas bancárias, por exemplo, ajuda a identificar divergências entre vendas, taxas e repasses e a verificar se o valor esperado efetivamente chegou ao caixa.

O resultado se decide antes da data

Uma operação saudável não deveria descobrir sua rentabilidade depois que a campanha termina. O resultado precisa ser projetado antes. Isso significa saber quanto pode ser descontado sem comprometer a margem, quanto estoque o caixa comporta, quando os recebimentos vão acontecer e quais custos adicionais podem surgir com o aumento das vendas. A tecnologia ajuda a acompanhar essas variáveis, mas não substitui a decisão financeira.

Em um cenário de crédito caro e consumidores cada vez mais sensíveis a preço, a Black Friday não deveria ser uma corrida pelo maior faturamento possível. Deveria ser um exercício de disciplina financeira. Porque, no fim, o melhor resultado da Black Friday não é vender mais. É terminar a data com mais dinheiro no caixa do que havia antes dela.

Leia também: As armadilhas financeiras que ainda travam o crescimento do varejo


Maurício Galhardo é sócio da F360, maior plataforma Saas de gestão financeira voltada para varejistas e franquias no Brasil. Apaixonado por finanças, é autor de três livros de negócios e gestão financeira, tem ampla experiência em treinamentos e palestras e já treinou mais de 50 mil pessoas no varejo.

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