Mulheres do Varejo
Novos formatos de farmácias: uma oportunidade para o supermercado ir além da conveniência
A integração entre saúde, conveniência, tecnologia e varejo pode abrir espaço para modelos menores, mais eficientes e adaptados às novas necessidades do consumidor
O avanço dos novos formatos de farmácias está criando uma oportunidade relevante para o varejo brasileiro. Mais do que simplesmente vender medicamentos, o movimento aponta para uma transformação na relação entre saúde, conveniência e consumo. E um dos protagonistas dessa mudança pode ser justamente o supermercado.
Durante muito tempo, farmácias instaladas em supermercados foram vistas como uma extensão comercial do negócio. Agora, o cenário regulatório e as mudanças no comportamento do consumidor permitem pensar em algo mais amplo: formatos compactos, integrados ao ecossistema do supermercado e apoiados por tecnologia.
A mudança ganhou respaldo legal em 2026. A Lei nº 15.357, de 20 de março de 2026, alterou a Lei nº 5.991/1973 e passou a permitir expressamente a instalação de farmácias ou drogarias na área de venda de supermercados.
A legislação determina, entretanto, que esse espaço seja fisicamente delimitado, segregado e exclusivo para a atividade farmacêutica, independente dos demais setores do supermercado, além de cumprir as exigências legais, sanitárias e técnicas aplicáveis.
A oportunidade está na combinação entre saúde e conveniência
O supermercado já faz parte da rotina de milhões de brasileiros. É um ambiente de frequência elevada, no qual o consumidor resolve diferentes necessidades em uma única jornada de compra.
Inserir serviços relacionados à saúde nesse ecossistema pode representar uma evolução natural do conceito de conveniência.
Mas não se trata simplesmente de colocar medicamentos em uma gôndola.
A legislação é clara ao estabelecer que a farmácia ou drogaria deve possuir espaço próprio, segregado e independente dos demais setores. Também são consideradas exigências relacionadas a recebimento, armazenamento, controle de temperatura, ventilação, iluminação, umidade, rastreabilidade, dispensação, assistência e cuidados farmacêuticos.
Além disso, a operação precisa estar devidamente licenciada e atender às exigências dos órgãos competentes. A Autorização de Funcionamento de Empresa (AFE), quando aplicável, integra o processo de regularização sanitária de farmácias e drogarias, juntamente com as licenças sanitárias exigidas pelas autoridades locais.
Portanto, existe uma oportunidade, mas ela vem acompanhada de responsabilidade regulatória.
O grande desafio: o custo da operação
É justamente nesse ponto que surge uma das principais questões para os supermercados: como tornar economicamente viável uma farmácia de pequeno porte?
A operação tradicional possui uma estrutura de custos que pode ser pesada para formatos menores. Um dos principais componentes é a necessidade de manter farmacêutico legalmente habilitado durante todo o horário de funcionamento.
A própria Lei nº 15.357/2026 estabelece essa obrigatoriedade para farmácias e drogarias instaladas em supermercados.
Isso significa que não basta reduzir metros quadrados para reduzir custos.
É necessário repensar o modelo operacional.
Tecnologia, automação, integração de sistemas, gestão inteligente de estoque, monitoramento remoto de indicadores, inteligência de dados, processos digitais e integração com plataformas de comércio eletrônico podem contribuir para reduzir atividades manuais, melhorar produtividade, controlar perdas e tornar a operação mais eficiente.
A tecnologia, portanto, não deve ser vista como substituta do profissional farmacêutico, mas como uma ferramenta para que esse profissional possa dedicar mais tempo às atividades que realmente exigem conhecimento técnico, responsabilidade e relacionamento com o consumidor.
Menor não significa simplesmente “uma farmácia pequena”
Esse é um ponto que merece atenção.
Um novo formato não deve ser concebido apenas como uma farmácia tradicional reduzida em tamanho. A proposta precisa nascer de uma nova lógica de operação.
Qual é o sortimento adequado?
Quais categorias fazem sentido para aquele público?
Quanto estoque é realmente necessário?
Como integrar o estoque da loja física com centros de distribuição?
Como utilizar dados para prever demanda?
Como reduzir rupturas e perdas?
Como oferecer conveniência sem comprometer a assistência farmacêutica?
Essas perguntas são fundamentais para desenhar modelos economicamente sustentáveis.
É possível imaginar diferentes formatos, de acordo com o tamanho da loja, fluxo de consumidores, perfil da região e estratégia comercial do supermercado.
O ponto central é que o tamanho físico precisa ser consequência do modelo de negócio, e não o contrário.
Tecnologia como parte da arquitetura do novo formato
Quando se fala em pequenos formatos, a tecnologia passa a ter papel ainda mais importante.
Uma operação compacta precisa trabalhar com estoque racionalizado, abastecimento eficiente, integração com sistemas de gestão e capacidade de analisar rapidamente o comportamento de compra.
Também pode incorporar soluções de atendimento digital, ferramentas de apoio à gestão farmacêutica, monitoramento de temperatura e condições de armazenamento, inteligência de sortimento, reposição automatizada e integração com canais digitais.
A própria legislação de 2026 prevê que farmácias e drogarias, licenciadas e registradas pelos órgãos competentes, possam contratar canais digitais e plataformas de comércio eletrônico para fins de logística e entrega ao consumidor, desde que cumprida integralmente a regulamentação sanitária aplicável.
Isso amplia a possibilidade de pensar a farmácia não apenas como um ponto físico, mas como parte de um ecossistema omnicanal de saúde e conveniência.
Novos formatos podem ampliar o acesso
A discussão sobre formatos compactos também precisa considerar a diversidade do varejo brasileiro.
Nem todo supermercado possui espaço ou demanda para instalar uma farmácia tradicional de grande porte. Mas isso não significa necessariamente que não exista oportunidade.
É justamente nesse espaço que surgem os estudos sobre modelos menores e mais eficientes.
A Dias&Gomes Consultoria de Negócios e a Quantics Global vêm trabalhando no desenvolvimento de projetos voltados a novos formatos de saúde e conveniência, estudando soluções que possam viabilizar operações a partir de aproximadamente 10 m², sempre considerando que o formato final precisa ser validado de acordo com as exigências legais, sanitárias e técnicas aplicáveis a cada operação.
A proposta não é simplesmente diminuir a farmácia.
É reconstruir o modelo operacional a partir da realidade do varejo.
Novos formatos exigem uma nova visão de negócio
O supermercado brasileiro já deixou de ser apenas um lugar para comprar alimentos. Cada vez mais, o consumidor procura conveniência, serviços, soluções e economia de tempo.
A saúde pode fazer parte dessa transformação.
A nova legislação abre uma porta importante, mas a regulamentação e a operação estabelecem limites que não podem ser ignorados. A existência de uma área segregada, o licenciamento adequado, a regularização junto aos órgãos competentes e a presença do farmacêutico durante todo o funcionamento são requisitos fundamentais.
O desafio empresarial, portanto, está em encontrar o equilíbrio entre espaço, sortimento, pessoas, tecnologia, custos e experiência do consumidor.
Talvez a pergunta mais interessante para o supermercado já não seja: “vale a pena ter uma farmácia?”
A pergunta passa a ser:
qual é o formato de farmácia que faz sentido para cada loja, para cada região e para cada consumidor?
É nesse território que os novos formatos podem ganhar relevância.
Não necessariamente maiores.
Não necessariamente mais caros.
Mas, sobretudo, mais inteligentes, eficientes, integrados e preparados para o futuro do varejo e da saúde.
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*por Cida Gomes. Contadora, Assistente Social, Pós-graduada em Marketing de Varejo e Programação Neurolinguística, MBA em Gestão de Negócios e Conselheira Consultiva. Foi uma das primeiras mulheres a assumir a Diretoria de Operações em grandes empresas como o Grupo Pão de Açúcar, a Makro, a Galeazzi & Associados e outras organizações. Atua como mentora de executivos, empreendedores e mulheres em processos de desenvolvimento profissional, sucessão e transformação de carreira. É autora do livro Varejo Quântico, obra escrita em parceria com Aguinaldo Marques, na qual apresenta uma visão inovadora sobre pessoas, negócios e transformação no varejo. Acompanhe a autora no LinkedIn, no Instagram e em seu site.
Imagem: Divulgação
